Marlon Peña Labrador, embaixador da Venezuela em Angola

“A cultura é janela pela qual a Venezuela entrou em África, não é o petróleo”

22 Dec. 2021 Grande Entrevista

Desde 2019 em Angola como embaixador da Venezuela, Marlon Peña Labrador procura reforçar a cooperação nos variados domínios, sobretudo na cultura e exploração mineira e não deixa de sonhar com uma ligação aérea entre os dois países para fomentar o turismo. Em entrevista ao VE, olha para incipiente balança comercial, a importância de os países diversificarem a economia perante a crise provocada pelo baixo preço do petróleo e manifesta o desejo de ver Angola no grupo de países que apoia a Venezuela a manter a produção petrolífera. Explica ainda os contornos do embargo imposto pelos Estados Unidos.

“A cultura é janela pela qual a Venezuela entrou em África, não é o petróleo”

Com dois anos em Angola, quais foram os temas prioritários no contacto com as autoridades angolanas?

O primeiro esforço que a Venezuela fez, neste século, foi a visita a Luanda do presidente Hugo Chaves, em 2006. Foi a primeira visita de um presidente venezuelano a Angola emarcou um novo relacionamento entre as duas nações. Nessaaltura, Hugo Chaves fez-se acompanhar pelo então ministro das Relações Exteriores, Nicolas Maduro. Os dois países partilham espaço multilateral, no domínio das instituições internacionais fazem parte das Nações Unidas, do Movimento de Países Não-Alinhados, partilharam o assento no Conselho de Segurança da ONU, também no Conselho dos Direitos Humanos, em Genebra. EmAgostode 2006, começou um novo relacionamento, mas, se formos mais atrás, foi a 9 de Dezembro de 1986 em que os dois países assinaram o acordo de restabelecimento das relações diplomáticas.

E hoje ?

Sou o segundo embaixador da Venezuela em Angola e, depois de a visita de Hugo Chaves elevar a um novo patamar as boas relações entre as duas Repúblicas, é para mim um desafio nos demais diversos domínios. Tínhamos cooperação no domínio, por exemplo, do ensino superior. A Venezuela, em 2009 e 2010, formou mais de 80 angolanos nas suas universidades. Voltaram médicos, engenheiros, profissionais de desporto e não só. A Venezuela, por ser um país muito semelhante a Angola no que diz respeito à economia petrolífera, entende serem precisos também reforços para se cooperar neste domínio. A Venezuela incentivou o surgimento da OPEP eencorajou o ingresso de Angola na organização. Também temos o desafio nos recursos minerais, está a tratar-se há algum tempo o assunto da cooperação.

O que falta?

É concretizar alguns projectos que já foram assinalados e acordos assinados que pararam, em princípio, por causa da crise económica global que fez com que os países tivessem uma recessão económica. Quando olhamos para os dois países que dependem da renda do petróleo e o preço baixa, a economia fica deprimida e começam a olhar mais para dentro, procurando investimento, a necessidade de diversificar a economia.Por causa disso pararam um pouco alguns projectos de cooperação. Logo a seguir apareceu a pandemia que complicou um pouco a cooperação em alguns domínios.

O projecto é elevara novo patamar as boas relações em todos os possíveis domínios. Estamos a trabalhar na cooperação no turismo, transporte, comunicações e olhar para uma possível conexão área entre Angola e Venezuela, mesmo que seja triangulada.

Há também projectos no domínio da cultura…

Sim, naturalmente, para nós África é o berço da humanidade, daí cooperamos neste domínio. Temos uma grande população afro-descendente. Mais de 50% da população venezuelana é afrodescendente, portanto, a cultura é um pilar da cooperação com África, especialmente com Angola.Todo 25 de Maio, fazemos a semana de África, convidamos artistas africanos e das caraíbas. Em 2021 Angola participou no formato virtual por causa da pandemia. O Gabriel Tchiema fez a abertura da sétima edição do ‘Festival dos Povos de África’ na Venezuela. A cultura é janela pela qual a Venezuela entrou em África, não é o petróleo. Muita gente diz que estamos em África por causa do petróleo, somos o terceiro país na América Latina com maior presença em África, a fazer o seu reforço de integração natural com o continente berço. Agora temos 17 embaixadas em África. A nossa presença é numa cooperação pacífica, de diplomacia bolivariana.

Pensam em criar casas de cultura?

É um assunto abrangente. A embaixada é uma casa de cultura, a Venezuela toda é uma casa de cultura e queremos que todos venezuelanos tenham Angola como casa de cultura. Encorajamos os venezuelanos que trabalham aqui que façam um roteiro cultural, que visitem os museus. A embaixada é quase uma agência de turismo para os venezuelanos que vêm a Angola e dos angolanos que pretendam visitar a Venezuela a fazer a mesma coisa. Estamos a fazer cooperação com artistas, escritores e com o Governo, falamos já com a secretária de Estado para a Cultura que nos olhe como um parceiro natural neste domínio.

Os venezuelanos sentem-se atraídos pela cultura angolana?

É uma mistura. Há venezuelanos que vem em Angola por razão de serviço. Como embaixada, temos feito esforço para que o venezuelano, por exemplo, a trabalhar na indústria petrolífera, tire tempo para conhecer Angola. É muito triste quando termina o contrato, volta ao nosso país e não conhece a história de libertação nacional, de acordos, o desenvolvimento que Angola tem nos últimos anos, a cultura e a tradição.

Os venezuelanos vêm a Angola trabalhar e não para turismo?

Vir em Angola só para o turismo é onde está o desafio. Continuamos a trabalhar para fazer com que um avião da TAAG ou Linha Nacional da Venezuela possa trazer ou levar turistas.

A linha é atractiva?

É nisso em que estamos a tentar a trabalhar com o ministério e outras entidades para fazer com que seja um negócio atrativo.

O Ministério está receptivo?

A Venezuela enviou cartas de intenções ao mais alto nível. Em alguma altura vão dar despacho, o assunto está encaminhado.

Para tal tem de existir facilidade nos vistos…

Em 2018, durante a visita o nosso ministro das Relações Exteriores, assinou com Angola o acordo de isenção de vistos para passaportes diplomáticos e de serviço. Este é o primeiro passo. Os dois países, conforme veem a troca de visita e cooperação, atingem um relacionamento mais rápido neste assunto dos vistos. Não há qualquer problema para um angolano que cumpra com os requisitos viajar à Venezuela, temos vistos de turismo, para estudantes bolseiros e investidores.Vamos deixar andar um pouco o assunto até atingir um nível de relacionamento que permita a mobilidade horizontal e vistos.

Angolanos têm solicitado vistos?

Agora está tudo parado por causa da pandemia. Antes, sim, para os estudantes bolseiros, trazia uma outra dinâmica na geração de vistos. Temos a esperança que no domínio comercial possamos atingir um relacionamento importante a nível dos empresários, privado-público, público-público. Neste domínio estamos a falar com a Câmara de Comércio de Exportação da Venezuela para ver como é que os dois países podem fazer trocas comerciais de produtos nacionais. Uma cooperação pacífica que visa acrescentar à balança comercial entre os dois países, fizemos um acordo, em formato online, entre a Câmara de Comércio e Indústria Hispano-americana em Angola e o Banco de Exportação da Venezuela para criação de um conselho binacional empresarial que encoraje o empresário dos dois países a olhar para os produtos que fazem, por exemplo na agricultura.

As trocas comerciais certamente ainda estão aquém do desejado…

Sim, porque a nossa história comercial sempre olhava para o norte, países mais fortes cuja economia e produção são maiores e que podem fazer com que o mercado que necessita o nosso país possa ser atingido por eles. Mas este assunto, da cooperação enquadra-se no Sul-Sul, que o nosso país tem de fazer com países com economia, desafios e história muito semelhantes. Os dois países podem explorar as suas potencialidades, por exemplo no domínio dos recursos minerais, a Venezuela não tem experiência na exploração de diamantes e todo processo de diamante kimberley, Angola pode ajudar.

Há investidores angolanos interessados a investir neste sector?

A diplomacia é uma longa caminhada. Como embaixador procuro ter o fruto da cooperação o mais rápido possível no quadro da cooperação em todos os domínios. Não é muito fácil por causa da crise do sistema capitalista mundial, das commodities, fez muito mal a nossa economia, da crise sanitária que obrigou ao encerramento das fronteiras e também parou a cooperação. Precisa-se de muita paciência, no final consegue-se, sendo optimista.

Afinal, qual são os números concretos das trocas comerciais entre os dois países?

São fracos. É por isso que encorajamos a cooperação entre camaras de comércio para que sejam elas próprias, com a experiência que têm, incentivarem os empresários a investirem, fazer trocas comerciais. Temos de olhar para o assunto das alfândegas, transporte marítimo. Estas questões estão sendo faladas. A Venezuela fez um censo para ver qual é o número de empresário que tem interesse de cooperar com Angola, vamos entregar a contraparte.

E como vê a questão da segurança dos investimentos no mercado angolano?

Quando não temos a primeira experiência, não podemos dizer que é seguro ou não. A Venezuela tem uma lei que garante que o investimento tenha retorno, porque ninguém faz investimento sem tê-lo. O que procuramos é que seja um país seguro para investimento, o empresário tenha retorno e confiança.

Qual é o número da comunidade venezuelano e quais problemas apresenta?

É reduzido. Serão por volta de 200 venezuelanos entre empresários, operários, religiosos e médicos. Problemas existem em toda a parte do mundo, é mais de adaptação.

Como caracteriza o ambiente político na Venezuela?  

O clima político no nosso país é resultado de um processo histórico que culminou com a revolução no final do século passado. No ano de 1999 foi o pleito eleitoral que permitiu o comandante Hugo Chaves atingir o poder, sendo o primeiro presidente de um partido de esquerda da Venezuela desde a independência. Esta mudança para um país petrolífero fez com que houvesse grandes alterações na vida política, económica, social e cultural. Tínhamos a metade da população analfabeta, 80% era pobre, dos quais 23% vivia com menos de 1 dólar por dia. Essa realidade fez com que houvesse mudança, a primeira era da Constituição para que fosse possível conseguir fazer conquistas. No ano 2000, começa a funcionar a nova Constituição, o processo de transformação social, política e económica do país. O presidente fez questão que a riqueza do petróleo não tivesse na mão de famílias, queria que as receitas servissem de investimento em diversos domínios da sociedade. Por exemplo, pegar na riqueza do petróleo fazer escolas, hospitais, estradas, novas cidades para que o país começasse a desenvolver. O que aconteceu é que a oligarquia não gostou da mudança social que o presidente Chávez fazia e começa uma guerra entre o Governo revolucionário e a oligarquia local, que era muito poderosa. Não queriam que o Governo fizesse um aumento do salário. Isto chateou a oligarquia, em parceria com os países do Norte, principalmente dos EUA e a Espanha, começaram a criar condições para confrontação política e utilizaram a mídia para criar uma ideia global que tínhamos um presidente totalitário e uma ditadura. Durante os 21 anos de governo bolivariano revolucionário fizemos 27 pleitos eleitorais, por acaso Angola participou no último e deu nota positiva. A democracia é participativa em consolidação, mas há muita sabotagem do empresário privado que não quer saber da transformação social, que a riqueza seja distribuída equitativamente.

O governo de Washington, conforme acompanha a situação, vê a oposição enfraquecida, que não tem como reverter o processo de transformação social.

Não considera Juan Guaidó um adversário forte de Nicolás Maduro?

Isso recentemente, mas antigamente o governo americano fez muita coisa para mudar o regime, como eles dizem, e, como não conseguiram, fazem uma sabotagem, guerra económica para quebrar as pernas do projecto bolivariano. Em 2015, o Parlamento era controlado pela oposição, aí aparece o deputado Juan Guaidó como parte dos deputados, cada ano o Parlamento muda de presidente. Foi assim que Guaidó foi eleito presidente do Parlamento no quarto ano e é encorajado pelos EUA para se auto-proclamar, numa praça pública, presidente do país e 30 minutos depois é reconhecido pelo governo norte-americano, 24 horas depois outros países o fizeram a mando de Washington.

Esta confusão política nunca tinha acontecido na história, trata-se de uma manobra para mudar o regime. Este é um projecto que fizeram dentro do Parlamento, fora do controlo do Estado, porque tinham uma ferramenta muito poderosa, os media. O mundo estava a olhar para Guaidó, mas a Venezuela tinha como presidente constitucional Nicolás Maduro. Terminado o mandato no Parlamento, em finais de 2020, ele [Guaidó] já não aparece, não é mais deputado porque terminou o mandato. É uma figura política incentivada pelo governo norte-americano a fazer confusão no país. Como não teve sucesso, os EUA fizeram um bloqueio ao país.

E como vivem com o embargo?

Com resiliência, persistência, humildade e trabalho. A população trabalha todos os dias com muitos desafios económicos por causa de um bloqueio. Eles fecharam a torneira, fizeram embargo ao mercado petrolífero venezuelano. Mesmo assim, enfrentamos os desafios, faz com que seja necessário diversificar a economia, não podemos continuar a pensar que o petróleo vai continuar a ser a fonte de riqueza para sempre. Temos de ir para agricultura, como um pilar de desenvolvimento da economia nacional. Devemos olhar para outros domínios e encorajar a sociedade a fazer o melhor possível para que a indústria possa andar em parceria com os países amigos como a China, índia, Rússia, Turquia, Cuba e não só. O Irão, como país bloqueado, nos tem apoiado para que a indústria petrolífera possa continuar. É uma sabotagem muito grande, mas a Venezuela não vai cair de joelhos.Não temos problemas com a sociedade norte-americana, admiramos o desenvolvimento desta sociedade. O nosso problema é a intervenção nos assuntos internos por parte da administração Washington que não nos permite andar e desenvolver sozinhos.

O embargo não afecta a cooperação petrolífera com Angola?

Não posso dizer se comprometeu ou não. A Venezuela e Angola partilham uma cadeira na OPEP. Temos um acordo, em 2006, os doisministros dos Petróleos,na altura,assinaram a cooperação no domínio dos petróleos. Temos base jurídica que permite a cooperação. Nós fizemos em grande esforçopara que Angola entrasse na OPEP, vamos continuar a apoiar neste domínio e esperamos que Angola participe no grupo de países que nos apoia em manter a produção.

Em 2019, à saída de uma audiência no Palácio, disse que o presidente João Lourenço apelou ao bom senso dos actores políticos para que fosse encontrada uma solução para o quadro humanitário e a instabilidade política na Venezuela. Resultou?

A mensagem foi encaminhada, acolhemos com muita simpatia. Nessa altura, estávamos a viver a instabilidade política. Fez também noutras ocasiões em encontros internacionais, sempre apelando o bom senso dos actores políticos.

Como se justifica dois dos maiores produtores de petróleo terem grande parte da população pobre?

Não posso falar de Angola. Mas posso falar da Venezuela no que tem a ver com a gestão da riqueza gerada pelo petróleo. Começamos a explorar o petróleo em 1920, foi a indústria americana que fez toda a estrutura. O design desta estrutura foi feito para que o nosso petróleo fosse encaminhado ao mercado norte-americano durante muitos anos. Quando a gente percebeu que as políticas estavam feitas para beneficiar um grupo pequeno, que não deixavam ganhos para o país, era já muito tarde.

Em 2022, Angola realiza eleições. Como para o clima político frenético?

Todo o processo eleitoral democrático é uma oportunidade para o reforço da democracia, é uma festa que o povo angolano tem de olhar com alegria.Aoportunidade de ir ao pleitoleitoral permite à população fazer a sua expressão democrática.

Para quando uma visita de Nicolás Maduro a Angola ou de João Lourenço a Venezuela?

Gostaria que fosse amanhã. É um assunto em que estamos a trabalhar. Estamos a fazer tudo para que, no próximo ano, nos primeiros meses, aconteça uma visita de uma entidade venezuelana a Angola ou o contrário. O convite está aberto.

Perfil“A cultura é janela pela qual a Venezuela entrou em África, não é o petróleo”

Marlon Peña Labrador nasceu em Caracas, Venezuela, a 11 de Junho de 1980. É especialista em Saberes Africanos pelo Instituto de Pesquisas Estratégicas sobreÁfrica e sua Diáspora na Venezuela, pelo Instituto de Altos Estudos Diplomáticos Pedro Gual. É embaixador da Venezuela em Angola desde 2019 e acumula funções como representante do seu país na Zâmbia e São Tomé e Príncipe. Foi o primeiro embaixador venezuelano em Moçambique entre 2013 e 2018. Além da carreira na diplomacia, é professor deEstudos Políticos e de Governo e conferencista em diversas instituições académicas e sociais na Venezuela, Argentina, São Vicente e Granadinas, Angola e Moçambique.