E agora pergunto eu...

21 Jan. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana em que o mundo beirou nova guerra, desta feita no Irão, país sobre o qual pairam dúvidas sobre capacidades nucleares, e em que a notícia de que o Papa vai visitar Angola transformou o país numa “placa giratória”, segundo o slogan que por aí anda proliferado pelas bocas de muitos militontos... mas e agora pergunto eu, qual é o interesse de ter um país transformado numa placa? Ainda que gire? Pelo menos para aqueles que vivem na placa?

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana em que o mundo beirou nova guerra, desta feita no Irão, país sobre o qual pairam dúvidas sobre capacidades nucleares, e em que a notícia de que o Papa vai visitar Angola transformou o país numa “placa giratória”, segundo o slogan que por aí anda proliferado pelas bocas de muitos militontos... mas e agora pergunto eu, qual é o interesse de ter um país transformado numa placa? Ainda que gire? Pelo menos para aqueles que vivem na placa?

A expressão o país transformado num “canteiro de obras” - que foi tornada cantiga da mesma forma pelos militontos no passado que repetiam até à exaustão qualquer coisa que o chefe dissesse e que lhes soasse bem - “canteiro de obras” já tinha capacidade de coisificar o país, de reduzir o país a um objecto inanimado... mas placa giratória ainda soa pior! Pelo menos, nos canteiros crescem coisas e as obras do canteiro ficam - ainda que sejam obras manhosas e que estraguem pouco depois - pelo menos, consegue-se ver algum benefício da expressão para quem vive no canteiro. Mas placa giratória?! Isto é como coisificar o país para torná-lo uma coisa de passagem, de transição, numa placa que gira sobre si mesma para mostrar qualquer coisa mas que não tem em si outra serventia ou ganho do que mostrou. As definições de placa giratória disponíveis online são: “A plataforma giratória tem como função fazer girar de forma automática ou sensitiva a 360º. É normalmente utilizada em exposições de automóveis e em garagens em que a manobra de inversão de marcha é limitada, facilitando assim o acesso à saída.” Outra diz: “uma «placa giratória» refere-se geralmente a uma base rotativa, para servir comida, ou um rolamento especializado usado em móveis, artesanato ou aplicações industriais para um movimento suave de 360°. Também pode significar um componente em mesas giratórias de alinhamento de rodas para veículos, ou uma peça em branco usada em marcenaria/torneamento para criar placas decorativas. Nas artes performativas, refere-se ao objeto usado no giro de pratos, um acto de malabarismo.” Talvez os actos de malabarismo político justifiquem que se despromova o país à condição de placa…

Vimos com a visita do messias do futebol, Leonel Messi, o que é tratar um país como placa: foi aterrar, jogar, voltar para o avião e saltar fora tão rápido quanto possível! Qual foi o ganho para o país daquele investimento que primeiro era do governo, depois de empresários do partido, mas que levou a mais uma das tolerâncias de ponto (que custam à economia e que viraram moda em 2025)? A propósito, com a visita do Papa, quantas tolerâncias podemos esperar? Alguém já fez as contas ao custo de cada uma para as famílias que dependem da economia informal e que se vêm impossibilitadas de ganhar o pão de cada dia, para o sector privado que mesmo que não seja formalmente abrangido quando a tolerância é para o sector público, se vê afectado pelas restrições de circulação?

A forma descompensada como o poder parece usar as visitas de alto gabarito para tentar legitimar-se, para de alguma forma usurpar o prestígio de quem vem, como validação governativa - com excepção de custos, de despesas para os cofres públicos - não tem qualquer reflexo na resolução dos problemas do país, como temos visto depois da quantidade de visitas que temos recebido no país. A visita do presidente americano, que atingiu os pícaros do mostrar o que não se é, em que gastaram rios de dinheiro em lobby para garantir a visita e depois em arranjos e arranjinhos em tudo o que pudesse simular um país arrumado, em que literalmente se esconderam pobres (que durante anos levaram à loucura) das ruas, em que praticamente trancaram todos em casa com as restrições de movimento e ruas fechadas, com medo provavelmente de que a visita visse algum descontente com o trabalho do governo... Quais foram os ganhos apresentados de todo esse investimento para além da fama do “organizador de eventos”?

Da visita do Papa, que já tem direito a comissão de organização com a ministrada toda (que provavelmente vai ser mais um saco de contratos de tudo o que se possa vender a um Estado sem norte nas despesas), o que se vai colher, para além da fama do organizador de eventos que os procura para tentar validar um trabalho que não fez, o trabalho de governar para os governados em benefício dos governados?

Nada contra as visitas, este é um país maravilhoso com imenso para dar a qualquer visitante, mas que seria mais interessante ver uma governação com foco em melhorar o país em vez de melhorar a imagem desgastada de quem o gere e está só a ver como manter o poder, isso, de facto seria... Dito isto que venha o Papa à “placa”, pode ser que reze por nós porque com a governação que temos bem precisamos de oração!

Com os problemas que temos, bem precisamos de oração...

Não quis abrir o primeiro ‘E agora pergunto eu do ano’ com o tema mais revoltante, mais indutor de vómito e que continua a marcar a nossa actualidade, mas a chegar ao final da segunda semana de 2026, e sendo que em cima da primeira desgraça se registaram uma série de outras a nível institucional, o caso da violação da menor de 15 anos  que foi filmada e andou a circular pelas redes sociais, é incontornável até porque violações de crianças acontecem diariamente com maior ou menor grau de violência como temos visto ultimamente.

Vi parte do vídeo, desavisada que estava sobre o nível de violência a que iria assistir, e francamente não há palavras para descrever, o asco da cobardia, a indução de revolta, a podridão contida naqueles segundos em que se via uma criança apavorada, já a sangrar a continuar a ser espancada, humilhada, violada, torturada, o medo na expressão da menina não abandona quem assiste...

Saber que dúvidas há quanto à responsabilização de todos os agressores... saber que depois de passar por aquela violência toda, a menina passou ainda pela humilhação institucional de andar de mão em mão, para trás e para a frente, provavelmente exposta à falta de empatia característica dos nossos serviços públicos... saber que a solidarização de mulheres com o caso e a expressão dessa solidarização foi tratada pelas autoridades como crime - até porque de organizações de mulheres capazes de por as autoridades a fazer o seu trabalho (como a Oma) nem um pio se ouviu...  como aliás não se ouviu quando foi morta uma mãe que fugia de costas com o filho de 10 anos, de polícias que disparavam a matar como se tivessem num videojogo e que ainda tentaram relativizar o crime que haviam cometido dizendo que a senhora era estrangeira e ilegal como se fosse essa licença para matar... saber que para agravar o insulto, ainda se menciona a possibilidade de a criança se estar a prostituir como justificativa para a falta de empenho no esclarecimento e responsabilizações no caso, ou para justificar qualquer falta de apoio - saber tudo isto é o que de facto leva a pensar o país, não como um país, mas como mera placa habitada, sem regras, sem lógica, sem humanidade - uma placa.

Como é que um Estado que leva as suas próprias crianças a exporem-se à violência à crueldade aos perigos mil da prostituição, tem a falta de humanismo de hombridade de não reconhecer que se há crianças as prostituírem-se é porque o Estado falhou na sua missão de providenciar segurança social, educação, saúde à criança e aos pais que evitassem esse desfecho?

Bem precisamos de oração; venha de onde vier, querido leitor, quanto mais não seja para termos mais sorte com as autoridades que nos regem... É com cansaço, mas esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro, e na sua Rádio, Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico