E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana entre nós marcada pela educação. Um tema que nos deve ser próximo, caro, que deve ser prioritário não só pela preocupação com filhos, sobrinhos, primos e demais da família, mas porque a educação marca, na verdade, tudo e todos, bem ou mal, molda o tipo de serviços a que temos acesso, o tipo de lideranças e, por arrasto, a qualidade de vida do país.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana entre nós marcada pela educação. Um tema que nos deve ser próximo, caro, que deve ser prioritário não só pela preocupação com filhos, sobrinhos, primos e demais da família, mas porque a educação marca, na verdade, tudo e todos, bem ou mal, molda o tipo de serviços a que temos acesso, o tipo de lideranças e, por arrasto, a qualidade de vida do país.
Nem tão pouco é algo de que os que estudam foram estejam a salvo. Por melhor educados lá fora que sejam por exemplo os filhos dos nossos governantes, quando cá vierem construir empresas não terão quadros para trabalhar nelas se não tivermos investimento sério na educação, não terão infraestruturas duráveis, não terão saúde, , viverão no lixo expostos também às doenças típicas da falta de saneamento. Terão também de colocar os seus próprios filhos também lá fora, muitas vezes longe da atenção parental e vão viver um dia a dia com as dificuldades, de transportes que se não lhes falta, causa horrores de trânsito, vão viver a dificuldade de serviços públicos, de saúde (que mesmo a privada deixa a desejar), tudo porque a qualidade das lideranças também elas mal educadas, infelizmente não serve para priorizar como serve para desviar...
A propósito de educação e lideranças, a marcar a actualidade, esteve também uma rara eleição transparente, tranquila, na qual o líder cessante, apesar de muito popular, passou a batuta serenamente. O Movimento de Estudantes Angolanos tem novo líder em Simão Formiga, que tem, por sua vez uns sapatos enormes para encher na forma de um super mandato do líder anterior, Francisco Teixeira.
A educação é naturalmente mais abrangente do que o tema a marcar a actualidade, nomeadamente, a exoneração da ministra da Educação, ela que já era assunto da actualidade porque havia anunciado que a inteligência artificial iria ser introduzida no sistema de ensino em Angola e que o governo já havia identificado 10 escolas em 10 províncias para implementação do projecto piloto, onde seriam instalados mecanismos necessários... Parece ter sido a gota de água que lhe entornou o caldo...
A sugestão da inteligência artificial, evidentemente, já tinha sido motivo para escrutínio; perguntas não faltavam: a inteligência artificial na escola primária, para quê, quando as escolas não têm carteiras, não têm paredes; em muitas chove dentro, os quadros, quando os há, são pendurados em árvores; muitas mais não têm latrinas... Em vários pontos do país, 60% não têm água. Inteligência artificial para dizer o quê às crianças? Que nasceram próximo do inferno? Pode esse ser tema quando não se consegue dar almoço ou merenda de forma sustentada às crianças nas escolas? Quando são entre cinco e nove os milhões de crianças fora do sistema de ensino vem a senhora a falar em inteligência artificial?
Mas a verdade é que o ‘grilo não canta’ sozinho; essa faixa do desapego à realidade do país por parte do executivo é coro geral... basta lembrar as cirurgias robóticas da ministra da Saúde num país em que a principal causa de morte é a malária, um país em que tem cólera… ou a fanfarra em torno do novo aeroporto internacional quando a mobilidade dos angolanos é motivo de enfarte nas filas intermináveis de pessoas à espera de machimbombos de manhã e ao fim da jornada laboral. E agora pergunto eu... o que estará na origem da percepção de prioridades consistentemente invertida e por vezes pervertida do governo?
Voltando à inteligência artificial ainda vale perguntar se estamos a par da repulsa que os melhores sistemas educacionais do mundo nutrem cada vez mais pela mesma porque proporciona a batota dos estudantes tornando-os mais preguiçosos e menos produtivos, tudo o que devemos manter longe das crianças. Para não mencionar movimentos que nos países com sistemas de educação exemplo a nível mundial, como o sueco ou o finlandês, estão mesmo a voltar aos básicos e a cortar o tempo de ecrã nas escolas devido aos danos comprovados cientificamente causados pelos ecrãs aos cérebros das crianças que estão em desenvolvimento. Aqui vamos em contraciclo...
Esperemos, e não parece de fora ser tão difícil, que a nova ministra faça melhor, reconhecendo, no entanto, que o buraco é bastante mais embaixo e bastante mais profundo do que a liderança do ministério, apesar das saídas da ministra Grilo terem sido frequentemente perturbadoras e irritantes (fuga às respostas de um jornalista sobre livros com erros que continuaram a ser distribuídos ou a conversa de que só faz falta quem cá está e outras infelicidades verbais). Não. O problema é estrutural e tem raízes na tal incapacidade de priorizar.
O orçamento de Estado para a Educação ano após ano desde que o país está em paz anda focado no sector castrense, na segurança e o novo, no ordenamento do território que sugere que var ser reordenado para não voltar a deitar o MPLA perder eleições locais como perdeu a capital. São 1,3 biliões de kwanzas mais perto de 300 mil milhões para obras, construção e reabilitação de edifícios públicos e equipamentos sociais que gritam campanha eleitoraaaaallll. A modernização do ensino conta com cerca de 500 milhões de kwanzas que vão para construção e reabilitação de escolas e redução do rácio aluno-professor. Um aumento que dificilmente será capaz de dar resposta aos milhões de crianças fora do sistema de ensino, apesar da instrução do chefe para que todas as crianças sejam incluídas no sistema escolar. Uma instrução que tinha tido alguma razão de ser no início do seu mandato, se fosse séria, em vez de no fim, antes de dedicar mais de mil milhões de dólares a viagens, por exemplo...
Os 500 milhões para a construção de escolas não confortam, até porque o orçamento é um documento de intenções, bem diferente de um de execução. Por exemplo, a execução do OGE passado no primeiro trimestre ficou abaixo de 20 por cento graças a despensas extemporâneas, muitas vezes não previstas no OGE (como viagens e apetrechos presidenciais). O que vai chegar, de facto, às carteiras escolares é uma fracção de uma intenção. As execuções tendem a revelar maior execução dos orçamentos para a segurança e sector castrense do que para sectores sociais, mesmo que nas intenções o social apareça em destaque.
Vai ser preciso mais para acabar com turnos escolares de três horas apenas, em salas com crianças encavalitadas umas sobre as outras, frente a professores exaustos, mal pagos e frequentemente com lacunas de formação pedagógica adequada. São muitos desafios, mas é com esperança, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




PRIVATIZAÇÕES E O CÍRCULO VICIOSO