HÁ 2 ANOS A PINTAR ‘NAS ALTURAS’

Kolectivo Baúka desafia-se a colorir Luanda

ARTES PLÁSTICAS. Marcus e Rómulo de Santa Rita deram vida ao Kolectivo Baúka, há dois anos, e têm deixado as impressões digitais em vários projectos em Luanda. Na foto, um dos mais recentes, a pintura de uma fachada de um dos prédios mais representativos do Sambizanga.

Kolectivo Baúka desafia-se a colorir Luanda

Não há muita informação disponível  a vosso respeito.  Quem é o Kolectivo Baúka?

O Kolectivo Baúka é um grupo artístico angolano que tem como objectivo agregar todos os artistas plásticos que se queiram juntar para dar corpo e mundo a várias disciplinas das artes, passando pelo design gráfico e comunicação, fotografia, produção audiovisual, arquitectura, entre outras. Com o foco maioritariamente virado para as tendências artísticas urbanas contemporâneas como o grafitti, a collage e paste up, pintura mural e instalação.

 

Quantos membros agrega o projecto?

O Kolectivo  Baúka é uma dupla de artistas profissionais de várias disciplinas, desde as artes plásticas, o design gráfico e comunicação, fotografia, produção audiovisual, entre outras. É também missão da Baúka agregar outros artistas, destas diferentes variantes, para ir dando forma aos projectos.

 

Fale-nos do mural 'Puro Wi da NGuimbi'...

Para este mural, juntámo-nos ao José Silva Pinto, que fotografou o Nagrelha (foto de referência da obra) e a BMWorkz, enquanto produtora audiovisual, para uma cobertura diferenciada da iniciativa. Além disso, contámos com a ajuda valiosa de dois alpinistas profissionais e do manobrador da grua/elevador que nos  apoiou em tudo o que podia. Os moradores também tiveram um papel fundamental no acolhimento e a 'Turma do Apito' que garantiu a segurança da máquina nos momentos em que não estávamos presentes. 

 

E como surgiu a ideia de pintar/homenagear o kudurista Nagrelha num dos prédios de Luanda?

O Nagrelha é um fenómeno de popularidade aspiracional. Representa o povo de forma genuína. Isso fez com que o Kolectivo Baúka sentisse essa vontade de o representar através do ‘street art’, homenageando em vida um homem que nasceu e cresceu no Sambizanga e que conseguiu atingir os seus sonhos, apesar de todas as dificuldades. Posta essa vontade, entrámos em contacto com a equipa de marketing da Luandina (que tem apoiado o Nagrelha em várias vertentes), que aceitou o desafio de dar vida a esta ideia, com a grandeza que esta homenagem merecia. O Prédio do Livro do São Paulo é o edifício mais alto e com maior visibilidade do Sambizanga. Sendo o ‘Naná’ do Sambizanga, este era o melhor edifício para lhe prestar homenagem.

 

Tiveram dificuldades, certamente, para pintar  o edifício...

Uma fachada (empena) de 10 andares é, por si só, uma dificuldade. Gerir a adrenalina da altura, a ventania, os ‘timings’, a diversidade dos materiais que usámos, e um prédio com centenas de moradores e suas respectivas rotinas domésticas foi, sem dúvida, um desafio constante. Por exemplo, o facto de estarmos a trabalhar à volta das antenas parabólicas de cada morador – que iam ficando sem sinal, à medida que passávamos pelas antenas, e algumas que tivemos mesmo de recolocar e reajustar – geraram imensos episódios e peripécias, que foram o grande ponto de contacto com os moradores, que fomos conhecendo a cada piso que subíamos.

 

Quanto custou o projecto?

O Kolectivo Baúka não faz menção nem nunca fará ao valor investido num projecto artístico. Não acreditamos que o investimento feito seja o que valoriza a obra.

 

Além de Nagrelha que outros artistas mais vão ser homenageados?  

Homenagear artistas não é um plano traçado pelo Kolectivo Baúka. Na arte urbana, reagiremos sempre por impulso artístico a temas de impacto que podem ser diversos.

 

Mas, além de Luanda, almejam levar a iniciativa para outras províncias?

Sim, claro. Desde que se dê a oportunidade. Faz parte das nossas ambições.

 

E os apoios?  

Tivemos todos os apoios mencionados acima, que vão desde logísticos, financeiros a operacionais. Obrigado a todos os que fizeram acontecer.

 

“Um mural que não foi apenas um mural – foi uma intervenção séria de responsabilidade social", afirma o grupo numa nota de imprensa. O que isto quer dizer?

Aqui, mais do que o nosso trabalho a dar vida à obra de arte em si, a Sodiba (produtora da Luandina) teve um papel fundamental. Fez questão, para além de nos ajudar a dar corpo ao mural, de fazer, junto com os moradores, um levantamento das necessidades do Prédio do Livro. Dentro das possibilidades que tinham, definiram até onde seria possível ajudar a melhorar as condições de habitabilidade do prédio, no âmbito da responsabilidade social da marca. E assim a Luandina, a pedido dos moradores, financiou o arranjo do saneamento básico, limpou e pintou todo o piso térreo do edifício. O que acabou por ser muito gratificante para todos. Nós só ajudamos a fazer a ponte entre os moradores e a equipa da Luandina que também se mostrou sempre incansável.

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