MÚSICO MORREU AOS 66 ANOS, DE DOENÇA PROLONGADA

Artistas choram Waldemar Bastos

ÓBITO. Faleceu Waldemar Bastos, aos 66 anos. Músico lutava contra um cancro há cerca de um ano. Colegas e legião de fãs lamentam o desaparecimento do artista. Último grande concerto em Angola realizou-se em Dezembro de 2018, numa iniciativa do projecto ‘Show do Mês’, promovido pela Nova Energia.

Artistas choram Waldemar Bastos

Na manhã desta segunda-feira, 10 de Agosto, Angola acordou com uma triste notícia: a morte do ‘grande músico’ Waldemar Bastos, vítima de doença prolongada, em Portugal, aos 66 anos, confirmou a família na página oficial do artista.

Na mensagem, lê-se “com profunda tristeza e dor, a família informa a todos os que conheciam e apreciavam a sua música, que Waldemar Bastos faleceu ontem, 9 de Agosto de 2020, vítima de doença prolongada”.

Waldemar Bastos deixa a todos, em particular ao povo humilde de Angola, o seu legado musical “ímpar e de excelência”, realça o comunicado.

Waldemar Bastos nasceu em Mbanza-Kongo, em Janeiro de 1954 e estudou no Lubango, Huíla. Vivia entre os EUA e Portugal e fez carreira pelo mundo.

‘Cidadão do mundo’ como gostava de assim ser considerado, Waldemar Bastos granjeou mais sucesso no estrangeiro do que em Angola. O mês de Agosto, dos últimos anos, era dedicado a concertos diários por terras norte-americanas e até no Canadá.

Em 2018, o músico foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a mais importante distinção do Estado angolano nesta área e que lhe deu a honra que há muito procurava no país.

Apresentando-se com uma sonoridade que o próprio definia como “afro-luso-atlântica”, Waldemar Bastos foi também o único não fadista a cantar na cerimónia de transladação, no Panteão Nacional, em Lisboa, do corpo de Amália Rodrigues, de quem era amigo.

Após a independência de Angola, em 1975, dada a crise política e financeira do país e dada a violência que levou à morte de alguns artistas activistas contra o Estado e a política, Waldemar Bastos decidiu viajar pelos países do bloco soviético e ainda pela Polónia, Checoslováquia, Cuba e União Soviética.

Nos anos de 1980, foi viver para o Brasil e, com a ajuda de Chico Buarque (que conhecera, alguns anos antes, durante o projecto ‘Kalunga), gravou o álbum ‘Estamos juntos’, em 1986, num disco que ainda contou com a colaboração de Martinho da Vila, João do Vale e da Orquestra Sinfónica do Brasil.

Depois de ter estado em Paris, França, Waldemar Bastos viveu em Lisboa, Portugal, onde gravou os discos ‘Angola Minha Namorada’ e ‘Pitanga Madura’ em 1992, cujo tema com o mesmo título se tornou num grande sucesso.

Em Nova Iorque, gravou ‘Preta Luz’, com a editora LuakaBop, especialista em ‘world music’, do músico David Byrne, 1998. Depois, em 2002, lançou o disco ‘20 Anos de Carreira’.

Realizou vários concertos, actuando em França, Alemanha, Cabo Verde, nos festivais de jazz de Amesterdão, Roterdão, do Canadá e em Portugal.

A carreira teve um grande impulso, quando David Byrne, ex-Talking Heads, propôs ao músico a participação na recompilação de ‘Afropea 3Telling Stories to the Sea’, que contou também com a colaboração de outros artistas pertencentes ao movimento afro-português, como Cesária Évora e Bonga.

Apesar de ter crescido sob o clima de guerra e de opressão política, a sua música transmite imagens positivas, que convocam um sentido de unidade entre o povo e que apelam à esperança e à necessidade de valorizar a vida e a beleza no mundo.

Outro grande êxito internacional chegou com o álbum ‘Classics of my soul’, gravado com Orquestra Sinfónica de Londres, Inglaterra, num disco com a mistura de música clássica com tradicionais angolanas e cantadas por ele próprio como a ‘Velha Chica’, ‘Birin Birin’ e ‘Muxima’. Cantou em português, mas também em umbundo e em outras línguas nacionais.

Waldemar Bastos tentou regressar depois de anos de ausência e lamentava, muitas vezes, sentir-se um estrangeiro na própria terra.

Em Dezembro de 2018, fez o último concerto em Luanda, numa iniciativa do projecto ‘Show do Mês’. Na altura, o músico disse que, “pela primeira vez, sinto que estou a cantar em liberdade na minha terra”.

 

Reacções

Ruy Mingas, Músico

 “Foi o criador de canções de particular sensibilidade melódica e rítmica. Foi efectivamente o criador de temas que representaram para todos nós. Os meus sentidos pêsames à sua família e estes são extensivos a toda a família musical angolana. A minha saudade e o meu respeito,  Waldemar Bastos.”

 

Irina Vasconcelos, cantora

 “Xê menino, não fala política, Teresa Ana. Até sinto as pernas bambas, um aperto na alma. Inexplicável sentimento. Descansa com as estrelas, guru.”

 

Toty Same´d, músico

 “Waldemar foi um grande Mukunji (mestre) da nossa música. O seu legado perdura para eternidade. Salve, grande mestre.”

 

Dom Kikas, músico

 “Hoje perdemos um grande mestre. Perdemos o nosso Waldemar Bastos. Uma voz única. Muito obrigado, caro amigo, por tudo o que aprendemos contigo e por toda a herança musical que nos deixas. Descansa em paz e que Deus abençoe a tua alma, meu kota Waldemar.”

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