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Resistência ao Estado de Emergência

Mototaxistas e comerciantes justificam violação com falta de poupança

ESTADO DE EMERGÊNCIA. Operadores do mercado informal propõem às autoridades medidas que os ajudem a manter a actividade. Governo alertou para risco de detenções, em caso de incumprimentos das restrições, no âmbito do combate à pandemia do novo coronavírus. 

 

Mototaxistas e comerciantes justificam violação com falta de poupança

A falta de mantimentos e de poupança financeira para fazer face às restrições impostas pelo Estado de Emergência é evocada por mototaxistas e comerciantes como estando na base da permanência nas ruas, apesar da proibição de circulação e aglomeração de pessoas, em vigor desde a primeira hora da última sexta-feira, 27.

Embora cientes das eventuais consequências criminais, os operadores não abdicam, justificando que a cessação das actividades pode “resultar em danos catastróficos” para os seus dependentes.

Ao VALOR, vários comerciantes confessam que a facturação “caiu significativamente” nestes dias de confinamento dos consumidores nas residências. Ainda assim, alegam que “o pouco” que conseguem “tem servido” para pôr comida à mesa.

Jorge Abílio, de 24 anos e mototaxista há um, tem esposa e duas filhas. Conta que a actividade é a única fonte de receita da família, por isso, contrário à paralisação total, sugere maior autonomia às comissões de moradores, para que essas possam criar regras de actuação dos mototaxistas. “Por exemplo, nos mercados geridos pela administração pública, o Governo está a diminuir o número de vendedores. Uns operam num dia, e outros nos dias seguintes, nós, os mototaxistas, também podemos trabalhar desse jeito”, observa o jovem, para quem largar o trabalho durante 15 dias pode “resultar em morte por fome” das filhas.

À semelhança de Jorge Abílio, Fernando Susana, também taxista, continua a operar. Nega que seja “desobediente” em relação às ordens governamentais, sugerindo que as autoridades deviam, “antes de decretar o Estado de Emergência”, criar um plano de “contingência alimentar”, com a criação de cozinhas comunitárias, onde as pessoas pudessem adquirir alimento, como sopas, por exemplo, a preços abaixo do mercado.

O jovem, que suspendeu os estudos na 11.ª classe, recorda que, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em cada 10 pessoas, nove são pobres, em cerca de 40% dos municípios do país, o que, para ele, a medida do Governo em suspender algumas actividades de cariz comercial e de prestação de serviços informais “não foi estudada”.

PRAÇAS MANTÊM-SE ABERTAS

Assim como os motoqueiros, os comerciantes dos pequenos mercados no interior dos bairros também não desistem. Para lá dos mercados dos bairros, que se podem considerar como de difícil acesso para as autoridades, os mercados paralelos ao mercado do São Paulo também continuam com os aglomerados de pessoas.

Os comerciantes também apontam, sobretudo, a falta de alimentos em casa como resultado da permanência nas ruas.

No entanto, independentemente das razões evocadas, em conferência de imprensa, o ministro da Administração do Território e Reforma do Estado adverte que o “não cumprimento da ordem” constitui um crime de desobediência, “podendo dar lugar à detenção imediata”.

Durante o anúncio detalhado das instruções, o governante deixou claro estar interdita a “circulação de mototaxistas”, bem como a “venda de bens não essenciais” nos mercados informais.

FACTURAÇÃO QUEDA 50%

Os mototaxistas ouvidos pelo VALOR são todos operadores do interior dos bairros e optaram por fazer linhas curtas, com a corrida fixada em 100 kwanzas. 

Boa parte trabalha com motorizadas de terceiros, aos quais entregam dois mil kwanzas por dia, durante seis dias da semana. O sétimo dia está reservado para o próprio mototaxista.

Segundo vários mototaxistas, a facturação real varia, entretanto, entre os cinco e seis kwanzas por dia, sendo que o excedente é destinado ao abastecimento da motorizada, alimentação do operador, e para eventuais constrangimentos. No entanto, face ao Estado de Emergência, os mototaxistas passaram a facturar pouco mais de três mil kwanzas/dia, o que perfaz uma redução de aproximadamente 50%.

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