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Números da pobreza

03 Dec. 2019 V E Editorial

Dois estudos com dados económicos e sociais de duas entidades diferentes confirmaram, na última semana, tudo o que se tem afirmado sobre a deterioração das condições sociais dos angolanos nos últimos anos. O relatório económico do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola e o Índice de Pobreza Multidimensional por Município (IPM-M), do Instituto Nacional de Estatísticas, mostram, de forma inequívoca, o aprofundamento da pobreza no país, com a redução drástica da renda e do poder aquisitivo a que temos assistido.

Segundo o levantamento do IPM-M, mais de um terço dos 164 municípios chegam a apresentar níveis de pobreza multidimensional (ver página x) na ordem dos 90%. E porque a pobreza multidimensional só se combate com o crescimento económico, os alertas que surgem do CEIC estão longe de ser animadores. Nas contas dessa reputada instituição académica e de investigação, pelo menos antes de 2025, não há dados que sugerem uma retoma dos níveis de crescimento robustos, como os alcançados antes dessa crise económica que se iniciou na segunda metade de 2014. Em linguagem simplificada, isto significa que, apesar das expectativas que têm apontado para a recuperação da trajectória de crescimento a partir de 2021 (o Governo insiste na hipótese de 2020), não será tão cedo que a economia angolana vai produzir o suficiente para satisfazer as necessidades relacionadas nomeadamente com a criação do emprego. Vários economistas já têm alertado para o facto de apenas níveis de crescimento acima da taxa média de crescimento da população, calculada nos 3,2%, serem suficientes para dinamizar, por exemplo, a empregabilidade em massa. E não é menos importante referir as dúvidas que persistem sobre os efeitos sociais do programa de ajustamento macroeconómico, imposto pelo Fundo Monetário Internacional. Hoje ninguém é capaz de estimar, com precisão, se o legado do FMI, em matéria de degradação social, não será um fardo tão pesado quanto os problemas económicos que justificaram a sua intervenção em Angola.

E porque o próprio Presidente da República chegou a usar, na última semana, a palavra “ajustamentos”, sem uma referência específica ao programa de reajustamento macroeconómico, talvez seja tempo de se equacionar essa possibilidade, do ponto de vista da presença do FMI. Como vários exemplos provam (caso mais recente da Argentina), quando a fome aperta, nem o controverso combate à corrupção é suficiente para manter a ‘solidariedade’ do povo.