Girabola Zap
Banco BAI
Bonifácio Francisco, director do Instituto Nacional do Café (Inca)

“O BPC diz que apoia os cafeicultores mas, quando se vai lá com projectos, não há dinheiro”

28 Jul. 2020 Grande Entrevista

No segundo trimestre, o país exportou 356,54 toneladas que renderam aos cofres do Estado 351.840.035 milhões de dólares. Bonifácio Francisco estima que, havendo crédito da banca aos produtores, os resultados seriam mais elevados.

“O BPC diz que apoia os cafeicultores mas, quando se vai lá com projectos, não há dinheiro”

Qual é o nível actual de produção de café em Angola?

Estão a dar-se passos lentos, mas interessantes. Digo isso porque estão envolvidas muito mais famílias organizadas na produção de café. Isso acaba por ter um efeito positivo.

Efeito positivo em que sentido?

Já começámos a produzir café na base de sistemas irrigados. Estamos também a produzir mudas generativas. Ou seja, já não estamos a utilizar a semente, mas, na parte mais acima do arbusto, fazemos o corte e clonamos. A ideia é colher quatro toneladas por hectare. É por aí que poderemos começar a obter maior produção.

Qual é o universo de produtores activos?

Estão envolvidas 25 mil famílias.

O sector empresarial não entra nas contas?

Também produz. Aliás, quando falamos nesta envolvência, estamos a colocar dentro da contagem o sector empresarial. Portanto, o número de famílias (25 mil) engloba também os empresários que se dedicam ao cultivo do café.

Mas o que o país produz actualmente em números?

No ano passado, foram colhidas aproximadamente 4 mil toneladas. Este ano, por aquilo que são os cálculos, a nível dos produtores, a previsão é de atingirmos 5 mil toneladas.

É uma produção residual, face às 200 mil toneladas anuais da época colonial. Por isso também é insignificante o peso do café na economia, certo?

O peso é mesmo residual. De acordo com os cálculos, a participação do café no PIB é de 0,03%. É absolutamente insignificante. Isso acontece porque há uma diminuição significativa das áreas de produção. As pessoas deixaram de apostar no café para enveredar por outras culturas.

Qual é a área cultivada?

Estamos a falar numa área aproximada de 52 mil hectares. Antigamente, tínhamos muito mais áreas de cultivo. Temos de multiplicar isso pelo menos por três.

De grande exportador hoje o país não vende quase nada. Esta afirmação está correcta?

Em 2019, exportámos 1.161 toneladas, o que, para nós, já foi muito bom se comparado aos anos anteriores. Em 2018, produzimos 292.297 mudas. Em 2019, produzimos 13.355 mudas. Portanto, houve redução, mas, nesse mesmo ano, exportámos, só no segundo trimestre, 356,54 toneladas que renderam aos cofres do Estado 351.840.035 milhões de dólares em impostos.

Há algum horizonte para o país voltar à produção de grande dimensão?

O horizonte é possível, mas depende do envolvimento dos cafeicultores e da extensão das áreas de cultivo. Ou seja, se estamos agora com 25 mil famílias, temos de aumentar esse número e dedicarmo-nos à produção do café. Mas é verdade que hoje o cultivo já exige técnicas modernas e temos de estar encaixados nessas novas tecnologias. Para a poda, ou limpeza, por exemplo, o café já exige máquinas. E isso, por sua vez, exige dinheiro que não temos para alavancar o sector. 

Não é um sector atractivo?

Por ser muito exigente em termos de manutenção, que ainda entre nós é feita com enxada e catana, quando nos outros países o processo é mecanizado, então os jovens fogem. Mas se começarmos a envolver maquinaria, os jovens vão começar a voltar e fazer companhia aos pais. Hoje, no fundo, quem produz café tem mais de 50 anos.

Uma produção em grande escala só pode acontecer com uma séria aposta do sector empresarial, certo?

É importar referir que o sector empresarial também se queixa muito. No entanto, pode aparecer com pujança se for apoiado na base do crédito. O mesmo acontece com a agricultura familiar, se for apoiada também cresce.

Mas os operadores queixam-se da banca que não empresta dinheiro?

Os bancos ainda não começaram a acreditar que o sector está aí a caminhar a passos lentos, mas vamos lá chegar. O que acontece é que, no café, a colheita é anual. Por isso é que muita gente enveredou pelas culturas imediatas com colheitas de dois a três meses. É importante conversar e chegarmos a um acordo com os bancos.

s bancos são acessíveis?O

O BPC, por exemplo, diz que está aberto a ceder crédito a famílias organizadas e empresas ligadas ao café, mas, quando se vai para lá com os projectos, não há dinheiro. É um paradoxo que tem de ser resolvido pelo maior accionista, o Estado. Nos outros bancos, como o BFA que também diz que está acessível aos produtores, é a mesma coisa. Mas, se o crédito fosse possível, certamente os resultados seriam mais elevados.

Assim não acontece o vosso slogan ‘Café oportunidade de negócio no momento de crise’?

Este ano, ao nível do Inca, o nosso lema é ‘Café, uma aposta na diversificação económica do país’. Estamos a utilizar esse lema porque vemos que, cada dia que passa, aumenta o envolvimento de entidades, sobretudo estrangeiras como Espanha, Itália, Dubai, que têm manifestado o interesse de apostar no tipo de café que temos, sobretudo o robusta, que cresce na montanha e não é adubado nem irrigado. Como há necessidade desses países em obter produtos agrícolas naturais que nada têm que ver com fertilizantes, então está aí o café robusta, ao contrário do arábica, que tem de ser irrigado e fertilizado. 

E os preços estimulam o produtor interno?

Há dias, tivemos um encontro no instituto, e queremos também reunir com os empresários. O que acontece é que os compradores vão ao encontro do produtor e definem os preços. Isso é mau. Quem deve definir o preço é o produtor em função de todo o processo produtivo. Normalmente, a nossa instituição define uma baliza que oscila entre 150 kwanzas e 175 kwanzas o quilo. É bom lembrar que este preço não é o do café verde, mas sim do seco, o comercial. Então queremos discutir com essas empresas que também se dedicam à compra para que não definam os preços. Muitas vezes, os compradores chegam ao cafeicultor com um preço que o Inca estipulou, mas discordam.

O Inca não consegue travar os compradores?

O que falta é chegarmos a um consenso e levarmos a informação aos cafeicultores, dizendo-lhes o preço definido pela instituição que rege o sector.

O tecto de 175 kwanzas é o ideal?

Não vamos falar de preço ideal, porque depende muito do investimento aplicado no processo produtivo.

O Inca diz ter também o foco no cacau…

O Inca abrange outras culturas como a cultura do caju, do palmar e do cacau. A este nível, estamos a fazer apenas o fomento. Falando do cacau e do palmar, temos em Cabinda grandes viveiros e já há alguma produção, só que não há mercado. O cacau de Cabinda produz em dois anos. Logo, os 277 produtores estão preocupados porque não há transformação. Devíamos preparar os produtores de cacau quanto aos processos de fermentação, de despolpa e de secagem. Como Cabinda sempre produziu e está próximo dos congos, então estão a vender a esses países que já têm todo o processo de transformação.

Porque é que não se antecipou a formação dos produtores?

Temos em Cabinda um projecto orçado em 123 milhões de dólares que abrange várias áreas, como saúde, educação e agricultura. No domínio da agricultura, consta a compra de máquinas para a transformação do cacau que já prevíamos.

Mas não há máquinas?

Ainda não, e é por isso que o país perde divisas.

E no palmar?

Já fomos grandes produtores de óleo de palma. Toda a região norte do país (Cabinda, Zaire, Bengo, Kwanza-Norte) é produtora.  Em termos de plantas, fizemos a entrega aos camponeses familiares 427.568 mudas. Se bem que é um palmar geneticamente modificado, começa a produzir dentro de três a três anos e meio. No nosso registo do ano passado, a produção familiar foi de 1.500 metros cúbicos e o sector empresarial produziu 3.500 metros cúbicos. Parecendo que não, o óleo de palma é muito utilizado no nosso consumo e, só em 2019, o país gastou 185 milhões de dólares na importação do produto. Então temos de apostar na sua produção para evitarmos o dispêndio de divisas.

Perfil

Nascido no Kwanza-Norte, em 1965, foi para Cuba aos 13 anos e lá fez toda a formação. “Sou engenheiro de laboratório”, afirma. Agrónomo, especializado em café, Bonifácio Francisco está há menos de um ano na direcção do Inca. Aconselha “para uma verdadeira diversificação económica a aposta séria nas culturas industriais do girassol, do algodão, da cana-de-açúcar e do abacateiro que produz durante todo o ano e pode ser aproveitado para o fabrico de cosméticos”.