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JOSÉ MONTEIRO, EMPRESÁRIO AGRÍCOLA

“O Presidente tapa um buraco e logo surge outro”

03 Dec. 2019 Grande Entrevista

Cita poucos exemplos de empresários capazes de dinamizar a produção e critica as recentes  condecorações do Presidente João Lourenço por terem sido galardoadas figuras com processos judiciais. É contra “a indisciplina da força de trabalho” e as fraquezas na formação de quadros. Quanto ao combate à corrupção, afirma que “isso só vai acontecer com um golpe palaciano”, porque “o roubo soma e segue”, sem um fim à vista. 

“O Presidente tapa um buraco e logo surge outro”

O Governo chamou os empresários para assumirem o seu papel na dinamização da economia. O que lhe parece?

Não temos empresários nacionais.

O que quer dizer?

Temos alguns apenas como o Vinevala, no Bié, que está sempre no terreno, no cultivo de tubérculos e cereais; os irmãos Faceira, na agro-pecuária; a Agrolíder, que é um monstro; o Joaquim David, que é um empresário com a melhor cimenteira do país. No Kwanza-Sul, Adérito Areias, o ‘rei’ do sal, em Benguela, e Isabel dos Santos.

Mas apenas estes porquê?

Por certa vez ter falado em Isabel dos Santos, já tive problemas. Mas eu não estou ligado a nada, nem a partidos. Portanto, não tenho de ter solidariedade institucional. Aquilo que digo apenas a mim vincula. Não estou ligado nem à fraude, nem à crise. Sou um homem livre. Se as pessoas não gostam, nada tenho que ver com isso.

E o que disse em relação à empresária?

Tenho uma certa admiração por ela. Não interessa a origem do dinheiro mas ela consegue rentabilizá-lo e cria empregos. Em todos os seus negócios (Unitel, Efacec entre outros) nota-se muito profissionalismo. É das pessoas que eu admiro e dou a minha opinião por ser um cidadão que gosta da pátria. O que digo é para o bem de Angola. Lamento a situação por que está a passar a exemplo do general José Maria. Isso cheiram-me à revanche.

O Presidente acaba de condecorar alguns empresários...

Se condecorou pessoas de tão baixo nível, então só faltou condecorar Manuel Vicente.

Porquê?

Reservo-me o direito de não entrar em muitos detalhes, mas é do conhecimento geral que algumas das figuras condecoradas têm processos judiciais.

Foi dos primeiros a montar um aviário em Luanda. Porque desistiu do negócio?

A galinha é boa no churrasco e o ovo na omelete. A avicultura dá muito trabalho. Quando cheguei aos 60 anos, decidi abandonar o negócio. Faltam muitos ingredientes. Mas as infra-estruturas estão aí.  Aliás, na avicultura, ou você tira os índices de produção que andam à volta de 85% de postura, ou abaixo disso está a perder dinheiro.   

E os que resistem?

Há bons avicultores por aí e um deles é a Pérola do Kikuxi.

E o seu aviário?

Não era o maior, mas dos melhores porque tinha um elevado índice de produção em muito poucas galinhas. Aliás, tudo o que fiz na vida resulta da avicultura, mas, depois dos 60 anos de idade, decidi que a galinha tinha de ser no churrasco.   

Hoje a província do Bengo não produz ovos?

Temos a Angolaves e um aviário poderosíssimo de um investidor indiano.

Falando ainda do Bengo, acha que a gestão da província está bem entregue?

O problema todo é que o Presidente João Lourenço, por altura da campanha eleitoral, disse que iria tirar o Bengo do marasmo. Há algumas coisas que melhoraram. Por exemplo, reduziram os excessivos incómodos da polícia na estrada, mas de resto está tudo na mesma.

Tudo na mesma o que significa?

A governadora Mara Quiosa ainda não reuniu connosco. Ela devia ouvir-nos para saber tudo o que se passa.    

Mas também nunca manifestaram esse interesse?

Não somos nós que temos de chamar a governadora.

Mas em associação é possível?

Os associados da Câmara de Comércio do Bengo nunca foram recebidos.

Como olha para a situação económica de forma geral?

Está tudo a falir.

Não vê alguma solução?

Não sou economista, mas quem me conhece sabe que sempre condenei o envolvimento do Estado na economia. O maior empregador deve ser o sector privado e disse isso desde então, não porque o Presidente João Lourenço disse, não.

Mas as mudanças são difíceis... 

Essas transformações são sempre lentas e trazem problemas graves. Estou a lembrar-me do Quénia em 1984, onde ia acontecendo um golpe de Estado. É muito complicado. Isso leva muita gente para o desemprego e devia criar-se um subsídio de desemprego. Mas os trabalhadores que ficarem terão de ser competentes e com alto grau de produtividade.

Mas há subsídio de desemprego...

Isso é para velho, os mais novos com 20 ou 21 anos têm de ser empurrados para a enxada, ou seja, para a agricultura.

Mesmo os formados em áreas que nada têm que ver com a agricultura?

Aqui não há formação nenhuma. Tudo o que existe é mentira. É gente que dá muitos erros de língua portuguesa. Acha que devemos confiar num engenheiro que diz que o arbusto que dá quizaca é quizaqueira?  

“O Presidente tapa um buraco e logo surge outro”

O que acha?

Precisamos de cérebros. Disse há cerca de 20 anos que temos de começar por uma quarta classe bem-feita. Isso não se observou e as consequências estão aí. O senhor Presidente da República está a exigir isso, mas…

Mas quem vai fazer essa quarta classe se, como diz, não ha formação nenhuma?

Fui professor na escola comercial e agrícola de nível médio e digo a verdade: há professores para dar a quarta classe, mas daí para as classes sucedâneas não temos. O grande problema no país é que temos de começar pelo princípio e não pelo fim.

Como?

Estamos a querer exportar sem haver produção nenhuma.

Não temos produção nenhuma?

O ex-ministro da Agricultura e Florestas, Marcos Nhunga, veio a público aldrabar que tínhamos produtos da cesta básica e que já não era preciso importar. Mentiu ao Presidente João Lourenço e ao ministro do Comércio, Joffre Van-Dúnem, que acabaria por desautorizar as importações e, de seguida, subiram os preços no mercado.  Devemos ser humildes: nós ainda não produzimos nada.

E que saídas aponta?

Começamos mal. Aliás, o que foi pairando neste país é uma mão-de-obra indisciplinada. Agora, se pretendemos mudar as coisas, o trabalhador vai ter de amar o emprego.

Falou da governação do Bengo. E da sua terra natal, o Bié?

O Bié sempre teve azar. Como é que o governador vai a Gamba e não olha para as infra-estruturas que, na época colonial, serviram o desenvolvimento da agricultura que podem ser reabilitadas com pouco dinheiro? Lamento profundamente, porque, desde a Independência, a província  nunca teve um governador com conhecimento da região.

O que isso significa?

Alguém sabia que o terceiro maior município de Angola  é Camacupa, depois do Lobito e Negage, e que a terceira maior queda de água do país é o Luando, depois de Calandula e Ruacaná? Esta é a grande questão! 

O que se devia fazer?

E aí é que me lembro do meu amigo Higino Carneiro, um resort aí seria uma festa. Sei que ele é craque nisso. Quando foi para o Kuando-Kubango, lá onde era a Jamba, fez um agradável resort. Portanto, no Luando, por ser o habitat da palanca negra (e não o Parque da Cangandala, em Malanje) devia ser feito um programa de conservação da reserva natural, incluindo a sua electrificação para desencorajar a caça furtiva. Isso potencia o turismo.

Estudos feitos há vária décadas por alemães indicam que o futuro de Angola está nas árvores, ou seja, nos citrinos como a laranja e no café.

E os cereais?

O trigo, o feijão ficariam para o agricultor anual.

Que balanço faz do combate à corrupção?

Só vai acontecer com um golpe palaciano porque essa gente continua a roubar. O Presidente tapa um buraco mas, logo a seguir, surge outro. E as forças de bloqueio estão mesmo ao seu lado. 

Perfil

É proprietário da Fazenda Alice, que já foi das principais fornecedoras de ovos a alguns supermercados de Luanda. Está na panificação e também na indústria de transformação da madeira.  “Identifico-me mais com a agricultura, sou agricultor”, afirma José Monteiro, engenheiro técnico agrário formado no Tchivinguiro, na Huíla. Natural de Chiculungo, há 70 anos, este homem do Bié reside num perímetro de 40 hectares no Panguila (Bengo), cercado por 6.000 fruteiras (laranjeiras, tangerineiras e limoeiros) que lhe garantem rendimentos e paga aos colaboradores. A fruticultura é a sua grande ‘marca’ que pretende levar para a terra que o viu nascer, “havendo dinheiro”.