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JOSÉ CÉSAR MACEDO, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DAS INDUSTRIAS DE LACTICÍNIOS DE ANGOLA

“Os países credores serão forçados a aceitar uma reestruturação ou perdão das dívidas”

“Saber ouvir e só depois fazer”. É a receita que dá ao Governo para depois da crise, sendo um dos que aposta na agricultura como sector determinante. O empresário reconhece que o Governo não tem muito por onde tirar para apoiar os empresários. E exige sacrifícios aos banqueiros. 

 “Os países credores serão forçados a aceitar uma reestruturação ou perdão das dívidas”

Vive-se um momento ímpar no mundo e, em particular, em Angola por causa da pandemia da covid-19. Como acha que o país sairá desta situação em termos económicos? 

Não é fácil prever o futuro numa conjuntura totalmente nova a nível mundial como a que estamos a viver. Tal como Angola, muitos países vão enfrentar uma situação muito difícil em consequência da pandemia. O que posso adiantar é que, a meu ver, nada será como dantes, os países credores serão forçados a aceitar uma reestruturação ou mesmo o perdão das dívidas dos países cujas economias estão fortemente endividadas. É necessário, penso eu, criar uma frente comum dos países africanos para, em bloco, poderem negociar com os países credores.

Mas tudo vai depender da disponibilidade das instituições credoras?

Tem de haver uma mudança radical na estratégia do FMI e do Banco Mundial no tocante às exigências de cumprimento do pagamento da dívida, da não subsidiação da economia e dos deficits dos países do Sul. Não bastam declarações dos responsáveis ou relatórios técnicos, há que pôr em prática uma política radicalmente oposta à actual. Veja-se como o Senado norte-americano aprovou um pacote financeiro monstro para socorrer as empresas, numa clara dissonância daquilo que defende para países terceiros. A União Europeia libertou os seus membros das metas do deficit e também está a disponibilizar verbas e a conceder moratórias através do BCE (Banco Central Europeu). Ainda hoje acabo de ler nas notícias que uma empresa holding do presidente Trump pediu uma moratória sobre um empréstimo que tem num banco alemão. Em suma, a economia de Angola, para se reconstruir, vai ter absoluta necessidade de ver a sua dívida externa reestruturada e, no que for possível, perdoada, bem como de se poder financiar a prazos muito longos e taxas muito perto de zero.

E se…

Se os países credores não perceberem que têm agora de levar a sério o problema africano, em vez de se limitarem a socorrer (muitas vezes contra a vontade) e a contar os náufragos do mediterrâneo, correm o sério risco, tal como disse o António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, de num futuro próximo se verem a braços com uma nova pandemia fruto da degeneração da covid-19, fruto da sua proliferação incontrolada nos países do Sul, com sistemas de saúde frágeis e muito frágeis. Esse seria o cenário que ninguém quer, pois a mutação total de um vírus põe de lado todos retrovirais e vacinas entretanto conseguidas e será altamente devastador, atente-se às palavras de Bill Gates em entrevista, a 5 de Abril, a Trevor Noah. 

O governo prepara uma série de medidas de estímulos para empresas e famílias. Que opinião ou sugestões tem sobre as medidas que podem ou devem ser criadas nesta altura para, pelo menos, manter as empresas?

As medidas de que até agora tive conhecimento vão no sentido de minorar os efeitos do forte abrandamento da economia por força da prevenção contra a covid-19. Todavia, não deixam de ser transitórias e que no fundo virão a aumentar o endividamento das empresas, já de si, a meu ver, na esmagadora maioria descapitalizadas. O instrutivo n.º 4 do BNA vem permitir uma moratória de 60 dias para os financiamentos que estejam em dia das empresas que não tenham nenhuma situação em mora. É uma ajuda, mas não deixa de ser um balão de oxigénio. Também é uma realidade que as disponibilidades para financiar a economia por parte do Estado são diminutas, pelo que não se pode pedir milagres. No entanto, penso que chegou a hora de todos contribuírem com a sua parte. 

Todos?

Comecemos pelas instituições financeiras. Os bancos não deveriam, de modo algum, distribuir dividendos, pois esse capital pode ser necessário num futuro próximo dada a imprevisibilidade do comportamento da economia. Deste modo, ponhamos, desde logo, os accionistas a não tirarem proveitos na actual conjuntura. Os bancos com robustez financeira deveriam ou financiar ou entrar no capital das empresas, a juros baixos, sem estarem à espera de compensações do tesouro, investindo em força, mas com critério, na agricultura, pesca e pecuária familiar, muito por força das cooperativas, nas pequenas e médias empresas agrícolas, pecuárias e pesqueiras, bem como nos serviços de apoio à sua actividade. Ou seja, assistência técnica, distribuição de factores, máquinas peças e ferramentas, oficinas e recauchutagens e (muito importante) na logística, para fazer chegar os produtos aos mercados, praças e supermercados.

E qual seria o papel do Estado?

Do lado do Estado, penso que a medida que mais satisfaria os agentes económicos privados seria a suspensão do IVA em muitas transacções, que as Associações Industriais e Empresariais, nomeadamente a AIA, já têm vindo a expor a representantes do Executivo.

Conhecendo o nosso sector empresarial, que tempo acha que conseguiria sobreviver a esta situação?

O sector empresarial nacional é muito diverso e as empresas também. Neste ciclo, tenho a convicção de que as telecomunicações, a moderna distribuição alimentar (hiper e supermercados), saúde privada (farmácias, laboratórios de análises e clínicas), instituições financeiras, algumas agro-indústrias, caso não lhes falte matéria-prima, como moagens e padarias, poderão ter um desenvolvimento e até fortalecimento aceitáveis. A generalidade das empresas tem uma situação económica e financeira frágil, pelo que a sua sobrevivência vai depender essencialmente de dois factores:A qualidade e o alcance das medidas de incentivo e protecção;A capacidade dos gestores em encontrarem formas de se adaptarem à nova situação, nomeadamente através de fusões (muito importantes na banca), parcerias, etc.

Acredita que a dificuldade imposta pela baixa do preço do petróleo, agravada pela covid-19, fará com que definitivamente apostemos na diversificação da economia ou tudo voltará a estar à volta do petróleo caso este volte a recuperar um preço que satisfaça a nossa economia? 

Tudo é possível, mas vejo como muito remota a possibilidade de se voltar ao ‘el dorado’ dos tempos do petróleo caro e da vida fácil para os privilegiados. Também acredito que a diversificação, embora não na dimensão desejável, será um caminho sem retorno.

Depois de toda esta situação passar, qual acha que deve ser a estratégia do Governo para se alcançar definitivamente a diversificação?

Saber ouvir e só depois fazer.

A agricultura, por norma, é o sector apontado como aquele em que se deve apostar visto ter capacidades e potencialidades para imediatamente dar resultados. Tem a mesma opinião? Em que outros sectores apontaria? 

Tenho exactamente a mesma opinião, desde que se acautelem os aspectos que a agricultura exige para poder dar resultados. Os outros sectores em que na minha opinião seria oportuno investir são os materiais de construção (fundamentais para a realização das infra-estruturas), as oficinas, misturadoras granuladoras de adubos, distribuidoras de factores para a agro-pecuária, agro-indústria, transportes e restantes aspectos da logística.

Como avalia e caracteriza as potencialidades do subsector dos lacticínios no âmbito da diversificação da economia?

Se estamos a falar da criação de gado leiteiro, a minha opinião é uma. Se estamos a falar na produção de produtos lácteos como seja leite UHT, iogurtes, Omavele, natas, sobremesas lácteas, queijo, etc., a minha opinião é outra totalmente diferente. Refiro-me naturalmente a uma visão sob o ponto de vista da viabilidade económica. Comecemos pela produção de leite em natureza – Vacarias e sua viabilidade. A produção de leite em natureza concentra-se actualmente na Europa, EUA e Nova Zelândia/Austrália, regiões que se vêem a braços com elevados excedentes e com sérios problemas de subsidiação dos produtores. A China ainda é compradora de leite, estando neste momento a incentivar a produção interna. Se compararmos ao fenómeno da produção do concentrado do sumo de maçã (que ninguém levou a sério no início), em apenas 10 anos, a China passou de importador, a maior produtor mundial, exportando hoje para a Europa e para os EUA, estes últimos o histórico bastião do concentrado de maçã. Hoje em dia, os excedentes de leite em natureza obrigaram à sua desidratação, transformando-o em leite em pó numa matéria-prima a nível global. O preço mundial desta commodity é determinado em grande parte pelos leilões à terça-feira feitos pelo grande produtor neozelandês Frontera. Assiste-se, por um lado, ao aumento da produção mundial do leite, quer pelos ganhos de produtividade, conseguidos pelos constantes avanços na manipulação genética e na tecnologia, quer pela entrada do novo player China. Paralelamente, o consumo de leite entrou em declínio nos mercados tradicionais, na UE e nos EUA.

Tudo isso para dizer que…

Porquê e para quê apostar na intensificação da produção de leite em natureza (criação de vacas leiteiras) no país? Não deixa de ser paradigmático que, enquanto os países mais desenvolvidos na tecnologia da produção leiteira, com produtividades entre os 40 e 50 litros de leite por vaca por dia, tentam baixar a produção, chegando a pagar aos produtores para abaterem os efectivos leiteiros, haja em simultâneo, uma apetência pelo incentivo à criação de gado leiteiro, num país que perdeu tradição no seu maneio, em que as condições climáticas determinam uma produtividade limitada e onde não existe tecnologia disponível, quer sob o ponto de vista do melhoramento e manipulação genética, quer sob o ponto de vista da tecnologia de maneio, cria, recria, ordenha e conservação do leite em natureza. Naturalmente que os grandes produtores de efectivos pecuários e os fabricantes de equipamentos de maneio, ordenha, reprodução, etc., ligados ao gado leiteiro, face ao declínio dos mercados tradicionais, irão fazer o seu lobby junto das consultoras e, quiçá, até directamente junto dos governos dos países do Sul, no sentido de se “tornarem autónomos na produção de leite”, ou melhor, no sentido de transportarem para os países de África (e não só), os problemas com que actualmente se debatem os EUA e a Europa que sabem bem, vão ter tendência a agravar-se, com o advento da produção chinesa.

E no caso do leite como matéria-prima?

O importante para a substituição de importações de produtos acabados e talvez no futuro (uma vez satisfeita a procura interna), para a exportação, é conseguir consolidar no país uma indústria transformadora, tecnologicamente evoluída, capaz de processar a matéria-prima leite (seja ele em natureza ou em pó para reconstituição industrial) em leite de longa duração ultrapasteurizado (UHT) e outros derivados lácteos, nomeadamente iogurtes, leites fermentados (tipo Omavele), queijo, sobremesas lácteas, etc. Para abastecimento desta indústria transformadora deve ter-se em linha de conta uma diversidade de fontes, sendo que a base deverá ser o mercado global da matéria-prima leite em pó para a indústria, complementada com a oferta de leite nacional em natureza. Tal não significa que se deva subsidiar a produção nacional de leite em natureza, cuja intensificação terá sérias dificuldades em se desenvolver e tornar minimamente competitiva como adiante tentaremos demonstrar, mas, sobretudo, impedir a total abertura à importação livre de taxas e impostos do leite líquido (produto acabado), como actualmente é prática.

Resumindo, qual delas é a mais rentável? 

Em suma, na minha opinião, a rentabilidade da indústria de lacticínios no país é sustentável, sendo que a criação de gado leiteiro não conseguirá competir com a matéria-prima leite em pó, que chega ao país a menos de metade do preço de custo do leite em natureza.

A decisão de os accionistas da Lactiangol venderem a empresa não pode ser encarada como um sinal de que se trata de um negócio sem futuro em Angola? 

A decisão dos accionistas da Lactiangol foi uma decisão inevitável, para evitar a falência da empresa, o fim de uma prestigiada marca nacional e como forma de assegurar a continuidade dos seus postos de trabalho. Esta decisão foi-nos imposta pelo facto de, durante nove meses, nem o BNA, nem a banca comercial nos terem disponibilizado um único dólar para a aquisição de peças, matéria-prima, ou embalagens. Com os stocks esgotados, todas as poupanças gastas, os créditos dos fornecedores ultrapassados em todos os limites, todas as portas fechadas, à excepção da senhora ministra da Indústria, a única solução era entregar a empresa a quem tivesse dinheiro para a poder manter em laboração, ou em alternativa abrir falência.

Aconselharia alguém a investir nesse sector? Porquê? 

No sector industrial dos lacticínios, aconselho, pois tem um potencial enorme de produzir uma grande variedade de produtos importantes quer para a dieta das camadas infanto-juvenis, quer dos mais velhos.

O processo de venda da Lactiangol está totalmente selado, Pagamentos totais, etc.?

Assunto encerrado.

Têm estado a acompanhar os novos proprietários? Estão satisfeitos com o negócio? Eles estão a cumprir com os acordos?

Não estou informado, pois, como é natural, nada tenho que ver com a actual gestão da empresa.

Após a venda da Lactiangol,  revelou que a empresa tinha ficado cerca de nove meses sem acesso a divisas e que essa terá sido uma das razões das dificuldades que enfrentava. Este quadro leva-me a questionar o que faltou?

O que faltou foi vontade política em apoiar uma indústria nacional. Enquanto se encheram os super e hipermercados com mercadorias importadas, muitas das quais acabaram por ter de ser vendidas ao desbarato, por estarem a expirar os prazos, a Lactiangol (e provavelmente outras indústrias), tal como referi atrás, teve de paralisar por não ter acesso a divisas, não obstante o corrupio de contactos feitos pela administração a quem mandava, ou no mínimo tinha capacidade de influenciar as decisões.

A Lactiangol, com os anos de existência que tinha, podia apostar na exportação de alguns dos seus produtos, talvez isso minimizasse a dependência das divisas internas? 

Se não tínhamos capacidade cambial para produzir para os nossos principais clientes, como poderíamos pensar em exportar. Além disso, a exportação não pode ser entendida como um mealheiro de divisas do exportador. A exportação deverá ser feita através do instrumento universal de venda de mercadorias, que são as cartas de crédito e o exportador recebe o contravalor à data de pagamento do importador.

Mesmo internamente, os produtos da Lactiangol estavam mais voltados para Luanda. O que faltou para os produtos se tornarem numa marca nacional e líder na escolha dos consumidores? 

Infra-estruturas. Estradas capazes de transportar a preços razoáveis os produtos perecíveis.

Pouco mais de um ano depois de deixar a empresa, qual é o balanço que faz do tempo que dirigiu a Lactiangol?

Sinto que dei mais de um quarto de século da minha vida àquela empresa, e fico orgulhoso por saber que, em 25 anos, nunca paralisámos, fazendo muitas travessias do deserto, mas crescendo sempre. Mais ainda, conseguimos erguer a Lactiangol sem termos nenhum ‘marimbondo’ na nossa estrutura accionista, capaz de injectar dinheiro na empresa, ou mover influências, quando tantas vezes bastava um simples empurrãozinho de boa vontade para podermos ganhar.

Perfil

José César Macedo de 63 anos liderou a Lactiangol durante 25 anos, até Março de 2019 altura que a empresa de lacticínios passou para outros proprietários. Licenciado em Gestão pela Universidade Internacional de Lisboa, é presidente da Associação das Industrias de Lacticínios desde a sua fundação em 2015. 

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