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Venda de bens em segunda mão ganha força

22 Dec. 2020 (In) Formalizando

COMÉRCIO. Queda do poder de compra, preços mais acessíveis e preservação ambiental são um dos principais factores do aumento da venda de bens já usados. Mas há ainda uma certa desconfiança.

Venda de bens em  segunda mão ganha força

É cada vez mais comum observar nas ruas da capital jovens, e não só, fazendo-se transportar em motos com electrodomésticos e outros tipos de bens já usados à procura de clientes. De megafones na mão, ou com afixados na moto de três rodas, conhecidas como ‘kupapatas’, percorrem a periferia, inclusive algumas zonas urbanizadas, cada um com o seu modo peculiar de despertar interesse aos potenciais clientes.

As máquinas de lavar e geleiras figuram no rol das mais vendidas, segundo conta Rodrigues Nsumbo. O jovem de 30 anos, dedica-se, há um ano, ao negócio e tem como principais pontos de venda Viana e Cazenga. Compra qualquer tipo de bem estragado para depois reparar e vender a quem não tenha possibilidade de comprar um novo, a um preço avultado. Por exemplo, vende uma máquina de lavar média, sem secador, entre 12 e 14 mil kwanzas, com a devida negociação com o cliente. Já uma geleira pode chegar aos 35 mil, dependendo do estado de conservação. “Os electrodomésticos estão caríssimos, nem todos têm possibilidade de comprar um novo. A solução de muitas famílias têm sido os usados. Temos facilitado a vida de muita gente”, conta, satisfeito com as quatro a cinco vendas, em média, semanais.

Outros, na falta de meios   de transporte, não se inibem de andar com o bem sobre a cabeça. É o caso de Carlos Congo, vendedor ambulante de máquinas de lavar. Admite que actualmente a procura por um bem usado é maior do que há algum tempo, embora sob desconfiança do estado de funcionalidade. Com vista a superar o cepticismo dos clientes, prefere vender a duas prestações concluídas no prazo de uma semana, período de certificação do estado de funcionalidade. 

Pela internet, a venda de bens é visivelmente maior, basta olhar pelos grupos e páginas nas redes sociais, em que são publicadas imagens com descrição do período de uso do bem, além do preço, sem, no entanto, garantias. Mas, em algumas ocasiões, com direito à negociação do valor final. Os bens vão desde os decorativos a electrodomésticos e vestuários.

A verdade é que, muitas vezes, os bens usados vendidos informalmente não são confiáveis. Passados menos de um mês, geralmente, apresentam defeitos, noutros casos, deixam de funcionar repentinamente. Foi o que aconteceu com Inês Paixão, que comprou uma máquina de lavar sem secador a 12 mil kwanzas. Em menos de cinco dias, parou de funcionar enquanto lavava. “Foi uma má opção. Não tive escolhas, fui obrigada a vender a quatro mil a uns miúdos que fazem reparações”.

PENSAMENTO AMBIENTAL

Para elevar a confiança dos clientes em adquirir bens usados, a Lafitte teve de combinar as vendas digitais com a física. Abriu uma loja de electrodomésticos usados, com preços fixados com base em três classes influenciadas pelo tempo de utilização e conservação, chegando a ter 10% mais barato em comparação a um novo. Elton Escrivão, um dos proprietários, explica que a decisão surgiu da falta de credibilidade do sector informal. “A loja física dá mais confiança aos clientes, permite reclamações em caso de algum problema e oferece segurança de que se trata de um bem não roubado”, assinala.

Fora do lado lucrativo, refere Elton Escrivão, o objectivo é “incutir na mente do angolano o uso de bens usados de qualidade, de forma a fazer perceber que comprar mais verde e inteligente tem grandes vantagens e garante o desenvolvimento sustentável.”

Além da venda, a ‘startup’ adquire, através do seu site e loja física, bens que estejam na dispensa de casas ou empresas. Embora de forma muito tímida, as empresas têm-se associado à causa por um factor ambiental. Ainda que exista, sobretudo nas públicas, uma certa relutância na venda dos muitos produtos, mesmo que estejam a perder valor na dispensa. A outra maior dificuldade, assinala Elton Escrivão, tem sido o critério de compra por consignação, não concordada por muitos clientes que queiram somente desfazer-se do bem e não pensem numa perspectiva mais ambiental.

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