2026: GOVERNAR PARA A FELICIDADE OU PARA O PODER?

Ao afirmar, no discurso de fim de ano, que todas as decisões do Executivo foram tomadas a pensar na felicidade dos angolanos, o Presidente da República fez uma declaração, simultaneamente, confortável e frágil. Confortável porque soa bem; frágil porque não resiste a um confronto sério com a realidade social, económica e institucional do país.

2026: GOVERNAR PARA A FELICIDADE OU PARA O PODER?

Se a governação tivesse, de facto, como eixo central a felicidade dos angolanos, o país não estaria mergulhado numa crise persistente de rendimento, numa degradação contínua dos serviços públicos e numa perda quase estrutural de esperança, sobretudo entre os jovens. Nem teríamos centenas de milhares de angolanos a deixarem o país, enquanto outras centenas de milhares alimentam o mesmo sonho.  

A felicidade não se decreta em discursos. Constrói-se com políticas públicas coerentes, previsíveis e orientadas para resultados concretos na vida das pessoas.

Governar para o bem-estar dos cidadãos e governar para a manutenção do poder não são, na prática, a mesma coisa. A experiência angolana — e a história política recente — mostram que, demasiadas vezes, a lógica da sobrevivência política tem travado reformas estruturais, interrompido processos de desenvolvimento e desviado recursos para projectos imediatistas, caros, de alto impacto mediático, mas de utilidade social duvidosa.

Em nome da estabilidade política, adiou-se a diversificação económica. Em nome da disciplina partidária, sacrificou-se a descentralização real. Em nome do controlo do poder, tolerou-se uma governação excessivamente centralizada, lenta a decidir e resistente a ouvir. O resultado é um país onde o Estado investe milhões, mas transforma pouco; anuncia muito, mas resolve pouco.

É neste contexto que 2026 ganha um peso histórico particular. Trata-se de um ano pré-eleitoral. É também o último ano completo de governação efectiva de João Lourenço enquanto Presidente da República. A partir daqui, cada decisão será inevitavelmente contaminada pela lógica eleitoral. Cada investimento será avaliado pelo seu retorno político, não pelo seu impacto social. Cada política pública correrá o risco de ser instrumentalizada para fins de manutenção do poder.

A tentação será grande. E precisamente por isso o apelo torna-se mais urgente.

O Presidente ainda tem a possibilidade de fazer uma escolha clara: governar este ano como estadista ou como estratega partidário. A primeira opção exige coragem política, aceitação de custos e ruptura com práticas que privilegiam a aparência em detrimento da substância. A segunda é mais fácil, mais previsível e mais segura — mas também mais estéril do ponto de vista do legado histórico.

Angola não precisa, neste momento, de mais grandes anúncios, nem de mais obras emblemáticas sem impacto sistémico. Precisa de decisões que melhorem o rendimento das famílias, reforcem os serviços públicos, devolvam credibilidade às instituições e restabeleçam a confiança entre governantes e governados. Precisa de uma governação que trate os cidadãos como fim e não como meio.

Se a felicidade dos angolanos foi, de facto, o critério das decisões passadas, então este ano será a prova definitiva. Porque governar para a felicidade implica, muitas vezes, abdicar da conveniência política. E a história ensina que o poder pode ser mantido por algum tempo; a legitimidade perde-se rapidamente quando a governação falha com as pessoas.

2026 não é apenas mais um ano. É, possivelmente, o último momento para governar de facto — e não apenas para preparar a continuidade do poder.