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Temem condições da quarentena

Empresários chineses só regressam depois do fim do coronavírus

Saúde. Investidores preferem enfrentar a possibilidade de serem contaminados pelo coronavírus do que enfrentarem a quarentena em Angola por suspeita das debilidades de saúde no país. Académico estima escassez de produtos chineses depois de Março.

Empresários chineses só regressam depois do fim do coronavírus

Há um consenso no seio da comunidade chinesa que opera em Angola, sobretudo empresários que se encontram na China, de regressarem ao país apenas quando a epidemia do coronavírus estiver totalmente controlada e não existir mais a necessidade de estarem em quarentena.   

A revelação foi feita ao VALOR por Shang Jing, académico e investigador do Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, justificando a decisão com receios dos défices do sistema de saúde em Angola e mais especificamente nos centros de quarentena. “A comunidade chinesa é de opinião que, caso os empresários chineses não tenham urgência em regressar a Angola, devem ficar na China. É uma ideia que está patente em quase toda a comunidade. Não se trata de uma orientação, mas sim um consenso, não vão regressar nos próximos dois meses”, adianta. “É uma preocupação. Os passageiros saídos da China ficam em quarentena de catorze dias em dois centros que estão quase cheios e sabemos que o nível de saúde em Angola não é muito alto. Muitos chineses estão preocupados com a situação destes centros. Um passageiro chinês, por exemplo, pode ir para estes centros sem qualquer doença, mas sair de lá com malária, febres ou outras doenças”, insiste Shang Jing que também se encontra na China.

Segundo os dados mais recentes estão em quarenta nos dois  centros 114 pessoas provenientes da China. Dos quais setenta chineses e 42 angolanos, além de um brasileiro e um marfinense.

 

Escassez de produtos

O académico chinês estima que, depois de Março, os produtos chineses poderão faltar ou estar mais caros no país como consequência da paralisação de algumas fábricas e também dos serviços alfandegários da China. “Nesta altura, os negócios estão a correr bem porque grande parte dos empresários investem na importação e exportação e têm em armazém mercadoria suficiente para atender à demanda, mas, depois de três meses, poderá registar-se alguma dificuldade porque muitas fábricas não estão a produzir.”

Shang Jing lamenta, por outro lado, a apreensão de máscaras que a comunidade chineses em Angola tentou enviar para a China para acudir a grande necessidade imposta pelo vírus. “Precisamos de muitas máscaras de protecção N95 e ou máscaras de hospital normal. Há muitos chineses no estrangeiro a comprar para fazer doação. Os que estão em Angola também querem fazer doação, mas não estão a conseguir enviar porque o Ministério da Saúde está a proibir, não compreendemos esta política. Se o Ministério não quer que os chineses enviem máscaras tem de tornar pública esta decisão ao menos já não se compra”, desabafou.

Sobre o assunto, o inspector geral da Saúde, Miguel Oliveira, explica que a decisão do Ministério da Saúde “não é dirigida exclusivamente àqueles meios que vão para a China ou contra a iniciativa dos chineses”, salientando ser “proibido em termos de lei angolana alguém que não esteja licenciado importar ou exportar produtos farmacêuticos”.

Miguel Oliveira acrescenta que nada prova que se tratava de uma doação visto que “não existe nenhum documento que indica isso”. “Uma coisa é uma doação outra coisa é uma empresa de construção civil que compra milhões e milhões de máscaras para enviar e dizer que está a enviar para familiares”, precisou. 

Estimando terem sido apreendidas perto de cem mil máscaras, Shang Jing afirma que a dependência da China por máscaras importadas vai diminuindo “porque agora tem muitas fábricas, fábricas de veículos, roupas e muitas outras que mudaram a linha de produção para produzir máscaras e roupas de protecção”. “Nas primeiras semanas, a situação era grave, a China tem cerca de 1,4 milhões de habitantes e, por exemplo, as máscaras de hospital só podem ser usadas durante 4 horas, por isso muitas fábricas na Europa e na América estão a produzir para vender para a comunidade chinesa nestes países e estes exportarem para a China”.

Shang Jing estima que, por esta altura, estejam menos de 20 empresários chineses em Angola, dos mais de dois mil que operam no país, visto que muitos viajaram para o gigante asiático para comemorar o 25 de Janeiro, o Ano Novo chinês.