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CELESTE DE BRITO, EMPRESÁRIA

“Angola não tem dívidas com a China conforme dizem”

ENTREVISTA. Na primeira grande entrevista a um órgão angolano, depois de deixar a prisão em Novembro do ano passado, a empresária Celeste de Brito reabre o livro do caso que ficou conhecido como ‘Burla à ‘Tailandesa’ e explica por que razão se considera vítima da ignorância e da “ingenuidade”. Declarando-se como uma “empresária global”, faz comparações do processo a outros casos na justiça e enumera os riscos de uma gestão do país, na falta de alta liderança. O que existe “é uma auto-liderança e falta muita maturidade”, enuncia.

“Angola não tem dívidas com a China conforme dizem”

Esteve presa por cerca dois anos. Está de volta?

Mal saí, comecei a trabalhar internamente, a refazer tudo o que foi interrompido. Na altura em que fui detida, o tailandês, senhor Raveeroj, era apenas mais um cliente dos serviços que eu fazia. Todas as outras operações que estavam montadas com os outros acabaram por ser interrompidas bruscamente, as garantias que estavam emitidas caducaram. Estamos a refazer tudo isso, adaptar e a dar continuidade a cada um dos processos. 

A prisão colocou em risco a continuidade de algum destes negócios?

Atrapalhou enquanto eu estive presa. Depois que saí, não, porque o caso que Angola especulou, fez ou prendeu é só na cabeça dos angolanos que é possível. Trabalho com alta finança e negócios elevados. Para eles, interessaria se algum dos envolvidos tivesse algum problema com o sistema financeiro, porque o facto de dizerem que o cheque é falso, isto é um problema de Angola. Nem sequer aquilo é um cheque de levantamento. É um indeed. Hoje o fundo está aberto. O angolano, qualquer um, não precisa de ser o governo, pode entrar e fazer um crosschecking e vai encontrar tudo lá, tudo o que querem mostrar que não é possível. 

Voltaria a tentar um investimento semelhante para Angola?

Não vou desistir de Angola, não sou eu a pessoa errada. Sei o que estou a fazer, há falta de conhecimento nas pessoas que me julgaram e deduziram que estava errada, mas é o que eu disse desde a primeira hora. Sou proactiva, tenho uma quantia que está depositada como caução e, se eu causar danos ou fizer uma engenharia errada, os meus tutores pagam, porque eu sou tutorada. Na altura do julgamento, pedimos extracto bancário da minha conta internacional para mostrar e garantir que, se eu tivesse feito alguma coisa de errado, poderíamos reparar. Se pensaram que fosse uma tentativa de burla, na verdade, não era. O que íamos fazer é o mesmo caso que está a acontecer agora com o “caso 500 milhões”. Chama-se monetização. Este tailandês pegou em 50 milhões de dólares, comprou uma stand by of the credit e foi monetizar no valor de 50 mil milhões. Não consigo entender se têm medo de que se fale de finanças, vai descobrir-se que, com a China, Angola não tem dívidas conforme dizem. Há uma série de coisas que são mentiras. 

Fez comparações ao ‘caso 500 milhões’, mas há diferenças...

A diferença é que os 500 milhões estavam a sair de Angola para ir buscar fora e o tailandês já tinha feito tudo fora e estava a trazer para Angola, como se fosse um pré-cozido, era uma pré-engenharia para se terminar aqui. Cada um dos 500 milhões iria buscar os 50 mil milhões. Estes 50 mil milhões não são do tailandês, nunca é do empresário que vai fazer um investimento. O empresário vai com os fundos e os bancos de primeira linha montam. O banco é quem fala para o governo ou para as pessoas. Qualquer pessoa pode ir para a Google e procurar por monetização, é alta finança, não tem crime nenhum. Nem para o Zenu aí não tem crime. Se tiver crime, é na forma de autorização ou não autorização. Ninguém que coloca um fundo bloqueado para fazer monetização num banco de primeira linha perde o dinheiro, porque o dinheiro não é para o banco nem é usado, fica bloqueado e monetiza-se como instrumento financeiro. 

E como explica que casos desses sejam julgados?

Temos aqui o FMI e o Banco Mundial a quem podem recorrer. Eu, por exemplo, identifiquei-me, disse que trabalhava com o programa financeiro SPFO. Não consigo perceber a paranóia de pensar que toda a gente que quer fazer alta finança, monetização, quer burlar Angola. Tem alguma coisa que Angola está a esconder e que não querem que os angolanos saibam o que é alta finança para não se descobrirem as trambiquices que se fizeram no passado. Têm medo disso ou então é mesmo ingenuidade e falta de sabedoria, porque tiveram mente de escassez, estão com mente de comunistas, ficaram fechados e não têm conhecimento nenhum. No mínimo, já deveriam ter ido ao Google para tentar saber o que é que se está a passar. Estão a afugentar os grandes investidores. Esta, para o caso em que Angola se encontra, é a única forma de fazer investimento. Aquele tempo de se fazer investimento em que os estrangeiros vinham com 100 milhões ou um milhão e davam-lhes logo 15 anos sem imposto era uma brincadeira, é o que fez estarmos com um monte de cantinas e padarias e nenhum investidor no verdadeiro sentido da palavra. Toda a gente que veio como investidor acabou-se pendurando no Orçamento Geral do Estado para fazer negócio aqui, ninguém trouxe dinheiro para Angola. As pessoas que querem trazer dinheiro sabem que tem uma forma padrão, é ciência e não é inventada aqui. No meu caso, cheguei a pensar que fosse má-fé porque era um caso político, envolveram-se pessoas que não tinham de se envolver. 

Como assim?

Tenho uma parceria público-privada assinada com o Estado, não tinha intenção de ir buscar uma garantia. Três ou quatro meses antes de conhecer o tailandês, eu já tinha assinado com o actual vice-presidente e a autorização que ele deu eu já tinha assinado com o Fundo de Apoio Social (FAS). Existe este consórcio externo, existe também um memorando de entendimento com a Casa Civil da Presidência. O mesmo memorando tenho com o Zimbábue e com o Congo. Em nenhum dos casos peço garantias porque, neste fundo, eles nem aceitam garantias do Estado, estou na linha humanitária e na linha de fé. Não aceitam garantia do Estado como condição, obrigam a que se leve uma garantia bancária. Não sei de onde veio a ideia de que eu queria uma garantia do Estado. Para fazer exactamente o que? Mesmo o tailandês que está preso fez uma carta de intenção, receberam a carta e em nenhum momento ele pede garantia. Nem quando estava comigo, nem depois que foi com outras pessoas que queriam ficar com ele, não pediu garantia porque eu conheço como se trata com estes assuntos. 

O tailandês assumiu, em julgamento, ser o proprietário dos 50 mil milhões de dólares, no entanto, a senhora acabou de afirmar que este dinheiro não é do empresário. Qual é a explicação?

O tailandês disse que o dinheiro era dele porque, realmente, hoje está na conta dele; foi monetizado este fundo e está na conta dele. Ele pode dizer que é dinheiro dele, mas esta quantia é anúncio, não é dinheiro em cash, ele nunca vai poder usar um tostão se não fizer negócio em África porque foi requerido pelo FAS. O FAS confirmou em carta que fez para mim, é a entidade que confirmou que Angola podia usar daquela quantia. Eu disse, desde a primeira hora, e é o que fez eles me afastarem, que não era possível pensarem que o dinheiro viria para Angola. Não viria, era para financiar projectos e não para trazer o dinheiro para Angola e as pessoas acharam que eu estava a atrapalhar negócios. Tenho ligações directas com o fundo Marcos Hernandes, que é o fundo que está no banco central das Filipinas, a minha ligação não é pelo senhor Raveeroj, então conheço como é que se trabalha com este fundo. 

Como é que os fundos ganham no negócio de monetização?

Existem questões que não vêm a público, são negócios deles. Mas este fundo, por exemplo, ao fazerem o negócio, investe comigo e ficam com 50% dos lucros feitos naquele negócio e a outra pessoa com os outros 50%. Este 50% que têm como lucro, que ele vai ganhar daqui a 20 e ou 30 anos, vai fazer para outros negócios. Eles ganham assim. Não emprestam dinheiro para tirar juros porque são fundos para ajudar, para dar oportunidades iguais. No tribunal, falei da Agenda 20, da Agenda 30 e Agenda 63. Engraçado é que as pessoas nem sabiam, acharam que eu estivesse a falar de loucura. Começa agora a década de acção, são 10 anos para o desenvolvimento de oportunidades iguais, é o que eu faço, é para isso que fui treinada, durante 12 anos, justamente para este tempo. Por exemplo, veio aqui a Alemanha e parece que é a Alemanha que vai investir nisso, não. Existe este fundo para as nações. Não é preciso que um outro país nos leve a reboque, porque ele vai buscar o dinheiro no fundo e vem investir no aqui, porque não sabemos. 

Está a sugerir que estes se aproveitam da  ignorância dos outros?

É isso que se passa realmente. Não temos o conhecimento que eles têm e usam a nossa ingenuidade, não digo ignorância, e vendem-nos o nosso dinheiro. A China, por exemplo, com os 15% que recebeu aqui, foi buscar o dinheiro nestes fundos. Deixa-me só fazer umas contas. Com 25 milhões de dólares, a China compra uma SBC de 250 milhões de dólares, com isso monetiza e faz projectos de 5,5 mil milhões. A cada três meses pode voltar a fazer o mesmo processo e vai fazendo isso. O dinheiro que foram buscar com o nosso dinheiro é-nos emprestado com juros, é exactamente o que se passa. Monetizaram em Honk Kong e com a maior parte do dinheiro que são garantias de Taiwan. Há uns anos, eu tive problemas aqui porque trouxe empresários de Taiwan para fazer directo e a embaixada da China foi até ao meu evento, mandou retirar a TPA e a Zimbo. Pediu para cancelar o evento. Porquê? Por nada? Porque a China nos ajuda? O angolano precisa de abrir a mente para saber que não existe mais ajuda do país irmão. Angola não tem necessidade de pedir crédito. 

Conhece países que têm estado a fazer recurso à monetização para os seus projectos?

O Ruanda. Paulo Kagame faz monetização. Os outros têm alguma dificuldade porque, para fazer monetização, têm de trabalhar com os Estados Unidos e o compliance dos bancos top 10 ou top20 obriga à transparência e todo o país que não faz com estes bancos tem coisas a esconder, não é transparente, este é o único problema, mas este é um problema do Governo. Eu não tenho de ter a transparência do Governo para fazer isso, posso fazer com as cooperativas e com as acções humanitárias porque sou empresária social e sou também humanitária. É possível fazer, o Governo é que nos atrapalha. O Governo borrou tanto que fechou a sua linha, mas a linha para os privados e para os humanitários estão abertas. 

Disse que chegou a pensar que o seu caso fosse político...

Sim, por causa dos políticos que foram afectados e injustamente exonerados. Coloco o meu caso como um caso político, acabei como um dano colateral porque precisavam se livrar desses políticos. Se fizessem alguma investigação, não precisariam de exonerar o general Nunda, não precisariam de exonerar o Norberto, porque não fizeram absolutamente nada que fosse crime. E se quisessem, desde o primeiro momento em que eu falei sobre isso, saber no mínimo o que é uma SPFO, não me teriam mantido na prisão este tempo todo. Precisavam de um bode expiatório, precisavam de mostrar que a agenda política da impunidade começou e começaram por punir gente inocente. Como entendi que era algo político, cumpri a minha pena do jeito que desejaram, com uma série de injustiças. 

Tem estado a acompanhar o ‘caso 500 milhões’. O que lhe diz?

Tenho estado a acompanhar. Tem uma mentira do governador do BNA, tem uma mentira do ex-ministro das Finanças. As outras situações eu não acompanhei de perto mas, se tem algum profissional sério e patriota, vai dizer bem claro o que é que se estava a fazer. Não tenho certeza se houve realmente uma orientação do Presidente da República. Quando ficar provado que houve esta orientação, o processo acaba. Caso contrário, podem recorrer ao tribunal internacional. A alta finança tem tribunais na Bélgica e em França que só tratam destes casos. 

O ex-Presidente já confirmou, o Ministério Público levantou dúvidas, mas o Tribunal aceitou as declarações…

São tão previsíveis que eu já sabia que, depois que o [ex-]Presidente respondesse, iam dizer que não têm certeza que é mesmo o Presidente que assinou a carta.

Insisto: é um negócio que se faz muito bem e é padrão internacional, não é nada que os angolanos tenham inventado.

“Angola não tem dívidas com a China conforme dizem”

Voltenos a si. Insiste que não falsificou a assinatura do vice-PR?  

Até dizer que falsifiquei ou não estaria a ser retórica, porque se negaram a fazer os exames. Eu e toda a minha equipa estávamos à disposição. Só o facto de não quererem fazer diz tudo. Hoje, uma carta falsificada é igual a eu engravidar e dizer que o filho é seu. Você faz um teste de ADN. Existem tecnologias para isso e estávamos à espera. Como é que sabem que o vice não assinou? Porque fizeram teste então, porque é que a mim não fizeram o mesmo teste? Aquela carta não foi feita pelo vice, justamente porque não precisava daquela carta. Não sou uma pessoa que entrou neste negócio como uma comissionaria que ia ganhar algum se acontecesse. Eu sei muito mais do que o próprio Raveeroj. Ele é apenas um empresário e humanitário, não faz engenharia financeira, eu faço. Não me permitem montar em Angola porque, cada vez que eu monto uma, sabotam. Mas as que eu montei fora estão a funcionar e dói-me não fazer para África. Temos investidores e sócios que podem pôr os 250 milhões para monetizarmos só que existem regras internacionais que não nos permitem fazer sem autorização da equipa económica para evitar o colapso no país. Para estruturar isso não precisa de ter muito dinheiro 

Mas…

Vou dar um exemplo do “caso dos 500 milhões”. Estão a falar que a empresa internacional é uma empresa de ratização. Pode ser. Qualquer empresa, nem que for uma empresa de culinária, desde que tenha um SIS, é apenas para identificar que empresa é. Posso começar uma empresa hoje e amanhã fazer monetização, eles só precisam de ter a minha identidade limpa no sistema financeiro. 

Como é que está o Raveeroj?

Como sabe, ele foi condenado a sete anos e continua preso. Estamos à espera agora que comece o Março para ver o que se pode fazer porque o banco mandou as provas e estão no fundo. Se entrar no facebook, vai ver que o banco mandou as cartas para o antigo presidente do Tribunal Supremo, mas ele nem sequer abriu as cartas. É um pouquinho complicado saber que nós atraímos investidores, mas, chegados aqui, prendemo-los porque não percebemos. O que é que ele fez de errado? 

Por que razão não recorreram aos tribunais da alta finança?

No meu caso, não fiz recurso ao Tribunal Supremo porque fui condenada a 24 meses de prisão e eu já estava com um ano e dois meses detida. Estava dois meses acima da liberdade condicional. Pela burocracia dos tribunais, poderia ficar mais um ou dois meses porque pedi recurso. Eu precisava de vir para os meus filhos com urgência então pedi ao advogado para não recorrer porque pensei que fosse sair, mas acabei ficando mais oito meses acima da liberdade condicional. Saí dez meses acima da minha liberdade condicional. O Raveeroj, eles precisavam que se formalizasse alguma queixa e a única pessoa que podia testemunhar era eu, mas eu não quis falar nada até que terminasse a minha pena. Nesta altura, vamos criar essas condições para que se veja de um outro jeito porque achamos que não fazia sentido recorrer para o mesmo tribunal que nos condenou. Ficámos três meses a ser ouvidos, o que havia de ter de novo que, em um ano e três meses, não conseguiram investigar. 

E a justiça internacional?

Sim, estamos a tratar disso. Vamos agora tentar recurso. O Raveeroj é humanitário e também está na frequência de fé e nós entendemos que Angola fez isso não por maldade, mas por falta de conhecimento. Então decidimos sair e ensinar o povo a trabalhar com finança e auto-sustentabilidade.

Como estão os seus outros negócios como, por exemplo, o Natrabank?

A Agenda for África tem um plano directório e a Natrabank Africa tinha aberto a Natrabank Angola. É um projecto que a Agenda for África tem para fazer por Africa. A Natrabank, a Buliobank. Os projectos de auto-sustentabilidade são todos da Agenda for Africa. Sou a presidente da Agenda For Africa em África e para os afrodescentes na diáspora. Ainda estava a formar as pessoas porque o meu conceito cientifico é diferente da forma como se trabalha e da forma até como se pensa. Estava ainda a treinar quando surgiram estas situações. Naquela altura, por exemplo, escreveu-se que o BNA fechou o banco, não é verdade. Nós mesmos, accionistas, decidimos fechar as portas e fazer o treinamento com as portas fechadas e logo depois fui detida, mas nunca recebemos uma intimação do BNA. Recebemos orientações e tratámos várias vezes com o então governador, para converter-se o Natrabank em também um negócio bancário, porque o Natrabank nunca foi um negócio bancário. O banco é para moeda. Para nós, dinheiro não é só moeda. Eu estava a fazer commodity change. 

O Natrabank vai ressurgir?

Pode não surgir como Natrabank, porque tenho sócios e há uma situação com os sócios. Mas temos fornecedores angolanos que forneceram serviços e não foram pagos, vamos assumir isso tudo e vamos abrir o edifício. Pode ser que não seja como Natrabank ou pode ser que seja. 

Como olha para o futuro do país, face ao considerado combate à corrupção e a esta suposta incompreensão da finança?

Sou activista contra a corrupção. Já fizemos muitas denúncias que aparentemete são descobertas apenas agora. Mas hoje não existe mais economia local, é uma utopia. A economia é global. Angola precisa de abrir as portas para que se tenha mercados abertos, zonas francas. Cada vez que estiver mais fechada, vai afundar-se mais, hoje temos tudo para sair desta crise. Se começarmos agora, em 10 anos saímos disso. Ninguém nos engane que Angola vai ficar boa em dois ou três anos, é impossível. 

Voltemos ao caso. Como se explica que o BNI tenha confirmado que o cheque era falso?

Vou explicar-lhe o que é que o BNI fez. O senhor, se tiver o facebook zero, não tem condições para ter todas as ferramentas. O BNI não usou um banco de correspondência que seria o facebook pago. Mandou uma mensagem para o facebook zero e a mensagem, que é electrónica, voltou e pegou naquela resposta. Não aconteceu nada mais. A informação que deram tem ‘n’ questões. Outra coisa, onde é que está o cheque? Não esteve no tribunal, no processo não está o cheque original. Quem é que queria burlar quem? 

Terá dificuldades em trazer outros investidores?

O investimento pode vir, mas o investidor não. 

 Sobre a monetização, não é estranho que as autoridades angolanas não percebam o que é?

Ou há uma máfia por detrás disso, sabem muito bem de monetização e não querem que se faça, nem que se saiba porque uns angolanos estão a receber deste dinheiro. Eu posso arriscar em levar o governo chinês ao tribunal internacional ou as empresas chinesas porque o governo chines nunca entra como tal, coloca sempre empresas privadas. Eu posso pegar nessas empresas e fazer ver que eles fizeram um crime com Angola equivalente a pedofilia. Pegaram em pessoas que não entendem de alta finança e fizeram isso. Depois vamos ver para onde é que está a ir o dinheiro que está a ir de volta como pagamento para a China. Não está a ir para o fundo de que saiu porque não é um crédito. Sempre que você adianta uma garantia tem alguma coisa estranha, as garantias rendem muito dinheiro. Uma garantia bancária de 50 milhões pode comprar uma garantia num banco de 500 milhões e com 500 milhões, podes ir buscar em monetização 50 mil milhões. Se o angolano conseguir abrir a cabeça para entender o que se passa, vai perceber o quanto foi roubado, humilhado e quanto brincaram com os angolanos. 

É uma acusação grave...

O senhor Sam Pa está onde? O tribunal internacional sentiu que estavam a enganar os coitadinhos dos angolanos, mas ele tinha sócios. Este dinheiro que estamos a pagar à China está ir a Hong Kong e nas contas deles. Não é para o governo chinês. O governo chinês abriu possibilidade, são políticas de governos que se aliam aos privados. O nosso Governo nunca se aliou aos privados para ir fazer negócios. O nosso governo tentou fazer negócios privados então aconteceram ‘n’ coisas erradas. As pessoas que foram buscar dinheiro lá foram deveriam ter parceria com angolanos e depois fazer a conta especial e juntos explorarem os projectos em Angola. Não é abandonarem os empresários angolanos, eles mesmo fazerem com o Governo para ir buscar o dinheiro e agora dizerem que o Governo deve, não. O Governo , isso sim, deve às empresas angolanas e cria problemas para as empresas angolanas. A mim criaram um problema de mais de 100 milhões de kwanzas de dívidas por causa de projectos que assinaram e não honraram. Não se faz isso. Os contratos na alta finança são contratos de alta-fidelidade e, quando alguém recua, as indemnizações são muito altas, mas o nosso Governo não tem esta responsabilidade. 

Discorda da prática do Governo de rescisão de contratos?

As pessoas não fizeram o contrato com a pessoa do Presidente da República. No meu caso, não fiz o contrato com o senhor José Eduardo dos Santos, mas com o Governo de Angola representado pelo senhor José Eduardo dos Santos. Outro contrato não fiz com o senhor Bornito de Sousa ou com o senhor Santinho do FAS, fiz com o Ministério do Território e com o FAS. Não me interessa se é o governo do MPLA ou da Unita. O Governo, para mostrar que tem gente séria, precisa de ver e rever o contrato e não rescindir. Troca de dirigente, mas precisa de ler os contratos. Em nenhum dos memorandos que fiz peço um dólar do Governo. Antes pelo contrário, fiz parceria públicoprivada e dei 35% para um fundo não reembolsável para o Governo usar em acções de filantropia que seria dos lucros que eu faria. Ao rescindir os contratos, o Governo está mostrar que não é sério, não tem fidelidade nem honra. Os negócios que se fecharam com o Governo são de alta-fidelidade e honra, precisam de alta liderança. Angola está a mostrar que não tem alta liderança ainda, tem auto-liderança. Ainda são muito jovens, falta de maturidade financeira. 

Discorda de todas as rescisões, face ao combate à corrupção?

Temos apenas de mostrar que temos maturidade para trabalhar com palavra, com honra e isso o Governo não está a fazer. Deveria ter problemas com os locais que se portaram mal, mas os contratos que foram feitos com as outras pessoas não deveriam ser abolidos, como se nada fosse. Sobretudo, porque o Governo é o mesmo há mais de 40 anos. Então, quem vier fazer agora contrato também corre o risco de um dizer ser visto como se tivesse assinado com determinado ministro. Assim ninguém vem. 

Está a sugerir que alguns destes casos na justiça podem ter impacto contrário ao que o Governo espera?

O que Angola construiu à volta do ‘caso da Burla à Tailandesa’ é a forma como eles pensam e fazem. Há 40 anos que estão acostumados a fazerem-se bilhetinhos para as pessoas levarem ao banco e ter dinheiro e estavam a pensar que lá fora também funciona assim. Por isso é que podem dizer que uma carta do vice é para ir buscar dinheiro, isso não cabe na cabeça de ninguém. Sem desprimor, uma carta do vice-Presidente e um papel higiénico, para os bancos com os quais trabalho, se calhar, o papel higiénico, como não aleija, é bem mais útil. A carta não tem utilidade absolutamente nenhuma. 

Como se perspectiva enquanto empresária?

Eu sou global, não só uma empresária angolana apenas. Eu investi 10 anos com mais dois que estive na cadeia. Hoje todos os minutos que eu cobrar nos trabalhos que fiz são 10 anos de investimento. Tenho um futuro brilhante em qualquer parte do mundo onde eu for viver. A experiência que carrego, aquilo que já fiz é global. Se ficar em Angola, vou trabalhar em Angola, não tem como voltar para trás. Trabalhar no que eu trabalho precisa de se ter 100 milhões de dólares caucionados, mas, para estar em África, precisa-se de 250 milhões. Então as pessoas preferem trocar de nacionalidade e trabalhar fora de África, mas a alta finança exige trabalhar em território seu. Tive a sorte e os meus tutores fizeram este depósito, tenho esta quantia e estou activa para trabalhar em Africa. 

Tem noção que, como consequência do ‘caso Burla à Tailandesa’, é encarada com alguma suspeita?

Não culpo nem condeno ninguém porque ninguém respeita o que não conhece. Tenho consciência de que as pessoas que acreditaram naquilo que os média transportaram para fora qualquer uma delas que me julga, eu julgaria pior se não tivesse o conhecimento que tenho, se não estivesse eu neste lugar.

E como pespectiva a relação com os outros empresários?

Hoje podem ver-me como uma ‘persona no grata’, porque é aquilo que lhes passaram. Mas, quando eu começar a trabalhar, vão ver que eu me sacrifiquei para todos eles, porque os empresários todos estão reféns do Governo, como se fosse a última solução.

PERFIL

Nascida em Janeiro de 1973, Celeste Marcelino de Brito António é empresária com operações em diversos sectores. É pastora da igreja Pentecostal e cônsul económica de Taiwa em Angola. Natural da Gabela, Celeste de Brito foi detida em Fevereiro de 2018 por suspeita de suspeita da prática dos crimes de falsificação de documentos, burla por defraudação, associação de malfeitores e branqueamento de capitais. E em Abril de 2019 foi condenada a dois anos de prisão pelo Tribunal Supremo.