Riscos não travam os vendedores

O lucrativo negócio do ouro no mercado informal

COMÉRCIO. Aparente tendência de aumento de casamentos registada nos últimos tempos vai salvando o negócio, face à crise. Vendedores reconhecem riscos, mas classificam o negócio como lucrativo. 

O lucrativo negócio do ouro no mercado informal

Vendedores de ouro no informal consideram “lucrativo” o negócio ao mesmo tempo que lamentam a falta de apoio tanto das autoridades governamentais como das instituições bancárias que se mostram “cépticas” da iniciativa dos jovens, segundo declararam ao VALOR. 

“Temos os bancos que não cooperam com as pessoas que estão no mercado informal, ficam com medo. Esperamos ter mais apoio dos nossos governantes, os bancos devem ir mais atrás dos jovens para apostar mais na economia”, precisa um dos vendedores que diz estar no negócio, há cerca de 8 anos.

Outro grande desafio, resultante da crise económica e agravado com a pandemia da covid-19, tem sido a importação, sobretudo por falta de divisas. “Normalmente compramos 50 a 100 fios, mas o grande ploblema são as transferências. Muitas vezes, compramos as divisas na rua para importar de Portugal, o que fica mais caro", conta outro vendedor, admitindo que chega a vender por 200 euros um fio comprado no exterior a metade do preço.

Lembrando que, antes da crise, tudo era mais fácil, o vendedor  nota que o ouro "está raro e muito caro". E aponta Cabinda e Lunda-Norte como duas províncias de onde são fornecidos também o metal precioso, além da alternativa do exterior. 

OS RISCOS DO NEGÓCIO

A escassez de produto, a dificuldade de importação e o sentido de oportunidade levam a que, em muitas ocasiões, estes vendedores adquiram produtos roubados. No negócio há cerca de 10 anos, Enoque Sorte admite que já adquiriu produtos roubados e, por isso, já perdeu algum dinheiro. 

Depois de trabalhar perto de cinco anos na Ourivesaria Luanda, seu primeiro emprego, decidiu abrir o seu próprio negócio que já tem também quase cinco anos. E normalmente compra de pessoas que pretendem desfazer-se do produto mesmo quando danificados.  “Revendemos e derretemos para fabricar outros artigos. Algumas vezes importamos de Portugal. Não temos um sítio fixo onde a gente possa comprar, dependemos sempre das vendas dos clientes que aparecem aqui”, explica, garantindo que compram produtos roubados mas de forma inocente. “Alguns fornecedores são sérios, mas também já tivemos casos destes (compra de produtos roubados). Vêm nos revender a baixo preço aqui na loja, mas são agarrados pela polícia na maioria das vezes e temos de devolver, pagando o artigo que muitas vezes já foi derretido. Sempre saímos a perder. Geralmente apenas apercebemos-mos que é roubo quando aparecem com a polícia”, confessa.

Mas, apesar dos riscos, para grande parte dos comerciantes continua a tratar-se de um negócio lucrativo. “Para muitos jovens empreendedores, caso tenha foco e saiba gerir bem, consegue-se viver”, reforça Enoque.

Os anéis de noivado e as alianças destacam-se entre os produtos mais solicitados “porque agora tem acontecido muitos casamentos”..

“Ultimamente para vender um fio ou uma mascote ficamos duas a três semanas sem clientes, o rendimento baixou muito desde o início da crise, esperamos que o kwanza nos facilita a compra de dólares, que os jovens empreendedores possam investir muito mais nos negócios”, perspetiva.

A venda de ouro no mercado informal tem o seu ponto forte nas praças e, como acontece com grande parte dos negócios, vai também crescendo nas plataformas digitais.

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