JOSÉ MACEDO, DIRECTOR-GERAL DA NOVAGROLIDER

“Houve anos em que se ganhava muito com a agricultura, agora quase que não se ganha dinheiro”

07 Sep. 2021 Grande Entrevista

Ainda a refazer-se das feridas causadas pela morte do irmão e sócio, o novo director-geral da Novagrolider fala pela primeira sobre a situação da empresa, os investimentos e os projectos. José Macedo queixa-se dos custos das exportações, acusa os portos de terem agravado as taxas e mostra-se céptico com a redução dos preços da cesta básica. “Somos taxados sob várias formas, o que nos leva a não ser competitivos e sem capacidade de fazer investimentos”.

 

“Houve anos em que se ganhava muito com a agricultura, agora quase que não se ganha dinheiro”

Como está a Novagrolider?

A Novagrolíder está a trabalhar, tem algumas dificuldades inerentes aos problemas que o país atravessa e com a perda do poder de compra das populações. Todos sofremos, mas, felizmente, a Novagrolider continua bem.

Quando o poder de compra baixa, as receitas das empresas seguem o mesmo caminho…

A única forma que conheço de ultrapassar as crises é produzir mais, não baixámos o nosso volume de facturação embora estejamos a vender mais barato, mas temos de aumentar a produção para vender mais.

Compensa produzir mais tendo em conta os custos e a queda do poder de compra?

É a única forma que conheço para ultrapassarmos a crise. Se produzir menos, tenho custos fixos que se mantêm. Se for baixar a produção, porque se ganha menos, é pior. Portanto, tem de se produzir mais, as margens estão apertadas.

É possível partilhar o custo de alguns dos principais produtos?

Cada produto tem o seu custo. Não consigo dizer dada a desvalorização da moeda, a situação conjuntural, a falta de poder de compra, desde a baixa do preço do petróleo à pandemia. Todos estes factores causaram alguns problemas. A situação é produzir mais para se importar menos para haver mais divisas. É a única equação.

Os reajustes afectaram muito?

Afectam sempre, porque houve anos em que se ganhava muito na agricultura. Agora não se ganha muito dinheiro, ganha-se pouco dinheiro ou quase não se ganha dinheiro. Consegue-se ganhar dinheiro para manter a estrutura, pagar obrigações fiscais, salários, fornecedores. Já não se ganha dinheiro, como em tempos atrás, quando a moeda estava estabilizada e os preços bastante bons, em que se ganhava muito dinheiro e todos os anos se investia muito. Ganha-se dinheiro para manter a estrutura, já não se ganha para fazer investimentos. Se calhar, quem quiser fazer grandes investimentos é obrigado a recorrer à banca. Nós fazíamos grandes investimentos sem recorrer à banca.

Mesmo com os incentivos do Estado?

Ainda não usufruímos desses incentivos. Temos estado a estudar, a preparar um projecto de investimento. Tenho de equacionar as dívidas que não posso pagar e se nós não ganharmos dinheiro, não conseguimos pagar as dívidas. Temos de ser muito ponderados porque, quando temos um grande projecto, como a Novagrolider, temos de ser cautelosos para não chegar a um ponto de falência. Às vezes, é melhor caminharmos mais lentos do que estarmos com euforias, de situações de endividamento que, depois, não conseguimos cumprir.

As políticas não são tão favoráveis?

Temos de ser cautelosos. As políticas são favoráveis, os juros não são assim tão maus, embora devessem ser melhores. Há uma série de políticas económicas para um sector que se fala que pode ser o pólo de desenvolvimento do país, porque a produção nos dá condições, mas deveria haver mais incentivos, olhando mais caso a caso. A Novagrolider emprega mais de quatro mil funcionários, deveria haver incentivos fiscais e não virem dar dinheiro. Temos de trabalhar, merecer certas situações consoante os resultados. Deveria haver incentivos para certas empresas inovadoras que empregam um grande número de pessoas que contribuem para o país.

A falta de incentivos aprisiona o país na teoria de a agricultura se tornar o motor do desenvolvimento?

Não digo que aprisiona, mas deveria haver mais incentivos à agricultura.

As políticas do Estado acabam por ser um pouco prejudiciais. Poderíamos ter mais, mas o Estado não pode dar mais, temos de nos contentar com o que temos e indo viver com o que temos.

Sem fazer investimentos é um risco para a própria empresa…

Vamos fazendo investimentos. Todos os dias, investimos na empresa. Todos os lucros são reinvestidos. A empresa não está em risco, continua bastante saudável mesmo com a conjuntura. Antes, chegava a uma casa de tractores e comprava 20, agora chego, compro um ou aquele de que mais preciso. Temos uma carteira de investimentos, ainda não abrandámos, mas já não se fazem grandes investimentos sem a ajuda da banca. Antes fazíamos sem a ajuda da banca. As margens de lucros de hoje estão muito diminutas.

A Novagrolíder é uma referência no agro-negócio. Quantas empresas semelhantes seriam necessárias para o país se tornar auto-sustentável?

Dada a quantidade de produtos produzidos pela Novagrolider, teria de haver muitas ‘novagrolíderes’ para o país ser auto-sustentado e para se poder afirmar como grande produtor. Quantos mais produtores houver, mais será a procura internacional, que só acontecerá quando o país for reconhecido como grande produtor.

E quando olha para o mercado, quantas empresas vê ao nível da Novagrolíder?

A Novagrolider é um caso particular em virtude da diversidade de produtos produzidos, existem outras grandes empresas, com um volume de produção bastante elevado, mas mais focados para três ou quatro produtos.

“Houve anos em que se ganhava muito com a agricultura, agora quase que não se ganha dinheiro”

Qual é a carteira de investimentos?

A nossa carteira de investimentos é grande, o nosso projecto continua ambicioso. Vamos fazendo aquilo que conseguimos com os lucros. Mas são de muitos milhões de dólares. Se as coisas estão mal, temos de ser cautelosos.

O cultivo de uva é uma das apostas?

Temos já uma área substancial de uva de mesa para exportação e consumo nacional e estamos em testes com uma variedade de uvas para a produção de vinho. Possivelmente, vamos caminhar para este sector de produção. Exige muitos investimentos, uma fábrica, madeira, mas vamos fazer.

Para quando poderá iniciar a produção de vinho?

Dentro de dois anos possivelmente já temos vinho da Novagrolider no mercado nacional. Estamos em fase de testes, a fazer alguns pequenos investimentos. Assim que tivermos resultados mais concretos e o estudo, vamos avançar com o investimento.

Qual é a previsão de investimento?

Mais de 10 milhões de dólares na produção de vinho.

Projecta exportar?

Em princípio, vamos produzir para o consumo interno. Se conseguirmos qualidade para exportação, melhor, vamos tentar. O desafio da Agrolider é cada vez mais exportar.

Como estão as exportações?

Este ano, queremos chegar, na exportação de banana, aos 20% da nossa produção. Estávamos em cerca de 10%.

A pandemia não impactou nas exportações?

No ano passado, fomos os únicos a aumentar substancialmente a exportação e a produção. Todos os anos, temos aumentado a produção e a exportação.

E, na produção de banana, a aposta continua a ser o Bengo?

Continuamos a apostar no Bengo, felizmente. Temos conseguido outras áreas e um dos problemas é o terreno. Estamos também a apostar na produção de banana no Bom Jesus, vamos aumentar a área porque temos também a produção de uva para o Porto Amboim e, nos terrenos onde tínhamos uva, vamos pôr banana. Se for necessário, Porto Amboim tem potencial para ser produtor de banana.

Têm tido dificuldades no acesso à terra?

O país tem muita terra livre. As entidades governamentais estão a analisar situações para transferir as pessoas que não estão a trabalhar nas imediações dos pólos e transferi-las para outros lados para que a nossa empresa possa continuar a crescer, para não ter várias unidades. É mais um custo. Tentamos sempre dar seguimento ao projecto, porque é um conjunto de máquinas e equipamentos que não têm de ser transferidos da fazenda.

Nestes locais, tem encontrado água, energia…?

Em algumas, já beneficiamos, em outras estamos à espera que chegue lá energia.

Têm investido para garantir as condições essenciais?

Temos feito investimentos para garantir que a água não falte. Temos a fazenda da Kibala, tínhamos um pequeno riacho e hoje temos grandes represas que reservam biliões de metros cúbicos que nos garantem continuidade sem quaisquer constrangimentos.

E os fertilizantes?

Importamos alguns e compramos outros no mercado nacional. Nesta altura, os fertilizantes no mercado estão caros. 

Se existissem no mercado preços competitivos, não importávamos. Não somos propriamente importadores, queremos tornar-nos exportadores. Para importar, tenho de abrir uma carta de crédito, demora 90 a 120 dias a chegar a Angola e é um investimento. Tenho de fazer o pagamento antecipado. Quando compro no mercado nacional, pago no dia ou dão-me oito, 15 ou um mês para pagar. Então, só tenho vantagens quando compro cá.

TAXAS AGRAVADAS

Além de Bengo e Kwanza-Sul, tenciona produzir noutras províncias?

Continuamos com a consolidação da empresa, temos muito para crescer. Temos espaços vastos, não estão ocupados na totalidade, possivelmente vamos fazer outros investimentos noutras províncias com outros produtos.

Que outros produtos exportam?

Já exportamos mais de duas mil toneladas de papaia por ano. Estamos também a exportar quantidade considerável de pitaia, maracujá, meloa, melão. Já chegámos a exportar jindungo e quiabo.

Qual é a meta este ano?

Entre bananas e outras frutas, este ano vamos passar as 20 mil toneladas.

Estamos a conquistar posição de vendas com a exportação. Temos já uma quota de mercado bastante considerável, principalmente em Portugal. Estamos a exportar para vários países como a África do Sul, Marrocos, França, Espanha, Itália, Rússia e estamos em negociações com a Turquia. Vamos continuar a expandir a nossa marca e o nome de Angola.

O processo de exportação já foi muito criticado por supostamente ser muito burocrático. Concorda?

Os processos são muito burocráticos, embora tenham melhorado. Deveria ser criado um guiché do exportador, onde os exportadores se dirigissem e pudessem tratar de toda a documentação, ao invés de terem de irem aos vários ministérios com processos demorados e caros. Também os portos e os terminais marítimos são burocráticos e extremamente caros. Basta ver que é uma prestação de serviço taxada em dólares ao câmbio do dia. Por outro lado, temos terminais como o recente da DP World que veio agravar as taxas, retirando os benefícios que os exportadores tinham nas gestões anteriores, facturando o dobro dos outros terminais. No caso da banana, entre Porto e Terminal, fica com cerca de 25% do valor da mercadoria, o que é um absurdo.

ISENÇÃO POUCO EFICAZ

O Governo voltou a isentar os produtos da cesta básica. Essa decisão pode ser entendida como um certificado de incapacidade dos produtores internos ou que o Governo se terá precipitado quando decidiu taxar estes produtos?

A isenção dos produtos pouco vai reduzir os preços. Estes produtos já são isentos por natureza. Esse esforço deve ser canalizado para apoio à produção interna, a fim de estimular a agricultura e a agro-indústria. O fosso entre a produção nacional e o produto importado vai ser maior. Todos os produtos importados são subsidiados, quer na produção, quer na exportação. Ao contrário, somos taxados na produção sob várias formas, o que nos leva a não ser competitivos e sem capacidade de fazer investimentos.

Face a esta situação, estamos preparados para sermos concorrentes na Zona Livre de Comércio de África?

Estamos preparados, mas as políticas de apoio à produção interna têm de ser revistas e equiparadas às desses países. Só seremos competitivos em igualdade de circunstâncias.

Recentemente, faleceu o fundador da empresa, João Macedo. Que desafios agora tem?

Tenho responsabilidades acrescidas pela perda irreparável do meu irmão. O trabalho era muito para dois e hoje está em grande parte em cima de mim. Estou a tentar adaptar-me o melhor possível, tenho de trabalhar mais. Se trabalhava 10 a 12 horas por dia, agora tenho de trabalhar 16 ou 18 horas. Tenho uma grande responsabilidade social. Tenho certeza de que consigo dar seguimento a este projecto, não há nada que seja surpresa ou desconhecido por mim. Tínhamos uma amizade e cumplicidade muito grande, não havia segredos dentro da empresa, partilhávamos tudo. Vou conseguir, com toda a certeza e à minha maneira, com muita responsabilidade. Como mais velho, sempre deixei a gestão a ele, era uma pessoa única pela sua exigência e disciplina. Não há quebra, o projecto continua até para fazer jus à sua memória.

Está em condições de o fazer?

Estou em condições de o fazer. Enquanto me sentir capacitado, vou fazer, quando entender que não consigo chamo profissionais. Não vou deixar cair empresa nenhuma, não faz parte da minha pessoa, porque o trabalho está feito na Agrolider com a gestão do meu irmão e com a minha. Eu era o co-piloto, sempre estive ao lado dele, conversávamos sobre todos os assuntos. Não há nada novo para mim, não há nenhum engenheiro que me consiga aldrabar, porque tenho conhecimentos. O projecto é bastante importante para se deixar cair, temos de ter inteligência quando sabemos que não somos capazes.

Que desejo de João Macedo pretende realizar imediatamente?

Continuar sem baixar os braços, honrar a agricultura de Angola. A única forma que tenho de honrar o meu falecido irmão é continuar com o projecto conforme vinha, trabalhar cada vez mais, mostrar que é possível fazer mais, ajudar os outros a fazer mais.

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