FRANCISCO SILVA, EMPRESÁRIO E DIRECTOR DA JEFRAN

“Agora estamos mais preocupados em perseguir do que em construir o país”

13 Oct. 2020 Grande Entrevista

O empresário acredita que há forças a instrumentalizar os clientes reclamantes e antecipa que mais de 200 funcionários podem perder o empego nos próximos dias. Francisco Silva, que diz ter construído a Jefran com o “próprio punho”, explica os contornos de um conflito que se arrasta há mais de cinco anos e já levou o Tribunal a determinar um arresto.

“Agora estamos mais preocupados em perseguir do que em construir o país”

A Jefran não entrega residência a clientes há vários anos e agora viu os imóveis arrestados pelo Tribunal de Luanda. Qual é razão desse incumprimento?

A verdade é que existiam vários contratos fraudulentos. Ao longo do tempo (caminhamos agora para cinco anos), lutamos ao máximo para entregar as habitações dos que tinham condições de receber, porque nem todos os que reclamam têm condições de as receber. Não podemos entregar uma casa a um preço muito abaixo do seu custo, porque uma casa tem um preço muito alto hoje. Então, chamamos os clientes para negociar com eles e chegarmos a um acordo para que a empresa e o cliente partilhassem o momento ruim que estamos a viver agora. No entanto, por conta de uma decisão administrativa do Inadec (Instituto Nacional de Defesa do Consumidor), a empresa não trabalhou por dois anos, assim como este arresto vem atrasar o processo. Agora temos as contas bancárias bloqueadas por ordem do Tribunal, pelo que acabámos por não fazer nada. Se o arresto levar dois, quatro ou 20 anos é o tempo que os clientes vão esperar para resolver o problema.

 

Mas o arresto só aconteceu porque a Jefran não cumpriu os prazos…

Não, muitos dos clientes que reclamam não têm condições de receber as casas, porque não pagaram, muitos deixaram de pagar. E as negociações com o Inadec não foram como esperávamos. Temos documentos, abrimos a porta ao Inadec para certificar, marcámos uma reunião e, simplesmente, não nos deu ouvidos.

 

O Inadec não apresentou uma alternativa ao encerramento?

O Inadec não deu uma contraproposta, apenas impôs. Nós demos 12 meses para resolver o problema e o Inadec disse que devíamos resolver em um mês. Era impossível, uma coisa absurda, porque uma empresa como a nossa, que esteve parada por várias vezes, precisava de tempo para se erguer.

 

Alguma vez recebeu proposta do Inadec para arquivar o processo a troco de dinheiro?

Do Inadec, como instituição, não. Mas tivemos pessoas oportunistas que se faziam passar por funcionários do Inadec e que solicitavam valores para arquivar o processo. Já chegaram a cobrar 25 milhões de kwanzas.

 

O Inadec diz que são um total de 490 clientes lesados, enquanto a empresa alega que são 103. Porquê a diferença?

Temos 103 clientes contabilizados. Existe aquele grupo de clientes com contratos viciados, que não passaram pela empresa, deram o dinheiro a funcionários. Não temos este registo, então pedimos ao Inadec que o tem que no-lo desse para podermos trabalhar e descobrir quem são os autores destes contratos.

 

Mas esses contratos que diz serem falsos têm carimbo da empresa…

Até os países do primeiro mundo têm documentos falsos. Foi um aproveitamento de alguns funcionários de má-fé. Onde há um corrupto, há um corruptor. Tanto os clientes que corrompiam como os funcionários devem ser responsabilizados.

 

Estes funcionários estão identificados?

Sim, estão identificados. Movemos uma acção criminosa contra alguns destes trabalhadores, seis no total. Muitos foram presos, mas veio a lei da amnistia de crimes financeiros e foram absolvidos.

 

Os clientes lesados alegam que a promessa de ter 200 casas prontas para entregar e mais de mil milhões de kwanzas para investir é uma forma de ludibriar as autoridades…

A este tipo de questões não podemos responder. Estamos diante de um processo civil, mostrámos por A mais B que não há crime nenhum e não é manobra. Aliás, não acho que haja vítimas porque, se há, somos todos, não estamos em ilhas diferentes. Pessoas de sã consciência sabem que o país viveu e vive dificuldades. Temos 220 clientes que não nos pagam a renda e já estão com as casas e ninguém fala sobre isso. E se nós tirarmos estas pessoas das casas? Este é o problema. Estas pessoas entraram também com um senão: pagaram 1 milhão de kwanzas de entrada e a casa custa 10 milhões. Estas pessoas têm 9 milhões? Isso é o que me espanta, há clientes que estão a ser instrumentalizados por forças ocultas que desconheço.

 

Há informações de que está a desfazer-se de outros activos em seu nome, face à pressão da justiça. Diz-se que vendeu a sua participação na Master Seguros e na Xico Bless…

Primeiro, acho que os donos da Master devem processar todos os que estão a falar sobre isso, desde jornalistas a clientes. Não tenho nada que ver com a Master. Apenas havíamos cedido o terreno onde a seguradora se instalou. No passado, tínhamos que ver com a Xico Bless. A Jefran não tem alvará de construção civil. Quem tem é a Xico Bless. A Jefran é imobiliária. São coisas para separar, incluindo a Clínica Anjo da Guarda, que também é chamada nisso. Neste momento, sou patrono, director-geral da Jefran. Tinha, realmente, acções na Xico Bless, mas eu retirei-me.

 

Há quanto tempo?

Recentemente. Não por nossa vontade, fizemos apenas o nosso trabalho para que a Jefran continuasse a seguir o seu curso. Não era possível misturar a Jefran e a construtora. Com os problemas que estamos a ter, só é possível construir graças aos parceiros. Cedi a minha quota na Xico Bless justamente para fazer com que a empresa realmente trabalhasse.

 

Mas se já não tem acções na Xico Bless, por que motivo foi arrestada?

Tem de perguntar à justiça.

 

Ou é porque os documentos da empresa o associam a ela?

Os meus advogados estão a trabalhar nisso. Há muita coisa errada.

 

E a clínica Anjo da Guarda pertence-lhe ou não?

A Clínica Anjo da Guarda foi criada na altura para a Jefran, deixou de ser da empresa faz muito tempo. Hoje temos uma parceria forte, mas não é da Jefran.

 

Como construiu a Jefran? Há rumores de que seja ‘testa de ferro’ do antigo ministro do Interior Ângelo da Viegas Tavares.

Tenho maior orgulho em dizer que fui eu que constitui a Jefran com o meu próprio punho e posso refazê-la quantas vezes quiser porque a conheço. Tenho 40 anos, é lamentável que, quando olham para a estrutura, têm de me associar sempre a alguém. Será que alguém viu algum documento, gestão ou coisa mínima que Viegas Tavares tenha feito?

 “Agora estamos mais preocupados em perseguir do que em construir o país”

Já recebeu apoio financeiro do Estado ou de alguma individualidade?

Nunca.

 

E como a construiu?

A Jefran foi constituída por um jovem ambulante. Eu prestava serviço no cemitério da Sant’Ana e Alto das Cruzes, fazia campas. Após isso, comprei um terreno no Benfica, vendi ao doutor Flávio, funcionário do BPC. Depois disso comprei outro terreno na zona do cemitério do Benfica onde construi quatro casas e fui fazendo mais casas, cheguei onde estou. Não teve nenhum tostão de alguém que possa dizer.

 

Há clientes que afirmam que o atraso se deveu ao facto de ter priorizado o negócio com o Ministério do Interior…

É mentira. O Ministério comprou as casas como qualquer cliente. Pagou bem as casas todas. Não veio ninguém a sobrepor os interesses de outro. Existem pessoas que pagaram apenas 500 mil kwanzas e dizem que vendi as casas ao Ministério do Interior. Acreditam que fiz uma casa com este valor? Há quem tenha pago 200 mil kwanzas, 1 a 2 milhões de kwanzas, acreditam que construi uma casa com estes valores? Uma nota de 100 dólares saltou de 10 mil para 50 mil kwanzas; o ferro que custava 200, hoje custa 6 mil kwanzas. A inflação afectou tanto os clientes como a empresa.

 

Porque ‘substituiu’ o Inadec pela AADIC na medição do conflito?

Nós acreditamos na justiça. O Inadec está a fazer o seu trabalho em defesa do consumidor. Achamos que tem de existir também outra entidade a zelar por aquilo que é a mediação com a empresa.

 

Com o arresto, como ficam os clientes que estavam prestes a receber casas?

Ficam prejudicados todos até aqueles que têm os seus interesses salvaguardados. É o país que perde e os funcionários todos. Repare que já tivemos 2.200 funcionários. Com estes problemas, ficamos com apenas 200 e estes poderão conhecer o desemprego nos próximos dias.

 

E a questão salarial?

O tribunal saberá como fazer, enquanto as famílias sofrem.

 

Qual é a real dívida que tem para com os clientes?

A real dívida é a que será mensurada pelo tribunal. Temos o nosso valor contabilizado, vamos aguardar o que o Tribunal vá conferir por conta de processos viciados.

 

E quanto tem contabilizado de dívida e de prejuízos?

É diferente do valor do Inadec. Temos uma dívida de mais de 90 milhões de kwanzas e o prejuízo é de mais de 58 milhões de dólares.

 

Que avaliação faz ao sector de construção?

Um sector doente em que não se produz nada. As empresas estão cada vez mais a fechar, apelamos para o emprego, mas cada vez mais fechamos as empresas.

 

E como olha para o incentivo ao empresariado?

As políticas são muito simples, queremos entender porque o Governo ainda não as tomou. Temos problemas de fundo. Agora estamos mais preocupados em perseguir do que em construir o país. Isso tem causado problemas graves na indústria. Por que razão muitas políticas que o Estado lançou não têm ainda os resultados bem visíveis? Alguma coisa está errada, devemos procurar as raízes.

 

E quais são essas raízes?

Só o facto de olhar para um empresário novo e achar que não pode provavelmente fazer muita coisa… Agora estamos a fechar uma empresa por conta de clientes que estão a reclamar. Que indústria vai abrir aqui? Não há aqui um bom clima de negócio. Um empresário atrasa numa reunião, porque parou o carro para dar gasosa ao Polícia. Ou ainda, um agente do Estado, do Inadec, numa reunião, recebe-o com arrogância, olhando para si como um criminoso. Como é que uma instituição como esta acusa, quando é tarefa do Ministério Público? E o Ministério Público fecha uma empresa quando é papel do Tribunal? Como empresário, garanto: o nosso ambiente de negócio é hostil.

 

Não acredita na mudança referida pelo Governo?

Acredito com alguma dificuldade, porque temos de ter mudança de mentalidade. O Presidente da República não conseguirá fazer sozinho. O esforço que está a empreender não combina com as ideias dos seus auxiliares. Não sabemos onde vai o país com esta onda de mediatização e perseguição. Um ministério que levaria as partes a um acordo é aquele que ameaça e bate. O sucesso não é travar ou fechar uma empresa.

 

Voltemos às casas. Se tem 200 prontas, porque não as entrega aos 103 clientes pendentes?

Muitas destas pessoas não têm condições financeiras. A empresa não vai dar casa a quem pagou 500 mil kwanzas.

 

Afinal, o que diz o contrato?

Pelos contratos que tínhamos, na altura, as pessoas tinham de entrar com 10% e deram. Depois, tinham de continuar a pagar durante 24 meses para a obtenção da casa. O valor de uns era 500 mil dólares e de outros, 600 mil. Os clientes, entretanto, já não tinham como pagar, porque o câmbio saiu de 10 para 30. Por isso, achámos por bem não dar mais casa a estes, porque um grupo que já havia recebido não pagava mais, já que perdeu o poder de compra.

 

E porque não devolve o dinheiro?

Uma parte já recebeu o dinheiro de volta. Mas a outra quer o dobro, este é o irritante entre a empresa e os clientes.

 

Pensa em desistir?

Não. Lanço, aliás, um apelo aos empresários que vivem problemas, porque estamos num país que colocou funcionários contra empregadores e clientes contra empresas, que se mantenham firmes. É um momento que vai justificar a nossa riqueza, porque amanhã saberão que não roubámos.

 

Tem outros projectos empresariais em carteira?

Temos projectos ligados à agro-indústria, mas, por conta desta situação, o ambiente de negócio não é favorável.

 

Perfil

Francisco Silva nasceu em 1978, em Malanje, e refugiou-se em Luanda, onde começa a realizar várias actividades informais até se instalar no mercado imobiliário. Hoje, considera-se estar a frequentar o “bacharelato em coragem na faculdade da dificuldade” por conta dos problemas que tem há anos com clientes.

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