CRISE LEVA CHINESES A ABANDONAR O PAÍS

Angolanos começam a controlar estações de serviço

09 Feb. 2021 (In) Formalizando

SERVIÇOS. Apesar de os chineses abandonarem Angola continuam a controlar, à distância, o ramo de prestação de serviços de automóveis. Timidamente, angolanos começam a dar os primeiros passos, mas pecam na qualidade.

 

Angolanos  começam a controlar estações de serviço

Com o agravamento da crise económica, muito por causa da pandemia da covid-19, muitos comerciantes chineses, especialmente os informais, preferiram abandonar Angola. A saída é mais visível em muitas estações de serviços espalhadas por Luanda, até então dominadas por profissionais vindos da China. Com a debandada, algumas encontram-se encerradas, enquanto outras foram entregues à gestão angolana.

É uma realidade que se pode constatar, por exemplo, na via do Calemba II, no Kilamba Kiaxi, e ao longo da Avenida Fidel Castro. Das mais de sete localizadas na via expressa, entre o desvio do Zango ao 11 de Novembro, uns formais e outros nem por isso, pelo menos quatro são geridas por funcionários angolanos que começaram como simples lavadores de viaturas. É o caso do jovem Daniel, a gerir a Gest Rim. Tem a “dura missão de manter tudo funcional” para alavancar a receita. Com apenas uma rampa de lavagem, é forçado a lavar as restantes viaturas em local inapropriado, numa autêntica demonstração de desperdício de água. Consegue captar um “bom número de clientes” na batalha de manter o negócio, assim como o emprego de dezena de funcionários.

Cenário semelhante constata-se na RM Estação de Serviço, também localizada na avenida Fidel Castro. A saída de chineses provocou uma quebra na qualidade dos serviços. O gestor e proprietário, sem se identificar, tinha projectada a abertura de mais pontos de lavagem com serviços inovadores, porém, preferiu voltar “ao seu país porque as coisas não vão bem em Angola”. Com o grosso de máquinas avariadas, dedica-se somente à lavagem exterior.

Os gestores angolanos têm enfrentado uma luta tremenda para continuar a operar, uma vez que os patrões, a partir da China, solicitam semanalmente relatórios do negócio. A falta de chuva contribui substancialmente para a queda da facturação, constituindo uma dor de cabeça. A isso acrescenta-se a abertura de outras estações de nacionais a efectuarem preços mais baratos, entre os mil e 4.500 kwanzas para lavagem exterior e 20 mil para interior, sejam viaturas ligeiras ou pesada.

Os clientes fidelizados constatam que tem havido uma redução drástica na qualidade do serviço prestado. Mas, ainda assim, escolhem continuar a frequentar os estabelecimentos por serem conhecidos pelos funcionários, deste modo afastam o risco de possíveis roubos nas viaturas. Enquanto isso, quem está habituado com o serviço de chineses procura pelos poucos no mercado. Firmino Sousa justifica a preferência pelo grau de seriedade no trabalho e a auto-responsabilização quando surgem irregularidades. “Em muitas estações de serviço de nacionais temos de estar presentes enquanto lavam as viaturas sob pena de desaparecer algum artigo valioso. Aliás, as condições também não são adequadas”, explica Firmino Sousa.

A darem os primeiros passos na gestão de algumas estações, alguns angolanos têm experiência de trabalho com expatriados ou como ex-lavadores de carros nas ruas. Surgem nos bairros da capital, operam sem o mínimo de condições, tão-pouco utilizam produtos adequados à higienização da viatura.

A lavagem de carros é tida como uma forma de sobrevivência. No entanto, há quem aposte na qualidade e, entre o leque de serviços, acrescentam bares ou lojas com acesso gratuito à internet.

Na mesma tendência, os vietnamitas entram na corrida e vão abrindo estabelecimentos com serviços diversificados. Ou seja, além de lavarem viaturas, prestam serviços de mecânica e bate-chapa. E há quem os confunda com os chineses por causa do trabalho.

Trabalhar só para não ficar em casa

Os funcionários de estabelecimentos associados a chineses protestam por causa dos baixos salários, contrastando com o preço de serviços praticados. Os lavadores de carro recebem 20 mil kwanzas mensais, quando a lavagem interior de uma viatura ligeira chega a custar 44 mil kwanzas, enquanto uma pesada chega aos 62 mil. Pelo que, consideram, “ se trabalha só para não ficar sozinho.”

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