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MAYDAY MAYDAY, A ALEGORIA DA AVIAÇÃO

22 Apr. 2020 V E Editorial

A comparação à aeronáutica é inevitável. Os estudiosos e curiosos do mundo da aviação sabem que a locomoção na atmosfera obedece a regras inegociáveis. Porque, na maioria esmagadora das vezes, os erros graves se pagam com danos irreparáveis. A aeronáutica tem, por isso, muito a ensinar aos políticos em matéria de gestão de risco. E, no actual contexto de profunda crise, há pelo menos dois ensinamentos que se destacam, especialmente para quem governa.

O primeiro é a obrigatoriedade da prudência quanto ao excesso de confiança. A história da aviação está repleta de acidentes fatais que, segundo a reconstituição dos factos, poderiam ter sido evitados, não fosse o excesso de confiança dos pilotos. Por muito dolorosa que seja, a versão aceite sobre a morte de John F. Kennedy Jr. conclui que o filho do lendário presidente norte-americano se teria desorientado no espaço, porque levantara o seu monomotor para voar em condições atmosféricas que lhe eram completamente estranhas. É um de muitos exemplos.

O segundo é o discernimento para reconhecer a inevitabilidade da desgraça e a consequente necessidade de optar, entre dois males, por aquele que potencia o salvamento do maior número de vidas. No fundo, os pilotos são treinados para aterrar perante avarias insuperáveis em pleno voo. Seja em território amigo, seja em campo inimigo. Seja na terra, seja na água. O conhecido ‘milagre de Hudson’, em Nova Iorque, salvou 155 vidas porque o piloto decidiu aterrar na água, contra a alternativa de pousar sobre os edifícios de Manhattan, na tentativa de alcançar o aeroporto.      

O que se vive hoje em Angola recomenda o empréstimo obrigatório das ‘leis’ da aeronáutica pela governação. E tudo deve começar pela revisão da ‘metáfora da esperança’ ou, se quisermos, da alegoria da aviação do Presidente. “Quando o avião está no ar, passando por momentos de turbulência, nenhum passageiro se atira contra os pilotos, nem muito menos se joga fora do avião, mas, sim, todos obedecem à tripulação acreditando que a turbulência vai passar. Assim ocorre na governação, é preciso as pessoas acreditarem em quem está na frente. A turbulência vai passar e está para breve”, assegurou o Presidente em Novembro passado. Passados cinco meses, as palavras de João Lourenço perderam o efeito, porque não há quem acredite nelas. Afinal, mais do que uma simples turbulência, o avião pegou uma avaria grave e, ao invés de insistir no voo, o piloto deve procurar um espaço para uma aterragem emergencial, ainda que na água ou em terreno inimigo, sob pena do despenhamento fatal.

Isso remete-nos outra vez para a controversa agenda de destruição de capital que se colocou na moda. Além dos sinais evidentes de perseguição e selectividade ou de vingança, nas palavras da Ceast, na maioria dos casos, o poder optou pela arrogância e imprudência. Ao ignorar, por exemplo, a necessidade da preservação e aproveitamento de recursos que muita falta fazem à economia no actual contexto.

Todavia, nem tudo está perdido. Com as principais fontes de receitas do Estado comprometidas (impostos e dívida), João Lourenço ainda vai a tempo de optar por uma aterragem de risco, propondo com urgência um verdadeiro e transparente pacto de regime que coloque os recursos conflituosos em mãos privadas ao serviço dos angolanos. O que se fez até hoje é excessivamente controverso para ser levado a sério. A manutenção de milhares de milhões ociosos e cativos em contas bancárias, por medo ou por conflito com o Estado, é contraproducente, numa situação em que o desemprego se descontrola e a fome mata. A evocação persistente do ‘período de graça’ conferido aos detentores de fortunas ilegítimas no exterior é falaciosa. Porque o Estado não criou condições transparentes e oportunas para que o processo ocorresse com a ‘facilidade’, mencionada vezes sem conta. Basta verificar que os seis meses determinados na lei para o período de graça, entre atrasos na regulamentação e atrasos na orientação aos bancos, acabaram reduzidos em apenas 30 dias.

Que não restem, pois, dúvidas. Entre a amaragem no Hudson e o pouso sobre os prédios de Manhattan, há que escolher a primeira opção. É remota, mas é a única que potencia a esperança. A alternativa é como pensar que os ‘bondosos’ 25% dos salários dos deputados do MPLA fazem metade do oceano.

 

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