ATÉ AO PRÓXIMO CASO

06 Oct. 2020 V E Editorial

A cada dia uma evidência. A subjugação da justiça ao poder político também se manifesta pela conciliação de agendas. Cada vez de forma mais descarada, mas as lições vêm de passado. José Eduardo dos Santos gostava de fazer casar viagens ao exterior com factos que produziam algum tipo de agitação internamente. João Lourenço, pelos vistos, aprendeu bem a lição e aposta tudo em superar o mestre.

No seu tempo, o casamento entre a agenda política e a da justiça é de tal intimidade que as fronteiras entre os dois poderes se desfazem sem disfarces. Entre todas as provas, que o confirmem os juízes que, pela primeira vez, se declararam paladinos do combate à corrupção.

Os propósitos deste casamento, entretanto, não se confundem. Umas vezes é para endossar narrativas. Foi assim, por exemplo, aquando da prisão de Augusto Tomás e ‘Zenu’ dos Santos. Na altura, Lourenço viajou aos Estado Unidos para dizer que, em Angola, já havia presos por corrupção. Outras vezes é para criar distracções úteis. É assim, por exemplo, com o ‘caso Dino e Kopelipa’. Na semana em que a sociedade saiu à rua para exigir o afastamento do director do gabinete do Presidente, a Procuradoria-Geral da República decidiu chamar dois dos mais poderosos generais de José Eduardo dos Santos. Manuel Hélder Vieira Dias e Leopoldino Fragoso do Nascimento foram constituídos arguidos e devem ser ouvidos amanhã, terça-feira, 6, na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP). Nada que crie espanto. Pela sua associação a vários negócios supostamente financiados com recursos públicos, mas sobretudo pela sua proximidade a José Eduardo dos Santos, Dino e Kopelipa não teriam dúvidas de que aguardavam apenas pela sua vez. Do confisco de activos à deslocação à PGR, na condição de arguidos, era uma questão de tempo. E os homens de João Lourenço, transformando-os numa tentativa de distracção, não perderiam a oportunidade de usá-los no momento certo. E a altura certa é esta em que a sociedade exige a cabeça de Edeltrudes Costa.

Contudo, há o risco de o tiro sair pela culatra. Ao que os factos indicam, a introdução de Kopelipa e Dino na agenda mediática, por muito sonantes que sejam estes dois nomes, não desviou o foco da sociedade quanto ao ‘caso Edeltrudes’. Os apelos para que João Lourenço o afaste do seu gabinete multiplicam-se de todas as formas. E as razões são perceptíveis. Apesar da responsabilidade política e ética de João Lourenço, enquanto decisor que entregou os contratos públicos a Edeltrudes Costa, exigir a renúncia do Presidente é uma atitude irrealista. A solução prática passa então pelo beneficiário dos contratos. Por conta e risco de Edeltrudes e do próprio Presidente, o chefe do gabinete de João Lourenço é agora, até prova em contrário, o teste maior à seriedade da campanha de moralização do Estado. Para dentro, mas também para a comunidade internacional para a qual, aliás, o governo de João Lourenço faz questão de dirigir especial atenção com a sua cruzada. É esta a razão de fundo que faz com que a sociedade não se distraia.

Para o exterior e para a crítica interna esclarecida, o ‘caso Edeltrudes’ coloca o combate à corrupção e à impunidade numa simples equação aritmética. Se for afastado, o Presidente credibiliza-se. E se o fizer, em nome do casamento de agendas, vai decidir antes de se deslocar ao Parlamento para abrir o novo ano legislativo. Seria mais do que oportuno. Se o mantiver, os resquícios de dúvidas desaparecem e João Lourenço cai em total descrédito. Isso, claro, até ao próximo caso.        

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