Brincar aos governos

17 Mar. 2021 V E Editorial

A instabilidade governativa é, definitivamente, um dos traços marcantes do falhanço da governação de João Lourenço. Mas, em sentido extenso, é dos exemplos terminados da incompetência do MPLA e da insustentabilidade da sua governação.

Ao longo do seu longevo mandato, José Eduardo dos Santos fez da dança de cadeiras um exercício de rotina. Com a ‘desculpa’ de um consulado de quase quatro décadas, foi ao ponto de levar à experimentação até ao cadeirão máximo do país. Pelo menos no plano da intenção. Afinal, não é segredo para ninguém que João Lourenço nunca foi a primeira opção de José Eduardo dos Santos, nas várias tentativas de saída que lhe são atribuídas. O próprio chegou a admitir este ‘exercício de experimentação’ numa entrevista à portuguesa SIC, quando admitiu, em 2015, que estavam a ser “experimentadas” várias pessoas para a sua sucessão. Mas, em José Eduardo dos Santos, houve exemplos mais práticos de instabilidade governativa que roçaram a insanidade. O caso do Banco Nacional de Angola é dos mais notáveis. Apesar de ser uma instituição da qual se espera maior estabilidade possível, face à sensibilidade das matérias sob sua alçada, entre Abril de 2009 e Setembro de 2017, estiveram no BNA quatro governadores. Qualquer coisa como um governador por cada dois anos.

Com a chegada ao poder de João Lourenço, e após os primeiros sintomas de ruptura com o homem que o fez Presidente, eram esperadas mexidas de fundo que afastassem a sombra de José Eduardo dos Santos. Ledo engano. João Lourenço não só decidiu não se ficar por aí como optou por transformar as exonerações e nomeações, por si só, num autêntico projecto de governação. Tão prioritário que, no penúltimo ano do seu mandato, há mais ‘resultados’ na dança de cadeiras do que em qualquer promessa eleitoral. Não está enganado, pois, quem antecipe o resumo dos cinco anos de João Lourenço numa autêntica jornada de estagiários. Um estágio com uma factura incalculável e que o país é e será obrigado a pagar ao longo do tempo. Afinal o que o MPLA e o seu governo nunca serão capazes de explicar é o custo da descontinuação permanente de projectos em quase toda a esfera da governação. Até porque, por muito esquizofrénico que pareça, é prática no MPLA os sucessores declararem sempre que os antecessores nunca prestam. Os discursos nunca deixam dúvidas, salvo raras excepções. E quando a roupa suja não é lavada fora, dentro, os antecessores acabam imediatamente rotulados como ‘personas non gratas’. Isto apesar deste dado tão curioso quanto caricato: por via de regra, o sucessor que bate no antecessor é sempre um antecessor que foi batido em algum lugar por algum sucessor. Maior sinal de que o MPLA está a brincar aos governos é improvável! Maior sinal de desgaste é impossível!

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