“Deveria investir-se menos em viagens ao exterior e mais no trabalho de campo e no desenvolvimento da agropecuária”
Apesar dos alegados esforços das autoridades para atrair investimento privado e diversificar a economia, o ambiente de negócios em Angola ainda apresenta “constrangimentos” para as empresas que apostam na produção nacional. Quem o diz é Gonçalo Pinto, presidente da Sociedade Agrícola Kuolola Vinawaihe, que defende também maior alinhamento entre as políticas públicas e a realidade dos produtores. Lamenta ainda a falta de valorização e incentivo à produção do mel.
O Alto Zambeze é frequentemente apontado como uma das regiões com maior potencial agrícola de Angola. Na prática, esse potencial está a ser aproveitado?
Não está a ser aproveitado na totalidade. A região do Alto Zambeze (actualmente a comuna de Caianda) deve ser das regiões que mais mel produz. Como dados de produção, posso referir que a Sociedade Agrícola Kuolola Vinawaihe produziu, na passada época apícola, 17 toneladas de mel, num modelo de parceria com comunidades locais e apicultores tradicionais, tendo vindo a instalar, paulatinamente, ano após ano, apiários com colmeias de transição e/ou a entregar colmeias de transição aos apicultores parceiros. Os compradores informais da Zâmbia, que todos os anos, entre Setembro e Novembro, atravessam a fronteira, devem ter comprado pelo menos 30 toneladas de mel nas comunidades.
Com que base faz referência a 30 toneladas?
Pelo que todos os anos assisto na estrada Caianda–Jimbi (fronteira). Faça as contas: 15 bicicletas por dia, cada uma carregando dois ou três baldes de mel. Todos os dias durante quase dois meses, cada balde com 20 quilos de mel. Até dará muito mais… São receitas que o Estado não arrecada. O IDF (Instituto de Desenvolvimento Florestal) e a AGT talvez não saibam nem controlem esta realidade. Também não está a ser aproveitado o potencial único da região. O Alto Zambeze é uma região de florestas prístinas, rodeadas de chanas únicas, com características climáticas igualmente únicas para a floração de árvores e plantas melíferas, e com uma densidade de enxames também singular. Estas características deveriam merecer estudos e conduzir à criação de uma Área Local Protegida. Quase todas as regiões do Moxico Leste têm grande potencial e tradição para a produção de mel, designadamente Cazombo, Macondo, Lóvua e Nana Candundo. Não é só diamante; o Leste do país tem um enorme potencial agrícola e, em particular, apícola.
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