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E AGORA, VOLTA A CHINA?

12 May. 2020 V E Editorial

Falemos outra vez sobre a China. Ou melhor, tratemos da relação Angola-China. Recuemos no tempo. Desde 2018 que o VALOR vem alertando para as consequências da viragem diplomática pró-Ocidente, em detrimento do eixo chino-russo, por obra da diplomacia do Governo de João Lourenço. E, na tese dos alertas, constam também argumentos com relevância histórica.

Após a desintegração do bloco socialista, Angola abraçou o multilateralismo de forma convicta e o ponto mais alto passou a ser a efectivação das relações diplomáticas com os Estados Unidos da América, dimensionadas com a abertura da representação diplomática desse país em Luanda, na primeira metade da década de 1990. A aproximação aos norte-americanos não significou, entretanto, o afastamento expresso dos velhos aliados. Cuba manteve-se com presença significativa em vários domínios da cooperação bilateral. E a Rússia, ainda que tenha visto a sua influência reduzida, jamais ouviu de Angola discursos oficiais de ataques ou verborreias de ingratidão. No fundo, Angola introduzia os ideários actualizados dos Não Alinhados, mostrando-se disponível para explorar possibilidades de cooperação pacíficas, respeitosas e mutuamente vantajosas com todos. As excepções à regra passaram a ser os momentos específicos de tensão por razões políticas, como foi o caso do afastamento temporário da França, face ao ‘Angolagate’.

A filosofia da diplomacia estava, portanto, retraçada. Genericamente, os interesses angolanos não deveriam subjugar-se aos de quaisquer potências, na luta destas pela hegemonia global. Com o surgimento da paz e sem exigir como moeda de troca o alinhamento com a sua agenda nos fóruns transnacionais, como a ONU, a China cedeu os recursos críticos que lançaram a reconstrução. Como consequência natural, ganhou um espaço de influência sem paralelo no país. Assegurou o petróleo e executou as principais infra-estruturas de sectores variados. Eram as moedas de troca incontornáveis, já que Angola não só não tinha outras garantias para viabilizar os empréstimos, como se encontrava numa situação excessivamente frágil para fazer exigências. Ainda assim, não teve de negociar cedência na soberania.

A chegada de João Lourenço ao poder, em 2017, marca, entretanto, o início da relativização da importância chinesa. O Presidente pÔs acento tónico na aproximação aos Estados Unidos e à Europa e fez questão de criticar publicamente o modelo da relação com a China, assente na colaterização da dívida pelo petróleo. Alegrados, os norte-americanos aproveitaram a deixa e enviaram a Luanda o seu secretário de Estado adjunto, no ano passado, para declarar que Angola tinha de fazer uma opção clara: ou com os Estados Unidos, ou com a China e a Rússia. Ou seja, para negociar a soberania a troco de apoio financeiro, técnico e político. Angola não reagiu, mas, para Beijing, não restavam dúvidas de que já não tinha o mesmo espaço em Luanda, como fizeram questão de sublinhar vários diplomatas chineses em distintas declarações ao VALOR.

Hoje, João Lourenço corre, entretanto, o risco de corrigir o discurso em relação à China. Não só porque os americanos não abriram os cordões à bolsa mesmo antes da pandemia, mas também porque, no actual contexto, o gigante asiático tem uma palavra importante a dizer na nossa luta pela sobrevivência. É o nosso principal credor e é o único que estará capaz de emprestar dinheiros a quem quer que seja, no pós-covid-19. Que se dê razão a quem a tenha.

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