As lições de Merkel

07 Apr. 2021 V E Editorial

“Um erro tem de ser chamado um erro. Mais importante, tem de ser corrigido e, se possível, a tempo.” Esta sentença talhada não é de um líder africano, muito menos de um governante angolano. É de Angela Merkel, a chanceler alemã. A toda poderosa ‘dama de ferro’ dirigiu-se ao seu país para pedir desculpa ao povo, recuando de uma decisão que estabelecia restrições mais apertadas no período pascal, para conter a pandemia.

Merkel cedeu claramente à contestação popular, incluindo de sectores na oposição. É normalíssimo. As lideranças esclarecidas e que governam no interesse do povo são boas a dar exemplos de humildade que chocam o diabo. Nelson Mandela, com a sua filosofia do perdão, é o maior modelo celebrado em África e aplaudido no mundo. José Eduardo dos Santos teria tido um reconhecimento universal próximo de Mandela, se tivesse largado o poder pouco depois da guerra. Ou se não tivesse ultrapassado a meta de 2008. Não fez nem uma coisa, nem outra. Deixou-se esticar ao ponto de abdicar numa altura em que a corrupção atingira o apogeu e o país experimentava uma crise financeira e cambial amarga. As consequências são as que se conhecem hoje. Pouco mais de três anos após a sua saída, a sua imagem é enlameada nos limites do ódio pelos companheiros que o rodearam na sua jornada do poder. E o Dia da Paz é marcado com um discurso de Estado que não lhe reconhece os méritos de forma plena.

O que se agravou hoje no país, entre todos os cancros que o acompanham há décadas, é também isso: a crise de liderança. Ontem testemunhámos uma liderança que apostou no enriquecimento de uma elite em nome de uma alegada ‘soberania do capital’. Hoje vemos esta liderança empenhada numa suposta destruição criativa, enquanto sofistica os métodos de delapidação do erário. No passado, vimos uma liderança que se perdeu na ‘legitimidade’ das suas conquistas. No presente, assistimos à outra que patrocina o revisionismo de uma história recentíssima e acredita na celebração da Paz e da unidade, sob o signo da exclusão.

Sendo uma a continuação da outra, não se pode convocar o diabo para fazer a escolha. Mas uma coisa não deixa de ser certa: a crise de liderança nunca foi tão grave na Angola recente. Para o povo, os ensinamentos de Merkel são, entretanto, fresquíssimos. O país precisa de transitar para uma liderança esclarecida, capaz de perceber, sem fingimentos nem agendas inconfessas, que um erro é um erro. E, mais do que apontá-lo como um erro, que seja verdadeiramente capaz de corrigi-lo. Aí começará o sonho do progresso.

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