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FALTAM PROVAS?

21 Jan. 2020 V E Editorial

No conjunto do processo de combate às práticas que lesaram o Estado, Isa- bel dos Santos é uma árvore e não a floresta. É isso o que não se pode perder de vista na ressaca do ‘tsunami’ mediá- tico, provocado pela divulgação dos negócios da filha do ex-Presidente da República. Para todos os efeitos, Isabel dos Santos já se encontrava a contas com a justiça angolana e é precisamente por essa razão – nas palavras da própria – que há pouco mais de dois anos não põe os pés em Angola. O processo, aliás, movido pela Procura- doria-geral da República tem, como objecto, precisamente a sua passa- gem pela Sonangol, a mesma que faz manchete nos jornais e televisões de todo o mundo, com denúncias de alegados esquemas de enrique- cimento ilícito. A divulgação dos dados pelo consórcio de jornalis- tas, neste sentido específico, pesa mais pelo seu alcance mediático do que propriamente pelo aporte de novos dados à investigação da justiça angolana. É preciso acres- cer ainda que, adicionado ao pro- cesso-crime na PGR, a empresária viu praticamente a totalidade do seu império em Angola arres- tado, numa acção cível movida pelo Estado e que já põe em causa metade do que se estima ser o con- junto da sua fortuna. Postas as coisas nestes termos e com certo grau de razoabilidade, com ou sem ‘Luanda Leaks’, Isabel dos Santos já tinha contas mais do que sufi- cientes para acertar com o Estado. Dito isto, a questão central do que se passa em Angola não pode ser escamoteada. O cerco judicial, político e mediático contra Isabel dos Santos não pode aportar o risco de levar ao esquecimento dos milhares de fortunas cons- truídas dentro da grande família MPLA, à custa do saque ao erário. Os crimes de que Isabel dos Santos é acusada, tendo-os cometido ou não – porque apenas a justiça pode exarar sentenças eram (ou ainda são) práticas correntes dentro da grande família. Os processos não podem parar, por isso, numa meia dúzia criterio- samente seleccionada. A corrupção não poderia ter começado na Sonangol em 2016. Ao longo de décadas, a petrolífera foi a princi- pal bomba injectora dos milhões que pairam nas contas, em espécie e activos, de muitos dos camaradas que assistem de camarote ao cerco dos alvos de momento. Que venham então os exemplos de que o combate é indiscriminadamente contra todos. Ou faltam provas?