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CARLOS DUARTE, CEO DA ENSA

“Hoje já é muito questionável se ainda justifica uma resseguradora nacional”

SEGUROS. Responsável máximo da Ensa, fala da importaância da empresa focar-se apenas no seu core-bussiness e ter relação com o mercado de resseguro de Londres.

“Hoje já é muito questionável se ainda justifica uma resseguradora nacional”

Por ocasião da conferência de balanço, afirmou ser intenção da Ensa reestruturar a situação cambial em relação ao Resseguro. Por onde passaria esta reestruturação, considerando a situação económica do país e o não arranque da resseguradora nacional? 

O conselho de administração a que pertenço foi nomeado em Novembro. Com ele, deu-se início à definição da Estratégia 2020-2022, às medidas de saneamento da empresa, fundamentais para purgar de excessos e permitir uma valorização máxima enquanto activo disponível para privatização. Demos início à preparação do processo, nos termos do Decreto Presidencial n.º 250/19. Tudo passa pela focalização no negócio segurador, nas actividades e processos core. Daí que algumas actividades deixarão de ser feitas pela seguradora, tais como os serviços médicos, peritagens e outros. Definimos e implementámos uma nova estrutura organizacional, que reduziu de 26 para 15 unidades de estrutura, e agora mais alinhadas com a missão da empresa. Aprofundaram-se as relações comerciais através da criação de uma direcção destinada à distribuição do negócio mediado, bem como à formação de mediadores exclusivos, e outros vectores de mudança que configuram uma profunda transformação na organização, visando torná-la mais flexível e ajustada ao dinamismo da economia. Sabemos que a situação do país é um reflexo do que se passa ao nível mundial, uma economia que, após uma estagnação, começa lentamente a retomar com a agravante de os desafios cambiais fragilizarem, ainda mais, economicamente, todos os agentes empresariais do nosso mercado. A depreciação da moeda conduziu a uma inevitável perda de valor dos activos, deixando assim a necessidade de uma resseguradora nacional secundarizada. Em termos agregados, a exposição do sector segurador ao resseguro representa qualquer coisa que não deverá ultrapassar 150 milhões de dólares por ano (incluindo o seguro petroquímico), que é um valor muitíssimo abaixo de há uns anos. Nos dias de hoje, e para este nível de resseguro, já é muito questionável se ainda justifica uma resseguradora nacional, e obviamente o tema da AngoRe não conheceu mais tracção.

Qual é a dívida real da Ensa relativa ao resseguro e qual é a taxa no leque da dívida aos fornecedores?

A 31 de Dezembro de 2019, tínhamos um saldo de aproximadamente 14 milhões de dólares. As contas de terceiros, nas quais se inclui o resseguro e fornecedores, foram objecto de algumas insuficiências na auditoria, mais uma razão para promovermos um saneamento às contas de 2019 que continuará no corrente exercício. Em alguns casos, temos saldos materiais com alguma antiguidade que importa serem actualizados. É um trabalho meticuloso que consome muitos recursos à empresa. Começámos com os nossos principais fornecedores, sobretudo com as principais clínicas e estamos muito avançados na reconciliação dos saldos e respectiva regularização, e introduzindo melhorias no processo de modo a eliminarmos os atrasos endémicos.

O que esperam ganhar ou melhorar com a reposição do resseguro para Londres?

Como é sabido, o resseguro é o contrato pelo qual uma seguradora, mediante um determinado prémio, (res)segura, em parte ou na totalidade, os riscos que assumiu, junto de outra empresa de seguros, a resseguradora. A reposição do resseguro para Londres tem como objectivo uma afirmação de qualidade num mercado que é histórico nesta actividade. Temos o maior interesse em estarmos presentes numa praça de seguros/resseguros que transmite confiança, estabilidade e, sobretudo, garantias. Londres é o maior mercado de seguro/resseguro, por isso consideramos natural esta credibilidade e confiança que nos trará. Uma seguradora que quer liderar o mercado angolano e quer ter um papel relevante em toda a África Subsariana não pode deixar de ter uma relação com Londres, uma das maiores praças financeiras mundiais.

Também falou da intenção ou possibilidade de transformar o imobiliário num negócio autónomo. Já há modelo para essa transformação? É aconselhável nesta altura que iniciou o processo de privatização?   

Na estratégia delineada para o período 2020-2022, as decisões estruturantes são efectivamente a privatização, a recuperação de prémios em dívida, o património imobiliário e a arte. Tive a oportunidade de referir que as questões do património e da arte podem ser rentabilizadas, mas que não temos nem know-how residente, nem sequer é a nossa missão. O nosso know-how, o nosso core business, são os seguros. Não somos gestores de imobiliário nem gestores de arte (apesar de termos uma colecção invejável). Desejo um foco, no essencial, no que nos distingue, no que sabemos fazer bem e que melhoramos todos os dias: seguros! Queremos também dar destaque ao património imobiliário e ter um parqueamento que permita uma melhor reabilitação, gestão e rentabilização, usando, para o efeito, sociedades ou fundos de investimento, sociedades-veículo ou meios afins sujeitos a regulador. Temos uma carteira de imobiliário considerável, com um potencial gerador de mais-valias que não queremos, de todo, desperdiçar. A arte, sendo obviamente relevante porque entendemos que as empresas devem contribuir para a cultura de um país, deve ser gerida numa perspectiva profissional e não por nós, que nos preocupamos sempre em criar um conjunto de obras de relevo, mas que não detemos know-how para gerir o acervo artístico que já temos e que deve estar ao dispor de Angola e do seu povo.