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Efeitos da crise da Covid-19

Incertezas nos pequenos negócios

08 Apr. 2020 (In) Formalizando

EMPREENDEDORISMO. Neusa de Brito, Lurdes Manuel Silvestre e Matias Daniel são alguns dos empreendedores que partilhavam, ao VALOR, ansiedades comuns sobre o pós-pandemia. Incerteza é a palavra de ordem.

Incertezas nos pequenos negócios

Por um lado, as medidas já colocadas em prática: despedimentos, redução de pessoal e outros cortes na despesa, por outro, os receios do que vem pela frente: falências, reinvenção dos negócios e queda nas receitas. A pandemia do novo coronavírus pôs os empreendedores angolanos a navegarem num mar de incertezas, agravando as dificuldades comuns que se arrastam desde a crise da segunda metade de 2014.  

“Estamos feitos ao bife, anuncia Neusa de Brito, responsável da loja online Brineuma, que se vê impossibilitada de importar produtos da China. “É difícil visualizar o regresso ao negócio”, antecipa a empreendedora, mantendo entretanto a esperança de se tornar numa fornecedora de referência de produtos infantis, apesar de já ter mandado para casa três trabalhadores. “Só vencerá quem tiver melhor jogo de cintura”, insiste.

Lurdes Manuel Silvestre é outra empreendedora que teve de dispensar os funcionários antes da entrada em vigor do Estado de Emergência, decretado pelo Presidente da República. “Por causa da redução de clientes e pelo bem-estar de todos”, justifica, antecipando prejuízos acima de um milhão de kwanzas, decorrentes da paralisação temporária do seu negócio no ramo da beleza e decoração. “Podemos ter falta de clientes porque muitos ainda estarão com desconfiança de frequentar espaços públicos mas, se prorrogarem o Estado de Emergência, as coisas complicam mais para nós”, receia.

Por sua vez, Matias Daniel, CEO da Altamente Digital, explica que teme não apenas perdas financeiras com o encerramento temporário do seu empreendimento, mas também a hipótese de entrar “em declínio com os parceiros e patrocinadores”, o que pode conduzir à falência. “A falência é eminente para todas as empresas, principalmente as pequenas, mas isto vai efectivar-se apenas para aquelas que não adoptarem estratégias suficientemente boas”, analisa, defendendo políticas do Governo para a salvaguarda das pequenas e médias empresas.

Com as perspectivas traçadas para este ano a serem derrubadas pela Covid-19, Matias Daniel, ainda assim, espera implementar “serviços inovadores”, fruto da parceria com a congénere sul-africana English Plus Academy Of Cape Town.

PEQUENOS RESISTENTES

Há empreendedores que acreditam, no entanto, que a pandemia em nada afectará as metas para o presente ano. É o caso do Centro Empreender Transforma (CET), onde existe o sistema coworking. Segundo a CEO Inene dos Santos, a empresa facturou 12 milhões de kwanzas em 2019 e espera facturar, no exercício corrente, 36 milhões de kwanzas.

Desde o início do ano, o centro já embolsou de receitas 3,5 milhões de kwanzas, o que leva Irene dos Santos a descartar problemas no pagamento de salários e na implementação dos projectos de investimentos em startups, agência digital e formação online, esta última a efectivar depois do período de emergência.

José Lisboa, da empresa Company Anastacia, prossegue as actividades em casa pelo facto de a empresa actuar no segmento online. O empreendedor admite a redução de clientes, contabilizando já algumas perdas financeiras, mas que não afectam “significativamente” a empresa.

NEGOCIAR É A SOLUÇÃO

O economista Inocêncio das Neves acredita que muitas pequenas e médias empresas não conseguirão sobreviver depois da crise da Covid-19,  sobretudo as ligadas ao sector da restauração, hotelaria e turismo, cujo ciclo de geração de receitas é determinado por clientes individuais que procuram pelos seus serviços numa base diária. Isso  sem pôr de parte os custos “com a renda dos imóveis, prestações de liquidação de créditos junto dos bancos e de outros fornecedores de bens e serviços”.

Apontando a “arte de negociação como a escapatória”, Inocêncio das Neves refere que as empresas têm algumas opções, sobretudo, com os colaboradores que participam directamente no processo de produção ou prestação de serviços. 

Quanto aos dos serviços administrativos, estes podem ter uma suspensão temporária dos contratos de trabalho, sendo uma decisão “arriscada do ponto de vista de gestão de capital humano”, mas também em termos legais “se não forem acautelados todos os pressupostos jurídico-administrativos”.

 

 

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