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IMPACTO DO ENCERRAMENTO DAS FRONTEIRAS

Maior abastecedor dos mercados informais sem stock

01 Sep. 2020 (In) Formalizando

COMÉRCIO. Dificuldade no acesso às divisas e encerramento das fronteiras deixaram abastecedores do Kikolo desfalcados. Há dezenas de postos de trabalho em risco.

 

Maior abastecedor dos mercados informais sem stock

Os comerciantes grossistas do mercado do Kikolo, o maior abastecedor dos mercados informais de produtos diversos, com destaque para os produtos de beleza, estão sem stock para responder à procura, face ao encerramento das fronteiras e consequentes restrições na importação devido à pandemia.

Ana Lourenço, comerciante de cabelos sintéticos, compra habitualmente o produto na Índia. Impedida de viajar desde Março, tem o stock completamente esgotado, o que a obrigou a operar somente no retalho com a “pouca quantidade que restou”. Mas esta mudança levou a outra: a subida dos preços. Por exemplo, uma peça de cabelo indiano que custava anteriormente 25 mil kwanzas agora está 35 mil. Para revestir a cabeça toda, são necessárias quatro a cinco peças, o que obriga a gastos de entre 140 e 175 mil kwanzas, sendo possíveis descontos de acordo com o volume da compra.

Apesar desses ajustes, as diferenças face aos demais mercados são notáveis. Fora do Kikolo, cada peça de uma tissagem indiana pode custar entre 50 e 75 mil kwanzas.

A comerciante pensa agora em arriscar optar pela China visto que é dos poucos países cujos produtos entram em Angola pela via marítima, embora mais demorado e com “custos elevadíssimos”, sem contar com a luta pelas divisas. “Nesta fase, os que têm o stock um pouco reforçado são as colegas que fazem China, porque têm navios a atracarem no país. O grande problema é em quem confiar para comprar e mandar os produtos. Tudo fica ainda mais complicado com o preço do dólar”, reclama, mostrando-se revoltada com os preços praticados pelas agências como DHL, que cobra mais de 60 dólares por quilo, contra os 40 anteriores à pandemia. 

Há cinco meses sem conseguir comprar novos produtos, Joana Tchilombo é outra comerciante que teme nos próximos dias juntar-se às muitas colegas em casa. Apesar de ter a opção pela China, considerada de alto risco, explica que o preço do dólar, a rondar os 85 mil kwanzas no mercado paralelo, afasta a possibilidade de entrar na “aventura” sob pena de falir. Se antes da pandemia aplicava de 5 a 6 mil dólares nas compras, sem contar os 1 milhão e 200 mil kwanzas de passagem, encomendar sem conhecer alguém do outro lado do mundo fica ainda mais caro com as agências de frete e as altas taxas alfandegárias.

Ao contrário das duas comerciantes, José Nsimba, a actuar na venda de cosméticos e perfumes, olha com bastante preocupação o cenário. Já começou a vender os produtos dos seis contentores de reserva e, caso termine antes do fim da primeira semana de Setembro, os postos de trabalho dos 38 funcionários estarão em causa. Como calcula, a quantidade que tem disponível não terminou pelo facto de Luanda estar sob cerca sanitária, o que impede comerciantes de outros pontos do país efectuarem compras.

Ansioso por receber na primeira semana de Setembro alguns produtos retidos na China que, de alguma forma, poderão minimizar o défice, explica estar mais preocupado com os seis contentores de produtos diversos retidos no Brasil e na Índia.

Na eventualidade de o espaço aéreo continuar encerrado, num curto espaço de tempo se observará “falta gritante” de produtos diversos, como se nota já em mercados informais e lojas que dependem em grande parte do Kikolo.

 

DIVISAS, A LUTA DE SEMPRE

Na falta de divisas, a opção dos comerciantes tem sido as fronteiras. Um negócio lucrativo para muitos cidadãos de países que partilham a fronteira com Angola, particularmente congoleses democratas. Vários angolanos deslocam-se à fronteira no sentido de trocar o kwanza pelo dólar a preços considerados mais atractivos que os praticados no mercado paralelo angolano, diante da burocracia das instituições bancárias. Por sua vez, os congoleses adquirem com o kwanza produtos de primeira necessidade em Angola.

Uma opção “altamente arriscada”, como admite Ana Lourenço. Ainda assim, diz não ter escolha à semelhança de outras colegas que recorrem ao Congo ou à Namíbia. Com o encerramento das fronteiras, não sabe o que fazer para conseguir divisas já que o seu cartão visa está descarregado. O último carregamento efectuado data do ano passado e levou mais de quatro meses para ter o saldo “muito reduzido” para quem faz grandes compras no estrangeiro.

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