MULHERES DOMINAM MERCADO

Negócio de bolachas descartadas sustenta famílias em Luanda

VENDAS. Preço de cada dose varia entre os 50 e os 200 kwanzas e é dominado quase exclusivamente por mulheres que, diariamente, percorrem longas distâncias a pé com bacias de plástico à cabeça, enfrentando um desgaste físico extremo para garantir o sustento das famílias.

Negócio de bolachas descartadas sustenta famílias em Luanda
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A história do negócio que hoje sustenta centenas de famílias em Luanda começa muito antes de as bacias de plástico subirem à cabeça das vendedoras ambulantes. O ponto de partida está no sector industrial, mais especificamente nas grandes fábricas localizadas em pontos estratégicos como a Zona Económica Especial (ZEE) e o município do Cazenga. É nestas linhas de montagem que toneladas de bolachas são rejeitadas e descartadas para o consumo humano tradicional devido a rigorosos critérios de controlo de qualidade. O descarte ocorre por razões estritamente operacionais. São bolachas que saem danificadas, deformadas ou que se partem durante o processo de fabrico. De acordo com relatos de supervisores fabris, há também situações em que o produto entra em contacto directo com o chão, o que invalida imediatamente a sua colocação nos canais de distribuição oficiais. Para as empresas, estas "sobras" perdem o valor comercial estipulado, sendo oficialmente destinadas à destruição ou, em alguns casos, vendidas a granel, em quantidades superiores a 50 quilos, a clientes de fazendas que alegam utilizar o produto moído para ração animal. Contudo, estes restos tornaram-se a matéria-prima de uma desesperada economia informal. Estas bolachas partidas encontram o seu caminho até às mãos de mulheres empreendedoras que enfrentam o desemprego formal. Nas paragens de táxis colectivos, à porta de escolas e nas principais artérias da cidade, o produto ganha uma nova vida, comercializado em pequenas doses que oscilam entre os 50 e os 200 kwanzas, sendo a medida de 200 kwanzas a campeã de vendas.

 

O RETALHO DA SOBREVIVÊNCIA

Este negócio de rua é dominado quase exclusivamente por mulheres, na sua maioria jovens com idades compreendidas entre os 26 e os 35 anos. As vendedoras percorrem quilómetros a pé sob o sol abrasador, equilibrando bacias pesadas à cabeça. Para viabilizar a margem de lucro, a estratégia assenta no embalamento doméstico, onde as bolachas são manualmente colocadas em sacos plásticos comuns. Madalena João, vendedora ambulante há cinco anos, exemplifica esta rotina ao caminhar a pé desde o Cazenga até ao seu ponto de venda habitual, uma opção que lhe permite economizar o dinheiro dos transportes e captar clientes ao longo do percurso. “Por semana compro duas a três caixas de bolacha. Normalmente, a meia caixa custa seis mil kwanzas e comercializo a dose entre os 50 e os 200 kwanzas. Tem uma boa margem de lucro. No final da semana consigo facturar cerca de 50 mil kwanzas, dependendo da semana”, afirma Madalena. Com um rendimento semanal que garante o sustento do lar, Madalena enfrenta as despesas com uma gestão rigorosa. “Vivo apenas com a minha filha. O pai dela não ajuda nas despesas da casa, então o nosso sustento vem da venda de bolachas. Pago 46 mil kwanzas de renda por cada seis meses e, para conseguir conciliar todas as despesas, participo numa ‘kixiquila’ diária de dois mil kwanzas”, desabafa. Por depender do fluxo de stock das fábricas, quando o produto escasseia, Madalena recorre à venda alternativa de refrigerantes e água.

Celina Manuel, que soma uma década nesta actividade, expandiu o negócio para lá da sua própria subsistência. Tendo começado por ajudar a sua mãe a embalar o produto em casa, Celina recorda como conseguiu crescer autonomamente. “Quem começou com este negócio foi a minha mãe e, mais tarde, passei a ajudá-la com as vendas. Com o pouco que conseguia, juntei dinheiro para comprar o primeiro saco de bolachas e, a partir daí, as vendas multiplicaram-se. A minha cunhada também entrou no negócio e, por semana, encomendamos 15 sacos. A situação estava apertada para nós porque pago a mensalidade escolar da minha filha e, como o meu irmão não trabalha, tínhamos de sustentar a família dele. Por isso, integrámo-la no negócio.”

Ana da Costa, com 12 anos de experiência no ramo, sustenta a família e financia os estudos do filho com o rendimento das bolachas. Com um investimento inicial histórico de apenas 4.000 kwanzas, que gerou um retorno imediato de seis mil, Ana factura actualmente cerca de 40 mil kwanzas por semana. “O custo operacional não influencia a rentabilidade, porque compro apenas as embalagens, que custam 200 kwanzas a resma”, explica, adiantando que prefere focar as suas vendas no período da tarde, junto às paragens, para captar os estudantes que saem das aulas com fome. Num segmento ligeiramente diferente, Bibiana Afonso, há oito anos no sector, recusa-se a trabalhar com o produto danificado. “Nunca vendi bolacha partida. As minhas colegas vendem, mas eu não gosto. Economizo tempo e, mesmo comprando ao preço normal de fábrica, consigo ter um bom rendimento de 60 mil kwanzas por semana, escoando quatro caixas. Os meus clientes são exigentes, por isso primo pela qualidade”, esclarece.

 

JUSTIFICAÇÃO INDUSTRIAL E A PERSPECTIVA DA SAÚDE PÚBLICA

Do lado industrial, o discurso assume contornos formais e de salvaguarda legal. Manuel António (nome fictício), supervisor fabril na ZEE, reitera que a política da empresa visa a protecção da saúde do consumidor, justificando que as vendas a granel são feitas sob a premissa de que o produto se destina à alimentação animal. Em contrapartida, outro funcionário de uma unidade no Cazenga assume uma postura puramente comercial. “Não temos nenhum critério de exclusão para quem queira comprar o nosso produto, desde que a pessoa tenha o valor necessário para pagar”, indicando que as compradoras justificam a aquisição para o lanche doméstico das crianças devido ao preço apelativo.

No plano sanitário, o especialista em saúde pública Jeremias Agostinho desmistifica alguns alarmismos, clarificando que a fragmentação da bolacha não constitui, por si só, um perigo. “Não vejo um problema grave na venda de bolachas partidas ou acondicionadas em sacos plásticos. O que temos realmente de analisar são as condições em que as mesmas são embaladas e comercializadas”, adverte. Conforme esclarece se as vendedoras não higienizarem as mãos ou não utilizarem luvas no processo caseiro, há o risco de contaminação bacteriana. “Além disso, o armazenamento prolongado em sacos plásticos comuns e de baixa qualidade pode fazer com que a bolacha perca rapidamente a sua textura crocante, ganhe bolores ou absorva odores”, explica. O especialista recomenda que, para mitigar estes riscos, se opte por materiais plásticos certificados e classificados para uso alimentar.