CNE
HEITOR DE CARVALHO, ECONOMISTA E DIRECTOR DO CINVESTEC

"No fim da próxima legislatura não teremos petróleo para sustentar uma parte significativa do nosso consumo"

26 Jul. 2022 Grande Entrevista

Lança críticas aos cálculos do Instituto Nacional de Estatística sobre o PIB, inflação e produção nacional, e alerta o Executivo de que não se pode fazer 'festa' com a subida do preço do petróleo porque o país pode ficar sem reservas depois do mandato do próximo Governo. Heitor de Carvalho, economista e director do Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada de Angola (Cinvestec), defende a fixação de uma taxa de câmbio estável com base na produção e produtividade nacional e não no mercado internacional.

"No fim da próxima legislatura não teremos petróleo para sustentar uma parte significativa do nosso consumo"

Que avaliação faz às políticas económicas, de uma forma geral, desta legislatura que termina?

A medida mais tradicional que nos permite medir a eficácia das políticas económicas é o Produto Interno Bruto, mas não é assim tão simples em países como o nosso. Infelizmente, temos uma medida do PIB, que é dada pelo INE, que não tem em conta, além de outros problemas, a variação do valor do preço do petróleo. Ou seja, para o INE o que conta são as medidas em quantidade. Ora, porque o PIB  mede  essencialmente os rendimentos reais e não a produção, tem que ter em conta a variação do preço do petróleo. O INE, por influência das organizações internacionais, nomeadamente o FMI, calcula em medidas de volume, isto é, a variação das quantidades. Esta forma de medir distorce aquilo que são os rendimentos disponíveis para a economia nacional funcionar. Prefiro medir os rendimentos pelo valor nominal deflacionado. Dito de outra forma, a quantidade de produtos finais de que podemos dispor é muito maior quando o preço do petróleo está alto. É isso que é importante medir, não as quantidades de produtos que produzimos, mas as de produtos finais a que podemos ter acesso com aquilo que produzimos: são coisas diferentes.

É essencialmente um problema de cálculos?

Aí temos outro problema. Quando medimos em dólares ou kwanzas deflacionados temos de saber qual é a inflação? E aqui temos mais um grande problema nos números do INE. Temos hoje os preços da generalidade dos produtos a baixar muito (e tem que ser assim porque a taxa de câmbio baixou muito), mas o INE diz que os preços estão a subir 22% relativamente ao ano passado. Se não temos preço nenhum, que esteja 22% acima do ano passado e temos muitos produtos abaixo do ano passado, como estão a dizer que a média dos preços, relativamente ao ano passado, é de 22%? Temos aqui um problema de cálculo da inflação que nos dificulta o cálculo do PIB real. Um cálculo correcto da inflação é fundamental para calcular os agregados económicos. O certo é que qualquer que seja a medida, o PIB baixa ou estagna. Em medidas encadeadas de volume, do INE, o PIB em 2021 corresponde apenas a 93%, do que era em 2017. Medindo pelo PIB nominal deflacionado, há uma ligeira subida de 1%. Mas esta subida é resultante das exportações. O consumo interno dos nossos produtos representa apenas 79% do valor de 2017! As exportações é que sobem relativamente a 2017. Esta ideia de que houve uma descida muito grande nos preços do petróleo e, por isso, é que a economia funcionou mal, não é bem assim, porque as exportações, em 2018, são quase 60% superiores a 2017, em 2019 são 30% superiores a 2017, e em 2021 são novamente 60% superiores a 2017. Só em 2020 é que as exportações são 25% inferiores ao que eram em 2017. O preço do petróleo baixou muito, mas relativamente a 2014, não a 2017, no início da legislatura. Resumindo, de acordo com o INE, o PIB total baixou 7% na legislatura; de acordo com a nossa perspectiva, o PIB manteve-se, mas à custa de uma subida de 60% das exportações e uma descida de quase 20% da produção consumida internamente.

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