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O EMBARAÇO

15 Sep. 2020 V E Editorial

O stress revelado pelo poder angolano na gestão do ‘caso 900 milhões’ tem explicações mais profundas do que tudo o que está à vista. A mais complexa sugere que João Lourenço não percebeu que, ao recusar um pacto de regime menos punitivo e mais produtivo, retirou também o sono aos protegidos de hoje do regime. Deixou-os intranquilos para sempre por uma infinidade de razões, mas há duas que se destacam em ordem do tempo.

Em primeiro lugar, quem está protegido nos dias que correm pode, a contragosto do poder, sentar-se no banco dos réus, por força da tensão popular e da pressão mediática. Porque, por muito arrogante que se mantenha, o poder tem de ter percebido que todos os anos tem, ao seu pé, uma população mais esclarecida e mais reivindicativa. E, tal como se viu desta vez, mal se tornou público que 900 milhões de dólares estavam congelados na Suíça, a massiva indignação popular expressou-se pelos receios de que tamanhos valores tenham sido desviados do erário. Mas também pelos sinais substantivos de que o poder teria tentado ocultar o caso, através de qualquer arranjo político. Quer pela trapalhada que foi a reacção da Procuradoria-Geral da República, com chuvas de comunicados e aparentes mentiras e desmentidos à mistura. Quer pela convocação oportunista do Conselho da República para João Lourenço dizer que as autoridades estão a agir com “discrição” no combate à impunidade. Coisa que, como ‘todas as mães sabem’, nunca ocorreu em relação aos casos mediáticos.

Não é, aliás, por exagero que a publicação suíça que revelou o congelamento dos 900 milhões tenha titulado um dos seus textos sobre o caso que o poder em Angola estava “embaraçado”. Com o procedimento criminal aberto em Luanda, São Vicente pode ser, definitivamente, o primeiro caso de um potencial protegido a embaraçar os cálculos da justiça selectiva. Até porque, como insinuam especulações de muito boa gente, caso se confirme verdadeiramente o ‘sacrifício’ do genro de Agostinho Neto, o mais provável é que ele tenha outros graúdos para apontar o dedo.

Resta mencionar a segunda razão que deixa os protegidos de hoje intranquilos no tempo. Se há uma certeza é a de que o futuro é necessariamente incerto para todos.  Muitos dos poderosos do tempo de José Eduardo dos Santos e o próprio ex-Presidente são testemunhas disso. Isto ensina que quem o poder decidir proteger, a todo o custo hoje, como são os vários casos de conhecimento público, poderá sempre ter de ajustar contas, quando as circunstâncias políticas mudarem a seu desfavor. Ou, eventualmente, quando houver uma justiça com meios e independência incontestáveis para condenar quem comprovadamente tenha cometido crimes e mandar para casa em paz quem equivocadamente tenha sido acusado. Sem preconceitos.

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