XU-NING, EMPRESÁRIO E DONO DO SHOPPING GUDE

“O grande problema em Angola é a segurança, as pessoas preocupam-se com o bandido, mas também com os polícias”

Manifesta-se agastado com as multas “por tudo e por nada” e com a Polícia que “prende à toa”, sem provas. Recorda que, a determinada altura, foi interpelado pela concorrência para aumentar o preço do produto de uma das 18 fábricas do seu grupo. E defende não ser justo afirmar que o empresário chinês paga mal e maltrata os trabalhadores. Aos políticos, o recado é único: que não façam confusão e que abram as portas do país aos investidores.

“O grande problema em Angola é a segurança, as pessoas preocupam-se com o bandido, mas também com os polícias”

 Está em Angola há 22 anos e tem investimento em diversas áreas. Pode fazer uma retrospectiva desde a sua chegada?

Cheguei em 1999, ainda em tempo de guerra e comecei com o pequeno comércio. Hoje, o nosso grupo, Guang International Group, tem 18 fábricas com vários armazéns e o Shopping Gude. Temos um total de dois mil trabalhadores. Queremos fazer mais investimentos na indústria porque penso que este país precisa de fábricas. Porque reduz a exportação de divisas, garante emprego e aumenta os impostos para o Governo. Também estamos no turismo, trabalhamos com a linha Luanda/ Pequim.

 O que produzem essencialmente as 18 fábricas?

Temos fábrica de poste de energia, bloco, chapa, colchão, madeira, mobília, sofá, esponja, caixa de papelão, bateria de carros. Produzimos também ovo e cogumelos. 

E a aquisição de matéria-prima para todas essas unidades é feita localmente?

A bateria está quase 100% angolana. No ano passado, importávamos o chumbo, mas agora compramos baterias usadas. Se você colocar uma bateria no chão, prejudica uma extensão de 100 metros quadrados. Se plantar alguma coisa, não vai crescer. Esta fábrica é boa também para o ambiente. Angola tem muita bateria usada.

E como funciona a recolha dessas baterias?

Nós não vamos recolher, compramos à porta da fábrica. Pagamos 4 a 5 mil kwanzas.

 E em relação às outras fábricas?

Nós compramos, por exemplo, a madeira para fazer mobília, mas o transporte da madeira está muito caro. Há a lei que proíbe a circulação da madeira e ainda o problema das estradas. Não vivemos estas dificuldades directamente porque a exploração e produção da madeira não é o nosso negócio, apenas compramos, mas os nossos fornecedores apresentam muitas queixas sobre a proibição da circulação, das multas, e toda esta situação afecta o nosso trabalho, mas vamos conseguindo manter-nos. Queremos continuar a investir em novas fábricas.

 Além das questões ligadas à aquisição da matéria-prima, o que mais eventualmente afecta o funcionamento das vossas fábricas?

Há uma outra questão: estamos muito preocupados com os serviços de fiscalização. Passam multa e prendem por tudo e por nada. Quando um empresário falha, é necessário ser orientado. Na América, quando você falha uma primeira vez, tem uma atenuante, mas fica avisado: se volta a falhar, você é penalizado severamente. Angola poderia seguir o mesmo caminho. Se for um caso de crime, em que a falha do empresário provoca danos às pessoas, sim, deve ser penalizado, mas não é o caso das falhas mínimas. No São Paulo, por exemplo, a energia não é muito boa, mas a AGT precisa de computador. E se não tiver energia e várias pessoas estão a esperar, o que é que o empresário faz? Não vende? Mas se vender e a factura não estiver no sistema, apanha multa. É complicado.

Está a dizer que têm tido muitos problemas com os serviços de fiscalização?

Sou presidente da associação das empresas chinesas em Angola. Várias empresas enfrentam este problema com polícias e fiscais. Aqui há um problema, mas que não acontece só com os chineses. A polícia prende as pessoas à toa. Pensam que você tem problema, primeiro põem na cadeia e só depois vão confirmar. Mas, até confirmarem, a pessoa já sofreu na cadeia. Há muitos chineses que, na China, nunca foram na cadeia, mas aqui estão presos. Se não há provas, não podem prender. Isso tem de mudar.

 E o que é que a associação tem feito, tem falado com as instituições?

Sim, falamos, mas o problema continua. Acompanhou, por exemplo, o caso da Cidade da China. O patrão foi para a cadeia, a 25 de Dezembro. Saiu num jornal que, na Cidade da China, há uma fábrica de dinheiro falso, mas este jornalista não foi à Cidade da China para ver se existe mesmo esta fábrica. A informação passou, todo o mundo passou a falar que o chinês está a cometer muitos crimes, mas, depois de tudo, ninguém fala mais sobre o assunto.

 E como está o processo?

Chegou-se à conclusão que ele não cometeu nenhum crime, não há qualquer problema, ele já saiu da cadeia, ficou lá um mês. E agora ninguém vem falar que afinal ele não cometeu crime. Se você for empresário, vai fazer investimento neste país?

 Ele continua em Angola?

Ele não pode sair, diz que o dinheiro dele está cá, a vida dele está cá, investiu muito, mas ele pode influenciar um familiar ou um amigo para não vir investir cá. 

 Existem mais casos semelhantes?

Temos um hospital chinês e, há 15 dias, a Polícia Económica esteve lá e quis levar o chefe do hospital. Ele não quis ir porque sabia que, se fosse, não sairia. Os empresários chineses têm medo da sexta-feira, há muitas operações, as pessoas são detidas e acabam por passar lá o fim-de-semana.

 Mas a forma de evitar estas situações não seria estes empresários trabalham em conformidade com as leis?

Nem todos os chineses têm a mesma educação ou formação. Há pessoas que estão cá e não conhecem as leis, não falam português, têm apenas em mente que Angola é um bom mercado para fazer negócio. É normal que a polícia faça o seu trabalho, mas, como o país precisa de investidores, pode apostar-se na sensibilização, na educação. Por exemplo, dá um período para o empresário em falta corrigir as falhas, não é só prender.

E qual é o trabalho que a associação tem feito para reduzir as falhas por parte dos empresários chineses?

Nós falamos com todos os empresários para respeitarem as leis de Angola, a cultura. Qualquer problema, nós também ajudamos.

 Se investe em Angola há mais de 20 anos e diz que vai continuar é porque considera existir um bom ambiente de negócio?

Já melhorou muito. Por exemplo, no tempo da Anip, era mais caro investir em Angola. Agora é Aipex e já mudaram algumas coisas, já ajudam na obtenção dos vistos. O grande problema em Angola é a segurança. As pessoas preocupam-se com o bandido, mas também com os polícias.

 Os empresários preocupam-se com os polícias, é isso?

Temos este problema porque, quando chegam, querem gasosa. Temos muitos problemas.

 Quais são as grandes diferenças da Angola que encontrou quando chegou e Angola de hoje?

Há muita diferença. Quando cheguei, por exemplo, não havia a via expressa. Hoje há bandidos, mas antes havia mais assaltos com uso de arma de fogo, AKA. A nível económico, também há uma diferença. Eu fazia comércio e vendia em cash. Quando fosse depositar no banco, tinha de pagar gasosa. Senão pagasse, fechavam o banco, porque o armazém fechava às 15 horas e o banco também fechava às 15 horas. E pagava pelo medo de voltar com o dinheiro para casa. Agora, já não existe esta situação, há melhores condições para os empresários. As estradas estão melhores, há energia, água. Melhorou muito. Mesmo na relação com a Polícia, já foi pior. Antes, quando solicitava agentes da polícia, diziam sempre que não havia carro. Hoje, já não ouve muito barulho do gerador como antes. Angola ainda estará entre os melhores países de África.

 Mas falta muito, não acha?

Falta muito, mas temos de trabalhar.

 Quantas empresas chinesas estão em Angola?

Não há um número exacto, mas são entre mil e duas mil. Há empresas grandes, empresas públicas como CCTE, caminho-de-ferro, construção… Depois, temos ainda muitas empresas pequenas que alugam armazéns para fazer comércio.

 Já estiveram em Angola mais de 200 mil chineses…

Já tivemos mais de 300 mil chineses em Angola, agora não chegam 20 mil.

Também saíram muitos empresários?

Poucos. Outros não conseguiram regressar por causa da pandemia.  

 E há novos investidores com interesse em Angola?

Muitos conhecem Angola, é minha responsabilidade. Faço parte de uma associação na China e, quando o governo está a ajudar empresários chineses para investirem no exterior e perguntam-me sobre Angola, sempre garanto que é bom. O povo angolano é muito bom. Tem um ar fresco, tem água, peixe. 

Também pensa em investir na Agricultura?

Não. Não conheço, vivo na cidade. Conheço apenas a indústria e o comércio, mas mostro caminho para quem quer investir nessas áreas.

 Desde que chegou, nunca pensou em deixar Angola?

No meu caso é difícil. A minha vida está cá, este terreno onde falamos é meu, comprei-o. As fábricas são minhas. Gosto de Angola.

 Disse que pensa em abrir novas fábricas, quais seriam as áreas?

Fábrica de pneu. Quando cheguei, a fábrica da Mabor estava a exportar pneu. Penso também em investir num hospital. Temos bons hospitais, como o Girassol, mas para o povo não existem bons hospitais. As pessoas estão a morrer à toa. Tenho vários amigos que morreram com pequenas doenças. Tenho um filho, que não é meu filho biológico, pai foi motorista, morreu e ele ficou comigo. Estava doente no hospital, estavam numa cama três pessoas. Você entra com uma doença e sai com outra, não há boas condições. Angola precisa de ter bons hospitais. Há muita coisa por fazer. A antiga fábrica de cigarro, FTU, está fechada.

 Quanto já investiu em Angola?

Cerca de 2 mil milhões de dólares.

É muito dinheiro…

Compra de terreno, construção, máquinas, muita coisa…

 Alguma das fábricas não está a dar o resultado esperado?

Sim, a fábrica de postes de energia. Quando começámos, vendia cada poste a 400 dólares, enquanto outras fábricas estavam a vender a 1.700 dólares. Um empresário veio ter connosco a dizer que estávamos a estragar o negócio deles. Respondi que, a vender 400 dólares, tínhamos lucros. Porque é que venderíamos então a 1.700? Nós vendíamos muito bem. Mas agora saiu uma lei que proíbe o tipo de postes que fabricamos, então fechámos a fábrica porque não temos clientes.

 E os trabalhadores?

Passámos para as outras fábricas, apostámos essencialmente em trabalhadores angolanos. O chinês fica mais caro, você tem de tratar de bilhetes, arranjar casa, comida, o salário também é mais alto.

 Todas as outras fábricas trabalham normalmente?

Todas estão a trabalhar.

 Já exportam alguns produtos?

Sim, para o Congo. Mobília, sofá e bateria.

 E como tem sido o processo de exportação?

Há alguns problemas, mas possíveis de resolver. No Congo, não há problemas de dólares, é possível transferir.

 A mobília que fazem pode ser comparável às que muitos angolanos importam da China?

Não é igual. Primeiro porque os nossos trabalhadores não foram à escola, aprenderam connosco, é preciso tempo. Aqui também o salário é mais baixo. O trabalhador chinês custa mais caro. A qualidade não é igual, mas o material é melhor que a mobília da China. Aqui é 100% madeira, boa madeira.

O empresário chines é acusado de explorar o trabalhador angolano, que paga muito mal...

O que é pagar mal? É pagar salário baixo? A pessoa pode procurar uma empresa que paga melhor. O principal problema não pode ser o de pagar pouco, mas sim a pessoa estar empregada. Várias pessoas estão a passar fome, precisam de emprego. Quando as pessoas fazem este discurso, não sabem de nada, querem sujar o nome da China. Tenho certeza que muitas empresas que pagam bem, quando chega o dia de pagar o salário, não pagam. Nós não. Nem que eu tiver de vender a minha casa na China para pagar os salários, eu vendo. Esta é a cultura do chinês. O que é ser patrão? Porque é que alguém te chama patrão? Respeito. Ele trabalha e você paga-lhe. Se paga pouco ou muito, depende de cada pessoa. Por exemplo, você pode considerar pouco o que você ganha, mas este seu salário para a pessoa que trabalha no campo certamente será muito.

 Nunca tiveram funcionários que saíram para trabalhar em outras empresas?

Dificilmente. Grande parte das pessoas saiu por roubo. De iniciativa própria não saem. Tivemos alguns casos, por exemplo, da fábrica de colchão em que as pessoas, depois de aprenderem, foram recrutadas por outras fábricas que aumentaram um pouco os salários. Tenho pessoas que trabalham comigo há 20 anos, chamam-me pai. Em qualquer país existem os bons patrões, os malandros e bandidos. Por isso, não podem generalizar, dizer que todos os empresários chineses são maus. Em Angola, há gatunos, mas não posso dizer o angolano é gatuno.Não, não.

 Como olha para futuro de Angola?

O mais importante é que não haja confusão, os políticos não podem fazer confusão, devem abrir as portas de Angola, criar boas condições para os investidores estrangeiros porque Angola tem tudo, só faltam as pessoas para trabalhar. É muito importante apostar-se na educação. Na China, há um ditado que diz que “os pais devem apertar o cinto, comer pouco, para o filho estudar”. Quando o filho estuda, saberá como trabalhar.  “O grande problema em Angola é a segurança, as pessoas preocupam-se com o bandido, mas também com os polícias”

 Perfil

De 49 anos, Xi Ning é licenciado em Economia e trabalhou durante anos na indústria cinematográfica chinesa. Está em Angola desde 1999, iniciando a sua actividade empresarial no ramo do comércio. Gindungo, como também é conhecido, é presidente da associação geral de chineses residentes em Angola e entende que a classe jornalística “pode desempenhar um papel importante” para acabar com a incompreensão que ainda existe à volta da comunidade chinesa em Angola.  

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