GOVERNOS PREOCUPADOS

O oligopólio tecnológico

04 Nov. 2020 Valor Económico Gestão

CONCORRÊNCIA. As quatro cavaleiras do apocalipse tecnológico instalaram-se e tornaram-se experts a afugentar a concorrência. Os governos querem regulação dos mercados tecnológicos, mas estão ainda décadas atrás do novo mundo produzido por estes gigantes trilionários.

 

O oligopólio tecnológico

Google, Amazon, Apple e Facebook compõem o quarteto das gigantes tecnológicas que exercem um poder oligopolista sobre e mercado de serviços tecnológicos e que usam o seu poderio para afugentar concorrentes.

A Google é dona do sistema operativo Android, que, com o IOS da Apple, controla o mercado do sistema operativo móvel – 74% da Google, 25% Apple. A Google é líder absoluta em motores de busca online com 92%, partilha de vídeo com o YouTube e navegação com mapas online através do Maps, a navegação online é em 66% Google. A Amazon lidera o comércio online com mais de metade a circular através da sua plataforma e controla o mercado de assistentes digitais para casa com 70% do mercado para além de ocupar um dos três lugares cimeiros no que toca a publicidade online, pódio que partilha com a Google e com o Facebook que domina absoluto as redes sociais depois da aquisição do Whatsapp e do Instagram. Combinadas com a Microsoft, a quinta companhia de tecnologias cuja hegemonia no mercado do software de computadores e de jogos, as cinco gigantes estão avaliadas em 3.3 triliões de USD. Uma mudança que dita o futuro e que dista cada vez mais de um passado dominado pelo mercado petrolífero com as Big Five Shell, BP, Exxon Mobil, Gazprom e PetroChina que lideraram a primeira década deste século. Uma mudança que emerge, sobretudo, das tendências de globalização e conectividade, da informatização, da era das finanças tecnológicas, e da falta de regulamentação capaz de acompanhar estes desenvolvimentos atempadamente.

No ano passado a Comissão Europeia multou a Google em 1.7 mil milhões de dólares por violação de leis de mercado e este ano a Spotify entrou com outra queixa contra a Apple por desincentivar os seus usuários a usar a plataforma. No entanto, a Google lucrou 34 mil milhões de USD só com publicidade online no ano passado. A Apple que ultrapassou a Saudi Aramco para se tornar a mais valiosa companhia do mundo é acusada também de especulação de preços nas suas ‘Apple stores’ e recebe milhares de milhões de dólares da Google para a manter como motor de busca primário. Mas há mais problemas associados ao domínio das ‘Big Five’. O Facebook com mais de dois mil milhões de usuários é acusado de violar as leis de privacidade, sendo que a venda de dados e a desinformação espalhada nas redes são apontadas como instrumentais em vitórias em eleições como a do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e a do presidente americano, Donald Trump. A Amazon é o maior mercado online e enfrenta acusações de copiar as ideias de outras companhias e de as levar à falência, enquanto a Google através do seu motor de busca promove os seus próprios produtos enquanto relega os concorrentes para páginas onde a maioria dos usuários da internet já não procuram.

O desafio das autoridades reguladoras a nível mundial é o de aplicar regulamentos de promoção de concorrência e o de aplicar taxas à actividade transfronteiriça dos gigantes tecnológicos. Tarefas dificultadas pela ausência de legislação e pela ausência de convergência internacional sobre qual a legislação a aplicar de modo a que não possa ser contornada com uma simples mudança de operações para outro país com regulamentação mais relaxada.

As sugestões passam pela criação de impostos à publicidade online, pela criação de uma autoridade específica para lidar com as questões que se levantam destas posições oligopolistas e do impedimento à partilha de informação colhida com outros operadores.

No final do mês passado o Departamento de Justiça americano entrou com uma acção contra a Google e a sua companhia mãe Alphabet acusando-a de ser prejudicial a concorrentes e consumidores. A acção judicial, que define a Google como monopolista, está a ser vista como um primeiro passo para controlar e diminuir o domínio e a capacidade de moldar mercados, comunicação e até opinião pública das ‘quatro cavaleiras do apocalipse’.

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