PHILIPPE FREDERIC, ADMINISTRADOR DELEGADO DO GRUPO CASTEL

“O produto importado deveria ter uma taxa mais agravada, por ser luxo e não necessidade”

Responsável por 50% da quota de mercado das bebidas nacionais, o grupo Castel reclama, ainda assim, a existência de maiores incentivos, nomeadamente a nível da taxa aduaneira, defendendo que esta deveria ser mais agravada para os produtos importados. O administrador delegado do grupo, Philippe Frederic, revela, em entrevista ao VALOR, o ‘segredo’ como o principal ‘player’da ‘guerra das cervejas’, em Angola, uma aposta que, segundo diz, passa pela aposta na produção da matéria prima localmente, visando a poupança das divisas.

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Que avaliação faz do mercado das bebidas em Angola, em termos gerais?

O país tem 40 empresas de bebidas, entre cerveja, água e refrigerantes. As quantidades produzidas já respondem às necessidades do mercado, que estão estimadas em cerca de três biliões (mil milhões) de litros. Nos últimos anos, houve grandes investimentos na indústria de bebidas. O sector cresce perto de 4% ao ano e é responsável por mais de 12 mil postos de trabalho directos. Mas ainda temos interferências de importadores que representam 20% da quota do mercado.

A indústria de bebida é a que mais cresce no conjunto da economia?

Exactamente. A indústria das bebidas é a que mais cresce, seguida da indústria cimenteira, salvo erro. Há empresas que fizeram investimentos fortes. É o caso do nosso grupo e da Refriango. Angola não precisa de importar cerveja, água nem refrigerantes. Mas, ainda assim, importa. Acho normal não fechar as fronteiras, mas o produto importado deveria ter uma taxa aduaneira mais agravada, porque é luxo e não necessidade.

Ou seja, considera que o mercado ainda consome muita bebida estrangeira…

Felizmente reduziu bastante o nível das importações, mas não consigo quantificar em que percentagem. De qualquer forma, hoje Angola não precisa de importar qualquer tipo de bebidas. O país dispõe de 12 fábricas de cervejas. Há outras em construção. A capacidade de produção já ultrapassa o consumo nacional. A nível dos refrigerantes (sumos e gasosas), não precisamos de importar. O sector das águas é dos que mais cresce, mas, infelizmente, ainda vemos águas importadas no mercado. A pauta aduaneira deveria proteger mais a produção nacional. É notável a redução das importações das bebidas, mas é, sobretudo, devido à escassez de divisas e não de medidas aduaneiras.

E a concorrência entre produtores locais?

Não pensamos nela. Temos feito a nossa parte, apresentando produtos de qualidade e com preços atractivos. Para dar um exemplo, baixamos os nossos produtos, cerveja e refrigerantes, em 10% para não perder a quota de mercado. Neste momento qual é a quota de mercado que o grupo Castel detém no mercado? Actualmente, boa parte dos produtos é feita pelo grupo Castel e as importações representam apenas 20%. Portanto, a quota de mercado do grupo Castel rondará entre os 45 e 50%, do que é produzido localmente. Contudo, o mais importante é atender o nosso consumidor com satisfação e sentimos esta adesão, que estimamos dominar entre os 45%.

O grupo Castel tem exportado parte dos seus produtos para Portugal. Nessa altura, como está esse processo?

Exportava muito pouco para Portugal, cerca de quatro contentores por mês. E, devido a algumas taxas muito altas, que penalizam as exportações dos nossos produtos, tivemos de reduzir. Estamos a discutir com o Governo para retirar as barreiras às exportações. Entendemos que, tal como os outros países, deveriam criar-se incentivos às exportações.

Em quanto reduziram as exportações para Portugal?

Os portugueses gostam de consumir a Cuca. Gostaríamos de exportar muito mais para trazer divisas, mas isso só seria possível com alguns incentivos. Por isso, reduzimos as nossas exportações em cerca de 50%. Ou seja, de quatro para dois contentores por mês.

Fora de Portugal, há outros destinos dos vossos produtos?

Os nossos produtos são vendidos aos países vizinhos, sobretudo aos dois Congos, mas não de forma directa. São os nossos clientes grossistas que os fazem lá chegar. Da informação de que dispomos, os nossos produtos são bem aceites lá, sobretudo no formato em lata. Mas os Congos não constituem o nosso foco de mercado de momento. Até porque, só para dar um exemplo, o Congo Democrático tem mais de 10 cervejeiras.

Quantos produtos actualmente o grupo tem no mercado nacional?

Entre cervejas e refrigerantes, temos 100 produtos, em latas e garrafas, entre retornáveis e descartáveis. Importa referir também que, das 12 cervejeiras que operam no mercado, o grupo Castel é detentor de nove. Nos últimos três meses, lançámos a Dopel em lata. Abrimos, há três semanas, a linha de produção da Eka, em Bom Jesus, Luanda, produto que, tradicionalmente, era feito no Dondo, Kwanza-Norte.

E qual foi o investimento nos novos produtos?

Não foi muito, porque estamos a utilizar as fábricas e as linhas existentes. Fizemos uma campanha publicitária que tivemos de pagar. São campanhas que custam centenas de milhares de kwanzas. Mas não gastámos muito, porque utilizámos as capacidades existentes.

Como o grupo tem gerido a aquisição das embalagens, face à crise de divisas?

Desde o início, o grupo optou pela redução das importações. Desta forma, as divisas deixam de sair. Temos a Vidrul que nos fornece as garrafas. Deixámos de importar garrafas há dois anos. A Angolata não é do grupo, mas temos com ela um contrato e somos o principal cliente desta empresa. É claro que estamos a pagar mais caro na compra das latas de diferentes formatos. Agora estamos a atacar o assunto das matérias-primas, como referi com o projecto de produção de milho.

Essa experiência na área agrícola está a corresponder às expectativas?

Já está lançado o projecto agrícola no terreno da SEDEPAC, em Capanda, Malanje. Estamos a utilizar a área para a plantação de milho necessário à produção do gritsde para produzir a cerveja, que prevemos deixar de importar dentro de dois anos. É um investimento que ronda entre os 35 e 40 milhões de dólares.

O grupo Castel já compra o açúcar localmente?

Sim, temos um contrato de fornecimento de açúcar com a Biocom, em 100%, para as cervejas. Gastamos 1.000 toneladas por mês e outras toneladas para as gasosas.

Os preços facilitam?

Não posso apresentar dados exactos, mas fica mais barato importar. Entretanto, comprar na Biocom não precisa de divisas. Esta é a vantagem. A estratégia é poupar divisas.

Quantos trabalhadores o grupo Castel emprega actualmente?

Temos 5.800 empregos directos, mas há outros empregos indirectos, os criados pelos nossos clientes grossistas e retalhistas. São muitos empregos já criados se olharmos para toda uma cadeia.

O grupo pensa em investir também no segmento das águas?

Temos algumas ideias que não posso revelar, por uma questão de estratégia de mercado. É mais fácil fazer água do que cerveja. Há muitas fábricas, no mercado, e estamos a pensar seriamente sobre se entramos ou não neste segmento.

Que novos investimentos o grupo espera realizar ainda este ano?

Vamos apostar na qualidade e na divulgação dos nossos produtos, essa é a prioridade. De resto, devo dizer que, apesar do período de crise, estamos a lançar novos produtos, como já referi anteriormente, o que demonstra a força do grupo, embora com muitas dificuldades, sendo a principal delas, o acesso às divisas para a compra de equipamentos para as fábricas. O acesso às divisas contínua difícil, apesar das conversações com os ministérios da Economia e Indústria. Optamos por utilizar, cada vez mais, as cartas de crédito, mas estamos a viver uma gestão difícil.

Enquanto francês, que visão tem sobre Angola?

É um país que tem futuro. Um país rico. Não falo apenas do petróleo, pois, para mim, a riqueza está no homem angolano e na água. O rio Kwanza é uma grande riqueza que deve ser protegida, porque o petróleo pode acabar um dia, mas a água ainda demora muito. Angola precisa de muita água para desenvolver a agricultura e diversificar a sua economia.

PERFIL

Philippe Frederic, de 55 anos de idade, dos quais 30 a trabalhar em Angola, é formado em gestão e finanças. Entrou no país para trabalhar no ramo dos petróleos, onde trabalhou durante 23 anos, chegando a exercer o cargo de director geral da Petromar. É administrador delegado do grupo Castel, em Angola, há oito anos.

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