Os ‘espertalhões’ do M…
Durante muito tempo, o guião parecia perfeito. O protagonista, o Presidente João Lourenço, subiu aos palcos internacionais com um discurso beem afiado.
Durante muito tempo, o guião parecia perfeito. O protagonista, o Presidente João Lourenço, subiu aos palcos internacionais com um discurso beem afiado. O vilão da história tinha nome, apelido e um título informal carinhosamente atribuído pelo próprio Chefe de Estado: a "espertalhona". A tese era simples e cativou as massas: a filha do antigo Presidente tinha assaltado os cofres do Estado, carregado sacos cheios de dinheiro do erário e usado esse mesmo capital para comprar a prestigiada empresa portuguesa Efacec. Era a narrativa perfeita do combate à corrupção. Os bajús, outrora cúmplices zelosos do consulado anterior, aplaudiram de pé. Mas eis que o roteiro sofre um pequeno e inesperado golpe. Na sua entrevista à Rádio Essencial, Isabel dos Santos surgiu com o sorriso irónico de quem acabou de ver o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Pouco tempo antes, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu dar um valente nó cego na retórica de Luanda. Num acórdão histórico, a justiça portuguesa deitou por terra as acusações centrais de fraude, abuso de direito e ocultação de património no caso Efacec. Traduzindo do ‘juridiquês’ para o português corrente, o tribunal declarou que não há qualquer prova de que tenham sido usados fundos públicos angolanos para comprar a empresa. Afinal, o negócio foi feito com o clássico e legalíssimo financiamento bancário privado e capitais próprios. João Lourenço tanto insistiu no termo "espertalhona" que a profecia se auto-realizou, mas não da forma que ele pretendia. Pelos vistos, a engenharia financeira foi tão bem montada através da banca privada que até os juízes europeus carimbaram a legalidade da operação. Como fica agora a diplomacia do "combate à corrupção" além-fronteiras? A ver vamos…
Mas a mana Belita não se limitou a saborear a vitória jurídica. Aproveitou para disparar em todas as direcções, declarando-se "decepcionada" com a governação e criticando os impostos sufocantes sobre uma economia frágil. De acusada número um, passou a comentadora económica e política e, inclusive, ameaçou fazer campanha contra o actual e provável futuro líder do MPLA.
Só que o verdadeiro espetáculo não se fica pela rádio. Enquanto a primogénita de JES dita regras a partir do estrangeiro, no quintal da Ingombota o clima ferve. Dois pretensos candidatos à liderança do MPLA puseram as garras de fora e decidiram testar os nervos do "camarada número um". António Venâncio e José Carlos de Almeida entraram esta semana com pedidos de impugnação da candidatura de João Lourenço, por alegadas irregularidades. A maka é que o próprio MPLA sequer reconhece estes pré-candidatos, ou seja, não lhes dá a mínima. António Venâncio, que já vai ao bis, continua a ser visto como… bem poupemos palavras, simplesmente continua a não ser visto. E o que falar de José Carlos de Almeida, que mais parece nem ser reconhecido como militante do MPLA? O Bureau Político simplesmente finge a sua inexistência. As forças da máquina estão a ser zelosamente reservadas para o verdadeiro combate, aquele que envolve o "general 4x4", cuja sombra parece assustar muito mais a liderança do que as petições de engenheiros e juristas. Mas que força terão estes pedidos de impugnação? Se conhecemos a liturgia do "M", a resposta é curta. Vai a comissão preparatória do nono congresso sequer se dar ao trabalho de abrir as missivas?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 12 de Junho de 2026




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