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Thomasz Dowbor, empresário e político

“Precisamos de medidas extraordinárias imediatas”

Defende a alteração urgente das políticas macroeconómicas e alerta para a possibilidade de haver convulsões sociais, justificando que as “pessoas não aguentam passar fome”. Empresário e dirigente local do MPLA, Thomasz Dowbor não tem dúvidas de que os privados não funcionam sem o apoio da banca. Por isso, propõe uma redução dos juros, avisando que os bancos têm de apoiar a economia real.

“Precisamos de medidas extraordinárias imediatas”

O que motivou o Grupo Boa Vida a realizar o fórum de apoio à reconversão da economia angolana?

Foi realizado por iniciativa da AIA, demos o suporte, como grupo privado empresarial preocupado com o país. O principal objectivo foi reunir contributos, ideias e apoios necessários para dar uma contribuição às políticas macroeconómicas.

E como é que resume a situação macroeconómica?

Segundo os economistas que se debruçaram no fórum, como Carlos Lopes (que foi secretário-executivo dos assuntos económicos para África) e Ladislau Dowbor (que foi um dos chefes da equipa económica do governo de Lula da Silva), a política de austeridade não vai dar frutos esperados. O foco do fórum era saber como melhorar a qualidade de vida da população e quais são as ideias macroeconómicas que podem contribuir para a melhoria da vida dos 30 milhões de angolanos. Há cinco simples critérios como o preço da alimentação, que tem de baixar; o salário, que tem de ser mais alto; o transporte, que tem de ser mais barato e disponível; o hospital, que tem de ter serviços gratuitos e a delinquência, que tem de baixar. Isto é que o povo entende como qualidade de vida.

Qual é a avaliação que faz destes indicadores?

O nosso papel não é avaliar. O objectivo do fórum e dos economistas é contribuir, dar ideias adicionais para que o Governo possa perceber como sendo um contributo do sector privado. Os critérios de qualidade de vida vão melhorar se tivermos o crescimento do PIB e este crescimento acontece se tivermos investimento privado e público. O nosso contributo é no sentido de adequar-se as políticas que deram certo noutros países, nomeadamente no Brasil, onde o governo de Lula decidiu criar políticas que transferem dinheiro para a população mais baixa, porque dinheiro na mão dos mais pobres se transforma em consumo imediato. O consumo da classe mais baixa é simples, mas gera imediatamente produção e assim se criam postos de trabalho, pessoas cada vez mais bem pagas e o ciclo fecha, a economia começa a funcionar.

E como se pode inverter o quadro em que as pessoas estão cada vez mais sem poder de compra?

Quando não temos dinheiro na base, não há consumo e não tem produção. As empresas fecham. A proposta dos economistas é inserir este dinheiro na base e deram o exemplo do Brasil. A ‘bolsa família’, por mais que tenha sido famosa e tenha dado certo, consumiu apenas 0,5% do PIB, um dinheiro muito pequeno que em contrapartida deu grandes benefícios e movimentou todo o ciclo da economia.

O que impede o investimento privado?

Somos todos empresários, temos grandes ideias, mas o empreendedorismo não funciona se não tiver mecanismos de financiamento. Precisamos da banca. Quero construir um condomínio de 100 casas, por mais ‘know-how’ que tenha, tenho limitações por falta do suporte da banca. A banca fechou porque todo o dinheiro foi transferido, sob o formato de aplicações de obrigações de tesouro para o banco central, em que os juros são de 18 a 22%, que é um investimento muito mais atractivo do que na economia real. Mas temos de perceber que estas altas taxas cortam a atractividade do investimento na economia real que se traduz no crescimento do PIB.

Mas o Governo precisava encontrar mecanismos para financiar o Estado.

Entendemos que são necessidades do tesouro para financiar operações do Estado, mas esse formato, a que o nosso Executivo chama de secagem do mercado, não só retirou o dinheiro da banca privada, impossibilitando o apoio ao empresariado nacional, como também fez com que o peso da manutenção da dívida dentro do OGE fosse muito grande. No OGE, mais de 50% da receita é para manutenção da dívida e metade dessa dívida é interna que é extremamente bem remunerada, um formato de altos juros que beneficia a banca, que investe nestes títulos com o dinheiro do povo. Estes juros altos pesam tanto que consomem todo o dinheiro que poderia ser investido na economia real, na construção de escolas, hospitais e estradas, investimentos que criariam empregos.

O apoio a este fórum pode ser entendido como um apelo do Grupo Boa Vida perante determinada dificuldade?

Evidentemente. É um grande apelo para sensibilizar que o sector privado deve ser posto no centro da economia, mas não vamos fazê-lo sozinhos. Precisamos dessa parceria público-privada que hoje tem de se traduzir no apoio da banca. Mas isso só vai acontecer se os juros estiverem razoavelmente baixos, 8 a 10%. O fórum é um apelo à Presidência da República para criar condições novas que possam efectivamente apoiar o empreendedorismo.

O BNA já deliberou medidas para facilitar e tornar parte do crédito mais barato. Não é suficiente?

Percebemos essas iniciativas parciais que surgem, como a criação do PAC, com a obrigação do crédito para a economia dentro das reservas estacionadas dentro do BNA, mas estamos numa situação extraordinária. Se metade do dinheiro da receita fiscal do OGE vai para o banco, é uma situação extraordinária e exige medidas extraordinárias. São louváveis estas iniciativas, mas são parciais e pequenas, não salvam a economia. A Presidência tem de criar condições macroeconómicas novas, estratégicas extraordinárias, medidas como redimensionar todo o fluxo financeiro para a economia real.

Estamos numa situação dramática?

Nunca estivemos numa situação em que metade do dinheiro do país vai para o banco e não pode ir para o povo, não pode ir para escolas. Este é o apelo que José Severino, Carlos Lopes e Ladislau Dowbor fizeram. Vamos repensar, tem de haver uma nova estratégia, novas medidas para incentivar o empreendedorismo, porque não basta só pedir, tem de se criar a estrutura necessária para podermos investir.

Hoje é difícil distinguir se uma empresa faliu por má gestão ou pela conjuntura económica?

O principal motivo do encerramento de empresas é a falta da procura. Não há consumidores, não há dinheiro. Evidentemente, podemos analisar que tenha havido incapacidade técnica de gestão, mas todos são motivos secundários. É esse o primário no processo de morte da economia. Se não tem dinheiro para pagar o lavador do carro, ele vai ficar em frente de casa à espera de mil kwanzas, mas não há. A empresa dele vai fechar porque não há dinheiro. Essa é a origem da falência das empresas.

Como é que o Grupo Boa Vida tem estado a contornar essa situação?

Como disse Einstein: “quem vai sobreviver não é o mais inteligente, é aquele que se adapta mais rápido”. O GBV está a sobreviver graças à sua capacidade de se adaptar a qualquer mudança. Tem de ser rápido hoje, porque as mudanças são muito rápidas e muito violentas. A nossa estratégia passa pela capacidade de nos adaptarmos a estas situações, não só diversificamos, não só fizemos todos os movimentos para nos tornarmos autónomos na importação, não ainda na totalidade, mas em grande parte. Também investimos nos sectores que são promissores para os próximos anos, que não dependem da importação, nomeadamente a comida. Sabemos que importamos quase quatro mil milhões de dólares de comida, esses quatro mil milhões um dia serão gastos localmente.

Defendem que os importadores devem ser obrigados a produzir localmente?

Também foi uma das propostas do fórum. Seria o Executivo, sob formato legal, a obrigar a que parte do valor dessas importações seja investida no país. Estamos a falar de grandes operadores que têm capacidade empresarial de investir no país e uma parte do valor da importação, 10%, 20% ou 30%, de uma forma evolutiva, deve ser canalizada para investir e comprar localmente.

Com essa adaptação, o GBV não corre o risco de fechar?

Concordámos em apoiar o fórum na perspectiva de que, se o barco do país afundar, nós afundamos todos. Nós, como empresa, estamos preparados para todos os cenários, estamos a andar de acordo com a economia. Posso reafirmar que, por mais atrasos que haja, somos uma empresa que, ao longo de 20 anos, entregou todas as casas e aqui, na Boa Vida não vai ser diferente. Vamos entregar tudo que prometemos.

Mas já se registam atrasos?

Sim e reconhecemos que houve falhas no cumprimento do tempo da entrega das casas. Mas estamos fortemente empenhados, temos 4.406 trabalhadores, para fazer entrega de todas as casas e assim será nos próximos tempos.

Já despediram?

Não, por enquanto. Mantemos toda a força produtiva. Estamos com um empenho bom, a entregar 20 a 30 casas por mês e pretendemos manter este ritmo até ao final do ano.

Acha que o Executivo está disposto a ouvir e a acatar ideias como as que saíram do fórum?

Não tenho dúvidas. Temos um Governo democrático, escolhido por eleições democráticas que sempre este predisposto a ouvir. Essa predisposição sempre nos encorajou a dialogar de forma aberta.

Que outros conselhos se podem tirar do fórum?

Em resumo, a grande contribuição dessas pessoas, que têm mais de 30 anos de experiência em África, é que é essencial e crucial transferir dinheiro para a base. Focaram-seE em dois elementos. Na educação porque, para desenvolver o empreendedorismo, tem de se ter mão-de-obra qualificada e a grande responsabilidade recai sobre o executivo. No Brasil, na década de 2003-2013, houve um massivo investimento do executivo na educação, o que permitiu criar ferramentas para os investidores e empreendedores. O segundo é repensar o sistema de financiamento, que é reconduzir todo o fluxo financeiro para a economia para o empreendedorismo efectivo, ao que eles chamam economia para os pobres e economia para os ricos. Existe distinção destas diferentes políticas e estratégias macroeconómicas. Eles sugeriram a reconversão desse fluxo para a economia real e não para as aplicações financeiras.

Que futuro para o empresariado, se estes economistas estiverem certos e o Executivo mantiver as políticas actuais?

Acredito no grande potencial de Angola, com grandes recursos, como a terra e água. Nos próximos 10 anos, teremos mais um bilião de moradores na terra, o recurso mais escasso será a água. Temos de começar a ter a capacidade de preparar todas as políticas macroeconómicas para o pós-petróleo. A agricultura é um grande gerador de postos de trabalho que pode ser uma solução a longo como a curto prazo em formato de cooperativas, soluções que são conhecidas e que podem dar essa solução imediata à falta de emprego e de comida. Mas não pode descurar a hipótese de o Governo insistir nas políticas actuais… Não quero ser dramático, mas sou um pouco entendido dessas lições dos grandes economistas. O caminho da austeridade, infelizmente, conduz para uma frustração social, em que a comida vai ficar mais cara, o táxi mais caro, vai faltar emprego e a criminalidade vai subir.

Somos um povo pacato e calmo, mas até aonde essa calma vai chegar?

Não sei. Em função da subida do combustível, por exemplo, o frango pode aumentar de oito para 13, mas o salário da empregada, que ganha 50 mil, não vai subir, vai comprar menos frango, menos arroz, menos fuba. É um impacto gigantesco a nível social que evidentemente provoca frustração social e a frustração social tem limites. Chega um momento em que o salário nem chega para a comida. Aí bate a fome e, quando bate a fome, acontecem as coisas que não queremos para o nosso país: as convulsões sociais que se podem traduzir em tumultos de um tamanho que a gente nem imagina.

É urgente a mudança?

Urgente, emergente, imediata e extraordinária. Precisamos de medidas extraordinárias imediatas.

A subida dos combustíveis está prevista para dentro de dias…

São directrizes do FMI, mais uma consequência de falta de dinheiro no OGE em que tem de se tomar medidas difíceis. Estou absolutamente solidário com estas medidas e decisões que o Executivo tem de tomar, mas tem de fazer compensações. Tem de ter um quadrante de uma estratégia integrada, focada no bem-estar da população. O povo tem de sentir algum benefício dentro daqueles cinco critérios, não pode só sofrer o impacto negativo dessas medidas. Todos estamos predispostos a apoiar o Executivo, mas há limites e esse limite é a fome.

Mas há quem critique certo oportunimos de empresários, responsável também pela situação actual...

Sou apologista de não olhar muito para o retrovisor. É importante espreitar o que o passado ensinou e levar isso como aprendizado, mas todo o foco tem de estar para frente. Temos de ter toda a cautela e prudência para ver o formato da análise e como lidar com estas situações menos favoráveis do passado. Todos nós fazemos parte da história política e económica de Angola e cada um tem de avaliar no seu coração o que fez, mas o mais importante é que vai fazer agora. Não pensar no que o país pode fazer por si, mas pensar no que pode fazer pelo país, independentemente do que se fez no passado. Estamos num jogo de vida ou morte.

Algumas vozes defendem que a melhoria do país depende da saída do MPLA do poder.

O MPLA não é um partido perfeito, está sujeito ao erro humano. Mas continua a deter o maior potencial intelectual do país. As soluções pragmáticas e estratégias económicas e políticas para o sucesso de uma nação passam por esse potencial intelectual. A evolução do MPLA depende de uma liderança e hoje temos de reconhecer que temos uma nova liderança, nova luz, nova esperança e, acima de tudo, nova qualidade de liderança. A nova liderança tem uma única oportunidade de uma mudança qualitativa de postura, porque o MPLA é como o ser humano, tem o lado bom e o lado mau. É um órgão partidário também sujeito a mudanças, mas quem detém o poder de realizar essas mudanças é a liderança.

E quanto às críticas a certos oportunismos de empreários responsáveis pela situação actual?

Não podemos vincular a resolução das estratégias do futuro à problemática do passado. Aconteceu, não temos nenhuma influência de contornar o que aconteceu. Todos os actos cometidos fazem parte integrante da história. O que vai acontecer no futuro é saber aproveitar essas lições. A corrupção faz parte de qualquer economia do mundo, ela diferencia-se exactamente em função da liderança. Hoje tenho a plena consciência e total confiança que essa nova liderança vai trazer uma redução drástica da corrupção.

A deputada ‘Tchizé’ dos Santos diz que fugiu do país por estar a ser perseguida. Situações como estas não fragilizam o MPLA?

Existem alguns custos colaterais. São situações complexas do passado do Presidente cessante que têm de ser tratadas com extrema delicadeza, num fórum muito privado em reconhecimento de todo o bem que foi feito. Temos de ter essa sensibilidade de tratar com toda a consideração e respeito, mas dentro de uma nova postura. ‘Tchizé’ e outras que fizeram parte do passado fazem parte do presente. Têm de ter essa capacidade de adaptação, perceber que hoje temos um novo líder, gostando ou não. Esse é o líder que escolhemos e pode não ser perfeito, mas é a melhor opção para o nosso país e são as directrizes dele que devemos seguir.

Parece-lhe que as pessoas, de modo geral, estão a adaptar-se?

Infelizmente, não. Nem todos temos essa capacidade. As medidas aplicadas foram interessantes e eficazes porque todos tiveram os seus cinco minutos para se adaptar. Todos tiveram amnistia. Essa chance foi dada pelo Presidente da República. Foi uma política muito justa, de segundas oportunidades. Também sou apologista de que se deve dar estas segundas oportunidades.

Como encarou as críticas de que foi alvo quando foi eleito 1º secretário de um dos CAP do MPLA por ter nascido na Polónia?

Estou há mais de 24 anos no país, fazendo as minhas contribuições, mas dentro da percepção e legislação. Angolano é aquele que detém a nacionalidade e em função daquilo que ele fez no país. Fiquei profundamente comovido e de alguma forma alinhei com esses valores quando o actual Presidente João Lourenço falou no momento que foi revestido, a 27 de Setembro disse: “Assumo desde já o compromisso de executar as minhas promessas eleitorais com uma governação inclusiva que apela a participação de todos angolanos independentemente do seu local de nascimento”. Ele incluiu-me. Nasci na Polónia, mas quantos angolanos nasceram aqui e viveram em Portugal, ou quantos angolanos nasceram fora e vivem aqui? Nação é um conjunto de pessoas que contribuem para o seu crescimento.

Aceitaria desempenhar um cargo governativo?

Cabe à nossa liderança decidir escolher os quadros necessários para a realização dos seus objectivos. Sou membro do MPLA com todo o orgulho. Como digo entre os camaradas e em qualquer fórum, quero pôr à disposição a minha capacidade em prol daquilo que a liderança do partido perceba como realização dos objectivos. Se acharem que tenho capacidade, que posso contribuir com alguma coisa, vou fazer, porque faço isso todos os dias, a nível familiar, empresarial, político e partidário.