PRIVATIZAÇÕES E O CÍRCULO VICIOSO
A anunciada venda de 15% do capital da Unitel em bolsa, autorizada em Outubro do ano passado, deverá
concretizar-se ainda este ano.
A anunciada venda de 15% do capital da Unitel em bolsa, autorizada em Outubro do ano passado, deverá concretizar-se ainda este ano. O processo, apresentado como mais um passo no reforço do mercado de capitais e na diversificação da estrutura accionista de activos estratégicos, levanta, contudo, mais interrogações do que garantias.
Entre os nomes que surgem como potenciais compradores, o Grupo Carrinho aparece com naturalidade — quase por inércia. Estranho seria se o conglomerado não figurasse entre os interessados. Nos últimos anos, tornou-se presença recorrente em processos de aquisição de activos relevantes, alguns dos quais anteriormente sob controlo público ou para-público.
Mas é precisamente essa recorrência que deveria impor maior escrutínio. A trajectória recente do grupo está longe de ser consensual. Diversas aquisições ocorreram em contextos marcados por opacidade, valores questionáveis e ausência de concorrência efectiva. O exemplo mais citado continua a ser a compra do Banco de Comércio e Indústria (BCI) por 25 milhões de dólares — um montante amplamente considerado irrisório para a dimensão, activos e potencial da instituição. Não se trata de opinião isolada, mas de leitura transversal entre especialistas, analistas e sectores informados da sociedade.
O debate torna-se ainda mais sério quando enquadrado no ciclo político iniciado em 2017, com a chegada do Presidente João Lourenço. Desde então, vários grupos empresariais outrora dominantes, com destaque para o império económico associado a Isabel dos Santos, foram desmantelados, perderam activos e influência, num processo que, independentemente das justificações políticas e jurídicas, teve custos elevados para o tecido empresarial e para o emprego.
Acresce a isso um dado inquietante: a Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva), concebida para promover transparência, concorrência e democratização do capital, tem sido aparentemente usada como fachada institucional para operações que permanecem pouco claras quanto à formação de preços, à real dispersão accionista e à igualdade de acesso. Ou seja, se a bolsa serve apenas para legitimar decisões previamente tomadas, o problema já não será de mercado — será de governação.
A questão que se impõe é incontornável: quem garante que o Grupo Carrinho, hoje em ascensão, não venha amanhã a conhecer o mesmo destino? E, se tal vier a acontecer, quantas empresas serão desestruturadas, quantos postos de trabalho sacrificados e quantos sectores voltarão à estaca zero?
A economia angolana não pode continuar refém de um círculo vicioso em que grupos crescem rapidamente à sombra de decisões políticas, apenas para serem depois desmantelados por mudanças de ventos no poder. Esse modelo não gera confiança, não atrai investimento sério e não constrói mercado. Destrói-o.
Privatizar não pode ser sinónimo de transferir poder económico de uns para outros sem regras claras, sem transparência e sem garantias de estabilidade. Caso contrário, a história repetir-se-á: novos “campeões nacionais” hoje, novos “casos problemáticos” amanhã. Pelo meio, um país que continua a pagar o preço da improvisação.









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