QUANDO OS NÚMEROS DEIXAM DE SER APENAS ESTATÍSTICAS…

Há momentos em que a linguagem técnica deixa de ser domínio exclusivo dos especialistas. Nos números das finanças públicas, cada desvio é um alerta: expõe falta de rigor na gestão de activos que pertencem a todos os angolanos.

QUANDO OS NÚMEROS DEIXAM DE SER  APENAS ESTATÍSTICAS…
Mário Mujetes

Há momentos em que a linguagem técnica deixa de ser domínio exclusivo dos especialistas. Nos números das finanças públicas, cada desvio é um alerta: expõe falta de rigor na gestão de activos que pertencem a todos os angolanos.

Uma discrepância superior a 2,2 biliões de kwanzas, que cresceu 33 vezes num único ano, não é um erro inocente nem um detalhe contabilístico. É uma falha grave de governação financeira que o Executivo não pode esconder nem ignorar.

Enquanto o Governo proclama consolidação fiscal e um alegado superavit orçamental corrente, os próprios dados oficiais mostram uma realidade oposta: necessidade líquida de financiamento superior a 3,7 biliões de kwanzas, incorrência líquida de passivos acima de 5,3 biliões, e uma Conta Financeira incapaz de explicar, de forma transparente, como o Estado se financiou. Quando o financiamento real não bate certo com o Orçamento aprovado, o problema deixa de ser estatístico — é político e moral.

Ainda mais grave é que este desvio ocorre num cenário de despesas questionáveis no coração do aparelho do Estado. Enquanto a população sofre com transportes públicos ineficientes, custos logísticos elevados e mobilidade degradada, o Executivo continua a destinar centenas de milhões de kwanzas a consultorias, viaturas e gastos administrativos de luxo, incluindo no Gabinete da vice-Presidente da República. Não se trata de ilegalidade: trata-se de prioridades que ignoram completamente a realidade do país.

O sector dos Transportes, frequentemente exaltado como estratégico, consome recursos significativos sem entregar soluções concretas à economia e às famílias. Quando um buraco financeiro de biliões convive com resultados públicos frágeis, não há desculpas técnicas que justifiquem a falha: a responsabilidade é política.

Esta discrepância é um acto falhado da política orçamental: mostra aquilo que o discurso oficial tenta esconder. Um valor equivalente a 2,7% do PIB e a uma fatia relevante da receita corrente não pode ser relegado a mero ajustamento residual. Exige explicação, responsabilização institucional e mudança de práticas.

Um Governo que exige sacrifícios não pode aceitar contas que não batem certo nem despesas que simbolizam um distanciamento chocante da realidade. Quando o Estado perde o controlo da narrativa financeira, perde também autoridade para exigir confiança.