COVID-19 AUMENTA PREÇOS DAS VIAGENS INTER-PROVINCIAIS

Sair de Luanda sem testes custa entre 5 e 15 mil kz

10 Nov. 2020 (In) Formalizando

CORRUPÇÃO. Cerca sanitária exige viagens com testes, mas os passageiros arranjam forma de sair de Luanda, pagando bilhetes mais caros, algumas vezes com os preços a triplicar. Motoristas justificam com os custos não só por causa da covid-19, mas também para ‘contornar’ obstáculos.

Sair de Luanda  sem testes custa  entre 5 e 15 mil kz

Apesar de Luanda estar sob cerca sanitária devido ao aumento vertiginoso de casos positivos de covid-19, centenas de pessoas têm conseguido diariamente sair da capital sem efectuar qualquer teste.

A cerca imposta restringe a circulação de pessoas para outras zonas do país, excepto nos casos em que é apresentado um resultado negativo do teste nos controlos fronteiriços,

Uma ronda do VALOR, em diversas paragens, permitiu inteirar-se do negócio. Ao preço do bilhete de passagem é acrescido um valor entre os 5 e 15 mil kwanzas, este último nas pequenas empresas de viagens inter-provinciais.

Em Viana, na paragem conhecida como ‘Tio Show’, viaturas ligeiras e pesadas, algumas com cargas, com destinos ao Norte e ao Sul, perfilam-se em busca de clientes. A negociação inicial é feita pelos jovens lotadores que abordam os potenciais clientes com perguntas relacionadas com a zona de destino e se têm em mão o teste. Na eventualidade de não o ter, anunciam que ao bilhete é acrescido mais cinco mil kwanzas.

A viagem para Malanje custa 20 mil, com o teste, enquanto na falta deste custa 25 mil kwanzas. Para quem deseja chegar ao Huambo sem o teste, pode pagar à volta dos 35 mil. A negociação é feita em plena via pública sem qualquer receio de um eventual surgimento de agentes da Polícia.

O mesmo cenário pode ser visto na paragem ‘informal’. Além desta, mas a escassos metros, há o chamado ‘Parque’, um quintal onde também param viaturas à espera de clientes para as mesmas províncias. Aqui, a negociação é feita numa sala administrativa e a viagem, para quem não tem o teste, fica ainda mais cara. É exigido acrescentar 15 mil kwanzas ao bilhete, independentemente da região a que se pretende chegar.

Por exemplo, a passagem para Malanje, que custa 20 mil, é cobrada a 35 mil kwanzas. Já para a Huíla, o preço ‘salta’ dos 43 mil para os 58 mil.

O mesmo esquema é utilizado pelos motoristas da zona adjacente ao mercado dos Kwanzas, no Cazenga. Cobram 25 mil para quem, sem teste, pretenda chegar a Mbanza Congo.

Para justificarem os preços praticados, quando um cliente tenta negociar a redução, os motoristas explicam que conhecem o aperto da fiscalização no posto de controlo do Nzenza do Itombe, que conta com a presença de agentes da Inspecção-Geral da Administração do Estado (Igae). Mas asseguram o prosseguimento do trânsito sem constrangimentos, garantido que “têm pessoas de confiança, muitas pertencentes à PN e ao SIC, que devem ser bem recompensadas”.

Ao contrário, quem faz a rota Luanda-Uíge não arrisca a enveredar pela tal prática por considerarem a fiscalização no controlo da província “bastante rigorosa”.

Na maioria dos casos, os motoristas ligam aos facilitadores, dando a conhecer que estão a caminho. Retornam a ligar quando se aproximam do controlo. Em clara demonstração de desrespeito ao Decreto Presidencial que prorroga a situação de calamidade pública. Segundo depoimentos de passageiros, optam pelo pagamento devido à morosidade na entrega dos resultados dos testes.

Em Outubro, o Governo fixou o preço dos testes de covid-19 entre os seis e os 75 mil kwanzas para quem, por iniciativa própria, deseje saber do seu estado serológico ou viajar no interior ou para o exterior do país.

TRANSPORTADORA FORA DA CORRIDA

A transportadora Macon, uma das que mais meios tem à disposição nas rotas inter-provinciais, optou por não ligar à capital e outras localidades por conta dos elevados custos, pouco rendimento com a redução a 75% da capacidade bem como os constrangimentos enfrentados para se efectuar o teste. Segundo a área comercial da transportadora, a experiência com os passageiros, obrigados a apresentar teste que desembarcam até ao rio Longa, não é das melhores. Às vezes, chega a transportar apenas 15 passageiros quando a capacidade autorizada por decreto permite preencher 25 lugares.

Polícia promete investigar

Segundo o porta-voz da Comissão Multissectorial de Prevenção contra a covid-19, Waldemar José, foram espoletadas investigações para apurar as denúncias, todavia, até ao momento, não foi flagrado o envolvimento de qualquer agente do Ministério do Interior no esquema de corrupção nas fronteiras. No entanto, garante que investigações prosseguem e, caso existam agentes da PN e do SIC envolvidos, aconselha a abdicarem da prática “sob pena de sofrerem sanção disciplinar e serem responsabilizados criminalmente.” Por outro lado, explica que não foi formalizada qualquer queixa diante da instituição. Por isso, apela aos cidadãos a denunciarem tais práticas nas esquadras mais próximas e a gravarem áudio ou vídeo diante de actos desta natureza.

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