DIZEM-SE EXCLUÍDOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

Sapateiros clamam por apoio e inclusão social

17 Nov. 2021 (In) Formalizando

OFÍCIOS. É considerada das mais antigasprofissões do mundo. E, no país, apesar de muitos acreditarem que está em via de extinção, os sapateiros garantem ser impossível viver-se sem o seu ofício, ao mesmo tempo queclamam por inclusão e por apoios do Estado.

Sapateiros clamam por apoio e inclusão social

 conserto artesanal de sapatos, sandálias, chinelos, botas e outros calçados mantém-se vivo nos centros urbanos do país, incluindo na capital, apesar da sofisticação do ofício que se vem verificando há vários anos.

Mas, à semelhança da generalidade dos ofícios, os sapateiros clamam também por apoios das autoridades, de modo a que se sintam incluídos em programas governamentais, além da possibilidade de acederem a créditos bancários. 

Banda Júlia, também conhecido por Mestre Cláudio, trabalha por conta própria na Vila de Viana, em Luanda, há 15 anos. E, com cálculos apressados, conclui que factura entre 4 mil e 6 mil kwanzas por dia, com a renda a mensal a variar entre os 80 e os 130 mil kwanzas. Mestre Claúdio exigiu, entretanto, mais a si próprio e aperfeiçoou os conhecimentos que lhe permitem, além de consertar, fabricar quase todo o tipo de calçados. Mas a falta de material obriga-o, por enquanto, a limitar-se nos consertos, daí que não perde tempo a exigir a intervenção do Governo. “Precisamos que olhem para este sector para termos apoios e créditos que nos permitam adquirir equipamentos para melhorarmos as nossas condições de trabalho.”

Enoque Lubambo é sapateiro há dois anos. Recorreu à sapataria aprendendo com o irmão depois de ter perdido o emprego na Agrolider, e diz que consegue sobreviver do trabalho, embora lamente a falta de material. ‘‘Dá para viver deste trabalho, mas, por falta tintas, colas e outros, temos recusado muitos trabalhos. Ficou difícil por causa da pandemia, porque o material que vinha da China já não vem e o pouco que aparece no mercado do Kikolo é muito caro’’, conta.

Pelas contas de Lubambo, foi na fase de confinamento que mais faturaram, com saldos médios de 10 mil kwanzas por dia. ‘Estávamos aqui todos os dias e as pessoas, como não saíam de casa, conseguiam dar conta dos calçados que tinham problemas e traziam para nós’’, explica.

Já Manuel Nunes, de 54 anos, militar desmobilizado, aprendeu a sapataria com o avô, carregando já cinco anos de experiência. Declara que consegue pagar as contas com o dinheiro que ganha e, assim como os outros, confirma que o rendimento varia em função do fluxo de clientes.

 EM VIA DE EXTINÇÃO

Há especulações de que, com os avanços das sociedades, a profissão de sapateiro possa deixar de existir algum dia, mas os profissionais da área contestam essa “teoria da conspiração”. Apesar de reconhecerem que muitos calçados hoje não podem ser reparados “porque estão a ser feitos com materiais muito frágeis’’, estão seguros em como é “impossível” a extinção do ofício.

Mestre Cláudio lembra, por exemplo, que muita gente cria afeição pelos calçados, o que as obriga a recorrer sempre aos sapateiros para os renovars, pelo que não lhe restam dúvidas de que “haverá sempre pessoas a procurar pelos serviços dos sapateiros”.

Mas estes profissionais, segundo garantem, não estão alheios aos desafios do futuro, por isso vão diversificando o ofício para o conserto e confecção de outros produtos como bolsas, chinelas e cintos.

 SEM PROTECÇÃO LEGAL

Apesar de ser uma actividade antiga, muitos destes profissionais não estão inseridos no sistema financeiro nem estão inscritos no Instituto Nacional de Segurança Social. No entanto, uma fonte da Segurança Social recorda que qualquer profissional da área pode ser enquadrado, desde que se estabeleça como contribuinte, registando o seu espaço na AGT, e, de seguida, no INSS.

A fonte garante que o instituto tem levado cabo campanhas de sensibilização de pequenos comerciantes para a sua inserção no sistema a fim de garantirem as suas pensões. No entanto, do lado dos profissionais, há reclamações de que estas campanhas não lhes chegam.

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