BERNARD TAPIE, A MORTE AOS 78 ANOS

Uma vida que dava vários filmes

06 Oct. 2021 Emídio Fernando Gestão

Trajetória. Empresário polémico, envolvido em casos de corrupção que abalaram a França, antigo presidente do Olympique de Marselha, político, actor, apresentador de televisão, cantor, deputado e eurodeputado, magnata e ministro. E até vítima de um rapto. Foi uma vida cheia a de Bernard Tapie, que terminou aos 78 anos, vítima de um duplo cancro.

Uma vida que dava vários filmes

 

Não sobraram adjectivos nas biografias escritas por jornais de todo o mundo, em particular os franceses, para descrever Bernard Tapie. Uns elogiosos, outros críticos, mas todos a convergir na ideia que o empresário francês conquistou meio mundo, chegou ao topo e caiu com estrondo, mas completou uma vida carregada de aventuras políticas, empresariais e sociais.

Os jornais, após a sua morte aos 78 anos, encheram-se de descrições, algumas pouco meigas: "Fénix, herói, amigo, mentiroso, jogador, vigarista, carismático, líder, 'buldozer', corajoso,  combativo, sedutor, conquistador".

Por partes, o homem, nascido de uma família modesta, cresceu a alimentar polémicas e morreu sem ter resolvido o combate de uma vida. Em Maio, já altamente debilitado por causa da luta com dois cancros, completou 30 anos de litígio financeiro por causa da sua 'jóia da coroa: a Adidas. O banco Credit Lyonnais acusou-o de ter vendido a Adidas de uma forma fraudulenta e conseguiu que o tribunal obrigasse o empresário francês e a mulher a devolverem mais de 400 milhões de euros. Pelo meio, foi condenada a actual presidente do Banco Central Europeu, quando ainda era ministra das Finanças de França, por negligência. De recurso em recurso, Tapie morreu sem ver o caso concluído,

Mas o empresário conseguiu concluir outros, alguns com relativo sucesso. Foi condenado quando exerceu as funções de ministro das Cidades, num governo presidido pelo socialista François Miterrand, em 1995. O tribunal condenou-o por manipulação de resultados desportivos, corrupção e suborno, quando presidia ao Olympique de Marselha. A pena foi de dois anos, mas , mas só ficou preso por 165 dias. Tapie foi ministro apenas durante quatro meses.

A vida de Bernard Tapie é, acima de tudo, uma mistura de um conto de fadas com enredos policiais. "Um homem de mil vidas", descreveu-o o prestigiado jornal francês Le Monde. Essas vidas foram repartidas por altos e baixos. Começaram num berço modesto, nos arredores de Paris, mas com pouco mais de 20 anos já dirigia uma equipa de ciclismo. Começou assim uma trajectória que teve como ponto alto a presidência do Olympique. Aqui, chegou ao céu, levando a equipa a ser campeã europeia, e depois ao inferno, indo parar à prisão.

O inferno, no entanto, foi amenizado. Tapie já tinha acumulado uma fortuna que fez dele um magnata. Coleccionou amigos na política que o levaram a ser eleito deputado e eurodeputado e nomeado ministro das Cidades. No campo do 'show-business', também ia juntando sucessos e amigos consideráveis, desde o mais famoso publicitário mundial, Jacques Séguela, ao actor Alain Delon. Pelo meio, ainda teve tempo e arte para se tornar actor e cantor, dando voz, durante cinco anos, a uma série televisiva, e ainda apresentador de televisão.

Mesmo com tanta agitação, nunca descurou a 'arma' que lhe permitiu atingir o topo dos negócios: os investimentos na comunicação social. Construiu um império, assim definido pelos franceses, que acabou por se desfazer lentamente depois de 50 anos de permanência no topo.

Tal como num filme, a vida de Tapie acabou em tragédias. Sofreu no combate desigual com dois cancros. Chegou a confessar, em entrevista à revista Paris Match, ainda este ano, que estava "completamente partido". E revelou que passava oito horas por dia na cama e que se sentia como se tivesse 100 anos.

Um fim trágico, quase cinematográfico, que poderia ter sido pior em Abril deste ano quando foi sequestrado, juntamente com a mulher. Passou horas nas mãos dos raptores, foi agredido e surgiu na televisão, depois de libertado, com marcas de ter sido violentamente agredido.

Como bom francês - e ainda por cima empresário - Bernard Tapie acabou também por se envolver com  África. No caso, com o presidente congolês Dennis Sassou Nguesso, em negócios que até incluíram as vendas de jogadores de futebol.

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