A VERDADE QUE MATA E A EDUCAÇÃO QUE EXCLUI

Há factos que um país não deveria precisar de recordar, porque nunca deveriam ter sido acontecido. Ainda assim, quando a realidade insiste em impor-se pela gravidade dos seus números, o silêncio passa a ser cumplicidade.

A VERDADE QUE MATA E A EDUCAÇÃO QUE EXCLUI
Mário Mujetes

há factos que um país não deveria precisar de recordar, porque nunca deveriam ter sido acontecido. Ainda assim, quando a realidade insiste em impor-se pela gravidade dos seus números, o silêncio passa a ser cumplicidade.

O relatório elaborado pela Unita sobre os acontecimentos de Julho de 2025, e que deve ser apresentado esta semana, expõe uma discrepância perturbadora entre os dados oficiais e os números documentados no terreno. E estando em causa vidas humanas, toda a divergência merece destaque. E o Estado tem o dever de esclarecer, não de minimizar.

A incapacidade de proteger cidadãos em contexto de contestação social revela falhas sérias no funcionamento das instituições. Mas essa falha não se limita à gestão da ordem pública. Ela manifesta-se, de forma estrutural e continuada, na incapacidade de garantir direitos básicos, entre eles o direito à educação.

A nomeação da nova ministra da Educação ocorre num momento em que o país precisa mais do que promessas. O Presidente da República identificou desafios relevantes — mais salas de aula, melhor valorização dos professores —, mas continua ausente o debate sobre um dos problemas centrais: o ensino de base não é, na prática, gratuito para todos.

Milhares de famílias angolanas são empurradas para o ensino privado não por escolha, mas por ausência de oferta pública. Quando o Estado não consegue criar condições mínimas para acolher todas as crianças, não pode transferir para os cidadãos o custo da sua própria incapacidade. O ensino privado deve ser alternativo, não impositivo.

Se o Estado falha na garantia do acesso universal ao ensino público, deve assumir os encargos daqueles que são obrigados a estudar no sistema privado. O contrário é institucionalizar a desigualdade e normalizar a exclusão.

Um país que banaliza a morte dos seus jovens e aceita que a educação das suas crianças dependa do rendimento das famílias está a falhar duplamente no seu compromisso com o futuro.