JLO DESAUTORIZADO PELA OMA OU CÚMPLICE DAS CAMARADAS?

O desfecho do processo de candidaturas para a liderança da OMA coloca João Lourenço perante um dilema político incontornável: foi desautorizado pela própria organização feminina do MPLA ou foi cúmplice de um processo que contrariou, desde o início, a promessa pública de multicandidaturas? 

JLO DESAUTORIZADO  PELA OMA OU CÚMPLICE  DAS CAMARADAS?

Em qualquer das hipóteses, o resultado fragiliza o discurso reformista do Presidente do partido e expõe, mais uma vez, a distância entre a palavra dita e a prática consentida.

Em Dezembro, durante o discurso alusivo a 69º aniversário do MPLA, João Lourenço questionou as camaradas da OMA se teria uma única candidatura no congresso. Numa resposta visivelmente concertada, as ‘mamãs’ responderam o que o líder esperava ouvir: “Não”.  

A afirmação foi pública, directa e politicamente relevante, sobretudo num partido com histórico de candidaturas únicas e unanimismos cuidadosamente construídos.

Os acontecimentos posteriores, porém, seguiram um rumo oposto. Inicialmente, tudo indicava que três candidatas avançariam para a disputa da liderança da OMA. Uma delas foi afastada ainda numa fase de pré-eleição, reduzindo o processo a duas concorrentes. Mesmo assim, o ambiente que se gerou nos dias seguintes foi inédito: expectativa, debate público e um interesse social raro em torno de um congresso de uma organização de massas do MPLA.

O congresso da OMA passou a ser visto como um possível ensaio de democratização interna, um teste à credibilidade do discurso de abertura tantas vezes reiterado pela liderança do partido.

Mas foi sol de pouca dura. Com a desistência da pré-candidata Graciete Dombolo— prontamente aceite pelo partido — o Bureau Político confirmou aquilo que muitos já suspeitavam: o congresso terá apenas uma candidata, Emília Carlota Dias. 

A multicandidatura prometida evaporou-se sem explicações convincentes, sem prestação de contas políticas e sem qualquer esforço visível para preservar a competitividade anunciada.

É aqui que a pergunta se impõe. Se João Lourenço acreditava genuinamente no processo que anunciou, então foi politicamente desautorizado pela OMA e pelas estruturas que conduziram o congresso. Se, pelo contrário, tinha conhecimento do desfecho previsível, então a promessa de multicandidaturas não passou de retórica calculada, destinada a gerar expectativa e a projectar uma imagem de abertura que nunca esteve verdadeiramente em cima da mesa.

Nenhuma das hipóteses é confortável. O episódio expõe uma cultura política persistente no MPLA: processos internos concebidos não para produzir escolhas livres, mas para confirmar decisões previamente definidas. A desistência de candidaturas — voluntária ou politicamente induzida — surge como o mecanismo silencioso através do qual se preserva a unanimidade e se evita o risco da incerteza democrática.

O mais grave é que este padrão já não passa despercebido. A sociedade acompanha, compara discurso e prática, e retira conclusões. Cada promessa não cumprida corrói a confiança, não apenas no partido, mas no próprio discurso presidencial.

O congresso da OMA poderia ter sido um marco simbólico. Poderia ter mostrado que o MPLA é capaz de tolerar competição interna, mesmo controlada. Em vez disso, tornou-se mais um exemplo de como, no partido no poder, a mudança é anunciada, mas raramente permitida.

No fim, a pergunta permanece: João Lourenço foi desautorizado pela OMA ou foi cúmplice das camaradas? O silêncio ou a ambiguidade da resposta dizem tanto quanto o desfecho do congresso.