O MÍNIMO QUE SE ESPERA DO PRESIDENTE
O regresso do Presidente João Lourenço, após uma ausência prolongada do país, encerra um período marcado por especulações sobre o seu estado de saúde.
O regresso do Presidente João Lourenço, após uma ausência prolongada do país, encerra um período marcado por especulações sobre o seu estado de saúde. Circularam rumores de toda a natureza, incluindo alguns que chegaram ao extremo de anunciar a sua morte. O seu reaparecimento esvaziou o conteúdo de muitas dessas especulações.
Mas todo este episódio acabou por suscitar uma questão mais importante: estará Angola preparada para ter, pela primeira vez, um verdadeiro ex-Presidente da República? A pergunta merece reflexão.
Desde a Independência, o país nunca conheceu plenamente esta figura institucional. Agostinho Neto morreu no exercício das funções. José Eduardo dos Santos deixou a Presidência em 2017, mas os anos seguintes foram marcados por um ambiente de confronto político e judicial que impediu que pudesse desempenhar o papel que muitos antigos chefes de Estado assumem noutras democracias: o de conselheiro, moderador ou referência institucional. Foi uma oportunidade perdida.
Os países não precisam apenas de bons Presidentes. Precisam também de bons ex-Presidentes. Figuras que, livres do exercício quotidiano do poder, possam colocar a sua experiência ao serviço da estabilidade nacional, contribuir para a pacificação dos momentos de maior tensão e representar um factor de continuidade do Estado acima das disputas partidárias.
Essa cultura ainda está por construir em Angola.
Se nada alterar o calendário constitucional, João Lourenço deixará a Presidência da República em 2027. Entrará, assim, num território desconhecido da nossa história política. Pela primeira vez, um Presidente poderá concluir o seu mandato, abandonar o cargo dentro dos limites constitucionais e permanecer em condições de continuar a servir o país a partir de uma posição diferente.
Essa transição começa muito antes do último dia de mandato. Começa na forma como o poder é exercido, sobretudo quando o seu fim já está à vista.
A autoridade de um ex-Presidente não nasce apenas do cargo que ocupou. Mas também da forma como escolhe deixá-lo. Constrói-se ao longo da governação — sobretudo na reta final do mandato —, na capacidade de fortalecer as instituições em vez de as personalizar, de reduzir tensões em vez de as alimentar e de colocar o interesse nacional acima das inevitáveis disputas políticas.
João Lourenço ainda dispõe de tempo para fazer o mínimo. O desafio não é apenas concluir obras, aprovar reformas ou melhorar indicadores económicos. É também sair com a autoridade necessária para que a sua voz possa ser respeitada quando já não tiver o poder de decidir.
As últimas semanas recordaram uma realidade frequentemente esquecida pelos próprios líderes políticos: a idade, a saúde e o tempo não fazem distinções entre governantes e governados. Os verdadeiros estadistas distinguem-se por reconhecer essa evidência e preparar as instituições para um futuro que já não dependerá deles.
O poder é sempre transitório.
Senhor Presidente, o seu legado já não dependerá apenas do que fizer até 2027. Dependerá, sobretudo, da forma como decidir sair.









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