A mudez do Presidente da República diante da tragédia de Benguela
Há dias em que o peso do que se sente não cabe na ponta da caneta. É um sentimento difícil de traduzir. Uma mistura de luto, cansaço e aquela amarga lucidez de que andamos aqui semana após semana, mês após mês e ano após ano a falar para as paredes.
Há dias em que o peso do que se sente não cabe na ponta da caneta. É um sentimento difícil de traduzir. Uma mistura de luto, cansaço e aquela amarga lucidez de que andamos aqui semana após semana, mês após mês e ano após ano a falar para as paredes. Hoje, a minha limitação não é falta de vocabulário, é o choque de perceber que cinquenta anos de um mesmo sistema político criaram uma crosta de insensibilidade onde o "poder pelo poder" tornou-se o fim último. Já algumas vezes escrevi sobre o desprezo deste regime pelos angolanos, mas confesso que foi com o desejo secreto de estar enganada. Queria ser a pessimista injusta, aquela que vê fantasmas onde há intenções. Mas Benguela, e o silêncio que a rodeou, arrancou qualquer dúvida. O que vimos de sábado para domingo não foi apenas uma catástrofe natural, foi o espelho de uma catástrofe política que dura há cinco décadas. Enquanto as águas levavam o pouco que o povo tinha, o topo da nação manteve-se mudo. O país comoveu-se, as mãos anónimas estenderam-se, mas do Palácio não saiu um suspiro. Quando finalmente, ao terceiro dia, a comitiva ministerial aterrou na terra das acácias rubras, levou consigo celebrações e sorrisos que pareciam ignorar o cheiro da lama e da perda. A visita do Chefe de Estado, ao quarto dia, foi uma formalidade de poucas horas. Um diagnóstico rápido, sem o bálsamo da palavra de conforto que o povo ferido esperava, antes de partir para outros destinos, outras agendas. A ausência de uma palavra imediata, de um gesto genuíno de proximidade ou de um luto partilhado por parte da Presidência da República não pode tratar-se apenas de um erro de comunicação ou uma falha de assessoria. É, sim, uma declaração de prioridades. A demonstração mais acabada da insensibilidade e do desprezo. Porque todos nós já testemunhámos, em situações semelhantes, em outros países, o chefe de Estado angolano nos lugares cimeiros dos que se condoem e enviam ajudas. Resta-nos a esperança, aquela que insiste em não morrer, de que os actos que se seguirem sejam maiores do que o vazio do que ficou por ser dito. E enquanto o rio invadia Benguela, a máquina burocrática não parou: despachos, autorizações, nomeações, exonerações. Num desses actos foi recuperado o antigo ministro do Interior, depois de um ano e seis meses no banco dos suplentes. A nomeação de Eugénio Laborinho para o Kwanza Sul é o símbolo máximo desta era da impunidade. Ao resgatar figuras cercadas por suspeições e polémicas, o regime envia a clara mensagem de que a lealdade ao sistema vale mais do que a integridade perante a nação. Não se trata de uma busca por competência técnica para resolver os problemas crónicos do país, mas de uma gestão de equilíbrios internos de poder. Coitado do povo do kwanza sul, que não tem sido muito abençoado em matéria de governação, e para completar vai agora saber bem o sabor dos rebuçados e chocolates. Mas… no fim das contas, talvez estejamos a ser injustos com o nosso líder. Afinal, como exigir palavras de um homem tão ocupado a assinar despachos e a reciclar ministros enquanto o país se afoga? O silêncio presidencial não deve ser falta de empatia. Deve ser apenas uma técnica de poupança vocal para o que aí vem. É que amanhã, para conforto das nossas almas sofridas, o Papa Leão XIV aterra entre nós. E agora resta-me a dúvida: será que, diante do Vigário de Cristo, o nosso "Chefe" finalmente recuperará o dom da fala? Ou será que vai esperar que seja o Sumo Pontífice a operar o milagre de explicar por que razão, para este regime, a vida de um cidadão angolano vale tão pouco?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 17 de Abril de 2026




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