Angola e o preço das desigualdades

22 Apr. 2026 Opinião

Papa Leão XIV visitou a nossa terra, acompanhei com atenção o primeiro discurso do Santo Padre. Duas coisas me surpreenderam: o português fluente e a objetividade das suas palavras.

Angola e o preço das desigualdades
Mário Mujetes

Papa Leão XIV visitou a nossa terra, acompanhei com atenção o primeiro discurso do Santo Padre. Duas coisas me surpreenderam: o português fluente e a objetividade das suas palavras. Entre as várias pérolas que nos brindou, disse algo que merece reflexão: “Angola pode crescer muito se, em primeiro lugar, vocês que detendes a autoridade no país acreditarem na multiformidade (diversidade) da sua riqueza” Papa Leão XIV.

Uma frase simples, mas que carrega o peso de uma verdade que os números confirmam e as ruas não nos permitem esquecer, somos um pais demasiado desigual.

Enfim, Angola está na moda. Os relatórios internacionais citam-na, os investidores olham para ela, o preço do petróleo sobe e o PIB cresce. Mas há uma pergunta que ninguém consegue responder sem desconforto: para quem está a crescer?

Existe uma distinção fundamental que a retórica oficial frequentemente ignora: crescimento económico e desenvolvimento humano não são sinónimos. Um país pode crescer no papel e empobrecer na prática. Angola é, infelizmente, um exemplo doloroso dessa contradição. Os indicadores macroeconómicos melhoram em determinados trimestres, enquanto o poder de compra de uma família no Cazenga ou no Malueca se deteriora a uma velocidade assustadora. E o mais preocupante não é apenas o “Estado da Nação”. É que as palavras do Santo Padre contrastam com as do nosso Excelentíssimo Presidente da Repú quando disse que a fome era relativa. Nesse contexto, a fome não é relativa, o angolano médio não está mais rico; está, na realidade, mais pobre, e sente-o não como estatística, mas como fome mesmo, como renda que não consegue pagar, como propina escolar que não tem como garantir, como férias que não consegue gozar.

Esta questão remete-nos para aquele que acredito ser o principal problema do nosso país: a mentalidade. Mas esse é outro tema, e irei debruçar-me sobre ele noutra oportunidade. Hoje o tema é a distribuição de riqueza, que alimenta a desigualdade, e age de forma traiçoeira.

Não destrói de forma súbita e visível como uma guerra ou uma catástrofe natural. Age como ferrugem: instala-se lentamente, compromete estruturas essenciais e, quando finalmente se nota o estrago, já está profundamente enraizada.

Em Angola, onde uma minoria concentra uma fatia desproporcional da riqueza nacional, o mercado interno fica sistematicamente amputado.

Um dos principais indicadores para medir a desigualdade é o índice de Gini, dados do Inquérito sobre Despesas e Receitas e Emprego em Angola (IDREA) dizem que a taxa é 0,51 para 2018, para espanto coletivo, no ano 2000  o valor era 0,52, ou seja, 24 anos volvidos, quantidades extremas de recursos consumidos para constatarmos que, continuamos a ser o mesmo país extremamente desigual.

O que sustenta o crescimento é o consumo e ninguém consegue consumir dez vezes mais só por ter dez vezes mais riqueza. O que alimenta uma economia de verdade (sustentável) é o consumo distribuído, é o dinheiro que circula, que passa de mão em mão, que começa no topo do edifício mais luxuoso e chega a zungueira, ao sapateiro do bairro, à tia que faz uns pratos lá no bairro. Quando a riqueza se concentra no topo, torna-se um sufoco, e a economia perde o seu motor mais poderoso: as pessoas.

A pobreza, por sua vez, funciona como um imposto silencioso que recai sobre toda a sociedade, não apenas sobre quem a vive. Quando milhões de angolanos crescem sem acesso digno à saúde, à educação e à oportunidade, o país não perde apenas em termos humanitários. Perde décadas de produtividade potencial. O talento que poderia transformar Angola existe. Está nos bairros periféricos, nas províncias do interior, nas filhas de camponeses que nunca chegarão à universidade não por falta de capacidade, mas por falta de condições.

O Banco Africano de Desenvolvimento estima que certas economias africanas perdem entre dois e quatro por cento do PIB anual apenas devido a défices de capital humano associados à pobreza persistente. Traduzindo: todos os anos, uma fatia significativa da riqueza que Angola poderia produzir simplesmente não chega a existir, porque as condições sociais não permitem que o talento floresça.

A tudo isto junta-se a corrupção, que fecha o círculo vicioso de forma implacável. Não se trata aqui de acusação partidária, mas de diagnóstico estrutural. Em sociedades onde o Estado não garante igualdade de oportunidades, a corrupção transforma-se numa taxa informal de acesso a direitos que deveriam ser universais: uma consulta médica, uma vaga escolar, um contrato público. E o mais perverso é que este mecanismo se autoalimenta: a corrupção agrava a desigualdade ao desviar recursos que deveriam financiar serviços essenciais para toda a população; e a desigualdade alimenta a corrupção porque fragiliza a confiança nas instituições e convence as pessoas de que os atalhos são a única via possível. É um “buraco  no barco”, por mais que a tripulação reme com esforço e determinação, a água entra continuamente e impede qualquer avanço real.

Há ainda um preconceito persistente que importa desfazer: a ideia de que justiça social e racionalidade económica são conceitos opostos, como se cuidar dos mais vulneráveis fosse um gesto de sentimentalismo incompatível com a lógica do mercado. A ciência económica contemporânea desmontou este argumento há décadas. Sociedades mais coesas crescem de forma mais estável, resistem melhor a crises e recuperam com maior eficácia de choques externos. Precisamente porque a coesão social funciona como um ativo invisível que reduz a desconfiança, estimula a cooperação e cria condições para que o talento de toda a população contribua para a criação de riqueza.

Reduzir a desigualdade e combater a pobreza não são concessões generosas de quem governa. São condições mínimas para que o crescimento económico deixe de ser um número abstrato e se torne uma realidade tangível na vida das pessoas.

O Santo Padre disse que Angola pode crescer muito. Concordo inteiramente. O potencial é real, a riqueza é diversa e o povo é resiliente de uma forma que continua a surpreender quem observa de perto. Mas crescer muito não é o mesmo que crescer bem. E crescer bem significa, inevitavelmente, crescer para todos, não apenas para quem já está no topo, mas para quem carrega Angola nas costas todos os dias, sem que o PIB alguma vez registe o seu esforço.

A prosperidade coletiva não é uma utopia. É uma escolha. E é tempo de a fazer acontecer.