E agora pergunto eu...

22 Apr. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende.

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende. Depois de uma semana, em que a actualidade foi marcada a nível internacional pelo anúncio dos EUA e do Irão de que o cessar-fogo alcançado nas negociações ia abrir o estreito de Ormuz que tem estado a ameaçar o fornecimento mundial de combustível, a duplicar os preços e a levar a vários racionamentos em países que dependiam exclusivamente do abastecimento daquela zona do globo.

A ameaça devia ser o suficiente para que as nações aprendessem as respectivas lições... no nosso caso, que é preciso ter stock (até para vender quando o preço está em alta, pelo menos quando nos livrarmos da hipoteca da quase totalidade da produção), e a estudar alternativas de refinação em África que já existem, pelo menos enquanto as nossas refinarias não dão respostas à nossa necessidade interna de consumo. Já se tornou embaraçoso ser país produtor que fica sem combustível quando acontece alguma perturbação exógena.

O barril do petróleo quedou perto de 15 por cento para a casa dos 80 dólares, lembrando que dependemos de um produto de exportação com demasiada volatilidade; quem entre nós encontrava motivos para celebrar a alta de preços porque Angola produz petróleo, esquecendo que antes iríamos importar toda a inflação que a perturbação dos mercados internacionais fosse produzir.

O presidente dos EUA já foi para as redes escrever obrigado! Como se a deferência lhe fosse, na verdade, devida pelo alcance do acordo que permitiu a reabertura, apesar de ter sido responsável pelo encerramento do estreito.

No entanto, a atualidade da semana já vinha marcada pelos seus delírios nas redes e pelas respostas do visitante, que recebemos no país. Trump teve a audácia de num ataque virtual ao Papa o acusar de ser ‘fraco no que toca ao crime’ de ter sido eleito graças a si mesmo (Trump) e de afirmar que o papa é ‘péssimo para a política externa’ naquele seu palavreado do bar a que fazia referência Umberto Eco quando falava dos imbecis que emitem opinião depois de beber e que é totalmente inadequado para se referir ao líder da Igreja de Cristo.

O Papa disse aos jornalistas que o questionaram acerca da deselegância que não ia entrar em discussões políticas e que ia continuar a advogar pela paz. Falou depois de como o mundo está a ser o mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos, de como “os senhores da guerra fingem que não sabem que pode levar mais de uma vida inteira a construir o que se destrói num momento” e que “se gastam milhares de milhões de dólares em morte e devastação, mas os recursos necessários para a cura, para a educação e a cura” não se encontram em lado nenhum...

Esperávamos que o Papa trouxesse na mala de viagem essa necessidade de alerta para o bullying da liderança por onde passasse, já que não faltam temas dos direitos humanos para advogar nos países em África que ia visitar. Incluindo Angola, que, para além de manter presos políticos, activistas que, por manifestações que estão previstas na Constituição da República, acusados de rebelião e afins, tem também imensa dificuldade de encontrar os recursos que desbaratam para o que é importante, a educação e a cura de que o Papa falava.

Sem esquecer que no capítulo dos direitos humanos está um jornalista preso há quase um ano a propósito de uma das muitas novelas de ficção tecidas pelo sistema com motivações políticas e que contribuem para o descrédito da justiça angolana. Ainda na semana que passou, a polícia, que devia ser republicana, prendeu por quatro dias um jornalista por estar a fazer o seu trabalho, também previsto na Constituição, de informar o público sobre um protesto que ocorria frente ao edifício da Sonangol na baixa.

Hermenegildo Caculo, repórter do Folha 8, ficou na esquadra detido de segunda a quinta-feira, privado do convívio familiar, bem como a sua família ficou privada da sua presença. Dormiu em cadeiras e bancos na esquadra três noites, talvez porque alguma presença de espírito de algum responsável da polícia desaconselhou à colocação do jornalista numa cela – reconhecendo que estava só a fazer o seu trabalho. No quarto dia, quando foi presente ao juiz em julgamento sumário, o jornalista foi informado, bem como o seu advogado, de que não só não existia acusação do Ministério Público que sustentasse a sua detenção, como sequer havia o registo obrigatório da mesma, fazendo com que se tratasse de mais do que um abuso de autoridade, um abuso de autoridade absolutamente ilegal e que atropelou até as regras mais básicas do sistema de justiça.

Um sistema que só encontra a sua razão de ser no servir o cidadão mas que o destrata com absurda frequência.

E agora pergunto eu se não há respeito pelo que a Constituição prevê, se as autoridades não são republicanas e o sistema não consegue trabalhar com respeito aos direitos humanos, sendo que os direitos a informar e a ser informado constam dessa lista, que esperança para reforma pode existir? Se não se respeita esta Constituição, por que razão se iria respeitar uma nova? O problema não está na falta de leis, está no atropelamento das mesmas.

A privação da liberdade de jornalistas por cobrirem protestos em Luanda por vários dias de forma absolutamente arbitrária continua a acontecer com uma frequência revoltante, e que demonstra inequivocamente o “flagrante desrespeito pela liberdade de imprensa e pela segurança dos jornalistas”.  “um padrão preocupante de assédio, como dizia a minha chefe, no Comité de protecção dos jornalistas, Ângela Quintal, a partir de Nova Iorque, a propósito do caso”. Ela que esteve em Angola no ano passado, precisamente na altura em que o mesmo jornalista e três outros foram detidos também durante a cobertura de um protesto que naquela altura era de estudantes que reclamavam melhores condições nas escolas. O apelo da minha chefe em nome do CPJ é o de que as autoridades angolanas investiguem de forma credível e responsabilizem os culpados por mais este abuso de autoridade. Ela é uma crente fervorosa e, evidentemente, mais esperançosa na capacidade de emenda das autoridades angolanas do que eu. Mas pode ser que a visita do Papa inspire à redenção, sendo que as suas palavras assinalaram que é “fundamental valorizar as diferenças, escutar as aspirações dos jovens e respeitar a sabedoria dos mais velhos, transformando os conflitos em caminhos de renovação e colocando sempre o bem comum acima dos interesses particulares.” Um recado claro para a liderança que não escuta e que se esquece do bem comum com facilidade. Mas é com esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.

 

 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico