“Estamos ainda muito longe de equilibrar a conversação da biodiversidade e a exploração”
Entrevista. Entende que o país tem produzido legislação, mas continua a falhar na educação ambiental e na aplicação prática das medidas de conservação. Nesta entrevista, feita a propósito do lançamento do livro Mais Estrofes da Bicharada, defende que é preciso investir mais na formação das novas gerações e transformar o conhecimento ambiental em acção concreta para garantir um desenvolvimento sustentável.
Depois de vários anos a utilizar a escrita como instrumento de educação ambiental, regressa ao universo da literatura infantil com o Mais Estrofes da Bicharada…
O “Mais Estrofes da Bicharada” é a continuidade de um outro livro que escrevi em 2014, que era Estrofes da Bicharada. Este é Mais Estrofes, é um volume 2 com outras histórias. O primeiro livro, digamos assim, foi porque a professora de português do meu filho pediu que se fizessem ditados, porque os meninos que estavam a estudar na altura 3ª ou 4ª classe não tinham vocabulário, porque o vocabulário era muito rico. Então havia a necessidade de se fazer ditados, aquela forma tradicional de ensinar, que achei bastante aborrecida, porque se fala por ditado, então decidi construir com o meu filho novas histórias. Este já não segue o mesmo princípio, já não foi a fazer com ele, foi sozinho, mas tem dois ou três objectivos. O primeiro é ensinar um pouco às crianças sobre a nossa rica biodiversidade. O Mais Estrofes da Bicharada tem doze animais que existem no nosso país, uns mais conhecidos, outros menos. Obviamente que toda a gente já terá ouvido falar da zebra e do rinoceronte, mas se calhar poucos ouviram falar da andua e do mantrindindi. Portanto, o objectivo é apresentar outros animais. Um segundo objectivo é, porque o livro é feito em estrofes, para que a rima permita essa aproximação com os alunos e com as crianças, passar a mensagem de que nós temos sonhos e devemos sonhar. Todos os animais têm sonhos. Há um que quer ser futebolista, há outro que quer ser cozinheiro. É entrar num mundo imaginário. Trazer este elemento de imaginação, mas também de sonhos, que nós não devemos desistir dos nossos sonhos. E o terceiro objectivo é também trazer palavras novas. Jogar um pouco com a rima, mas utilizar palavras que não são comumente utilizadas para que as crianças, e não só, possam identificar e aprender novas palavras.
Acredita que até aqui já conseguimos notar alguma evolução das crianças sobre o conhecimento destas temáticas?
Temos muitas crianças às quais plantamos uma semente há alguns anos e que, anos depois, estão a trabalhar na área do ambiente. Ou mesmo que não estejam a trabalhar na área do ambiente, vão ser formadas noutras áreas, têm essa paixão pelo ambiente e transportam essa mensagem para o ambiente. Essa semente que vamos plantando, ou que temos estado a plantar nos últimos 30 ou 40 ano tem tido resultados. Se reparar, agora a maior parte dos discursos de ministros, presidentes de conselhos de administração, de empresas fala sobre as questões de sustentabilidade ambiental. Já não é possível vivermos sem esse elemento. E, obviamente, quanto mais sementes plantarmos, mais iremos colher no futuro. É preciso perceber que nós temos em Angola, todos os anos, um milhão de novas crianças. Quer dizer que, ao longo do ano, temos que trabalhar com esse número de pessoas, pelo menos. É preciso plantar esta semente, mas, obviamente, que há muitos resultados positivos.
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