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Emídio Fernando

Emídio Fernando

CONFLITO. Depois do Iraque, Bósnia, Afeganistão, Líbia, o mundo enfrenta nova ameaça de entrar em guerra. De novo, o petróleo e posições geográficas estratégicas estão no centro do furacão.

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A história repete-se. A invasão norte-americana ao Iraque, em 2003, e apoiada pelos aliados, foi justificada pela alegada instalação de armas de destruição em massa. Depois dos ataques, provou-se que Saddam Hussein nunca mandou construir, nem o país tinha essa capacidade, esse armamento. Morreram mais de 500 mil civis e três mil soldados norte-americanos, mas a indústria militar dos EUA e do Reino Unido obteve lucros que ultrapassaram os 800 mil milhões de dólares.

Quinze anos depois, o alegado uso de armamento químico, na Síria, volta a levantar os ‘fantasmas’ de uma guerra com os EUA e a Rússia a entrarem numa escalada verbal. O mesmo ‘filme’ já foi visto antes das guerras na Bósnia, no Afeganistão e na Libia. No Twitter e em declarações à imprensa, Donald Trump ameaçava atacar Bashar Al-Assad, “em breve”, mas sem especificar datas. A Rússia ripostava com um sério aviso aos EUA de que os dois países entrariam em guerra, caso os “norte-americanos tentassem invadir a Síria”. No Reino Unido, sexta-feira, estava reunido o Conselho de Guerra sob ordens da chefe do governo, Theresa May. Tanto no Iraque como na Síria, as verdadeiras causas da guerra passam pelos ganhos económicos e pelas vantagens dos dois países com posições geográficas estratégicas. Como ‘pano de fundo’, surgem as divergências religiosas e interesses dos radicais islâmicos. O Iraque tem as maiores jazidas de petróleo do mundo. A Síria, além do petróleo, é o maior ‘condutor’ de gás do planeta.

O conflito começou em 2011 quando muitos sírios resolveram, aproveitando a ‘onda’ da ‘primavera árabe’, afrontar nas ruas o poder de Bashar Al-Assad que tinha sucedido na presidência ao pai, Hafez, em 2000. Os altos índices de desemprego, a corrupção e as constantes violações à liberdade foram os pretextos. O clima agravou-se quando a polícia reprimiu os manifestantes, usando a força letal. Apoiantes da oposição começaram a surgir com armas e, de imediato, os EUA colocaram-se contra Assad, enquanto o presidente sírio lamentava ser vítima do “terrorismo islâmico”. De facto, Al-Assad, sunita, sempre desprezou a maioria da população xiita de onde parte grande parte do radicalismo islâmico, liderada pelo Daesh. Mas a guerra na Síria tem ainda outros contornos. A população curda que luta pelos seus direitos, dominando a região mais rica em petróleo. Foram os militares curdos, apoiados pelos EUA, que reconquistaram cidades dominadas por radicais e onde tinham as maiores jazidas de petróleo, na província de Deir ez-Zor. São estas conquistas que o curdos querem manter, mesmo que acabe a guerra. Mas, para isso, precisam de derrubar Bashar al-Assad, o presidente que é apoiado pela Rússia, de Vladimir Putin.

A batalha pelos recursos marca assim toda a estratégia e coloca o mundo à beira de uma guerra. Perante mais de 80 por cento dos recursos petrolíferos nas mãos dos radicais islâmicos, o exército sírio lançou uma ofensiva, na semana passada. A tal que foi acusada de ter usado armas químicas. Por outro lado, desencadeou ataques contra os opositores do governo que também dominam parte do território.

Os EUA afinam os mísseis e contam com o apoio de quase todo o mundo ocidental, a começar pelo Reino Unido e ainda pela Turquia e Arábia Saudita. Mas conta com a forte oposição da Rússia e do Irão, os mais fiéis apoiantes de Bashar al-Assad. Os russos, que sempre tiveram bases militares na Síria, nunca negaram apoio ao presidente sírio. O Irão enviou soldados e mais de quatro mil milhões de dólares em ajuda. Milhares de muçulmaos, treinados e financiados por iranianos, lutam ao lado do exército.

Os rebeldes contam com o apoio da Turquia, porque também quer travar a ascensão curda, e contam com o dinheiro da Arábia Saudita, que pretende parar a influência iraniana.

De inspecção em inspecção

É neste caldo internacional que se movimenta a diplomacia agora, de novo, em intensa troca de acusações. Os EUA e o Reino Unido insistem que al-Assad usou armas químicas. O governo sírio responde que foi encontrado armamenro da NATO nos bastiões dos chamados ‘terroristas’ islâmicos.

Tal como aconteceu no Iraque, em 2003, e na Libia, em 2011, a comunidade internacional prepara-se para entrar numa guerra. E tal como no Iraque, haver ou não invasão dos EUA depende de duras conversações.

Washigton, através do secretário da Defesa, Jim Mattis, afirma “acreditar” que houve um ataque químico e que até há indicações disso, mas que admitindo que procura provas. A estação de televisão NBC citava peritos dizendo que encontraram vestígios de cloro e um gás de nervos no sangue e urina das vítimas do ataque.

Por outro lado, a Rússia nega o ataque, assegurando que as tropas russas tinham entrado em Douma, a cidade atingida, e que não encontraram quaisquer provas. O ministro russo dos Negócios Estrangeiros acusou mesmo um país “russófobo” de ter “encenado o ataque”.

Em França, o presidente Emmanuel Macron assegura haver provas, mas salvaguarda que uma intervenção francesa necessitaria de “todas as verificações”.

A Organização Mundial de Saúde contabilizou 500 pessoas potencialmente afectadas com sintomas “consistentes com a exposição a químicos tóxicos” e, por isso, pediu a Damasco o acesso a inspectores.

Uma possível entrada de inspectores pode demorar tempo, prevêem analistas internacionais, o que leva, de novo, ao exemplo do Iraque. Foram meses entre visitas de inspectores e relatórios inconclusivos até à invasão dos EUA.

INDÚSTRIA BÉLICA. Venda de armas e munições disparou, atingindo números só comparados aos anos anteriores a 1990. Principais beneficiários são os EUA e a Europa Ocidental, revela um estudo do Instituto Internacional da Pesquisa da Paz. Ano passado foi o mais rentável dos últimos cinco anos.

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O negócio de venda de armas ganhou dois elementos de peso nos últimos anos: os drones e os sistemas aeroespaciais. São eles que estão a contribuir para os elevados números que se registaram no ano passado, mas não chegam para explicar os recordes. Em 2017, a venda de armas, munições e tanques proporcionaram um aumento de 1,9% em relação a 2016 e mais 38% em relação a 2002. Já o ano anterior, 2016, tinha quebrado uma tendência de descida que se registava nos cinco anos anteriores.

Dados do Instituto Internacional da Pesquisa da Paz (Sipri, sigla em inglês) indicam que foram vendidos mais de 374 biliões (10 vezes mais do que mil milhões) de dólares em armamentos e sistemas ligados a armas.

Desde que há dados compilados, a partir de 1975, os EUA lideram a indústria e, nos últimos anos, não fugiram à regra. Ao contrário do que seria lógico, com o final da guerra fria, os norte-americanos aumentaram a produção de armas. Em 2016, registou-se um aumento superior a 4%. Nas duas últimas décadas, a indústria dos EUA tem sido impulsionada pelas intervenções e invasões ao exterior. Também dentro do país, houve um aumento significativo de venda de armas, na última década.

Os EUA cumprem assim uma promessa de Donald Trump, o actual presidente, feita ainda em campanha eleitoral: “Vamos gastar o que for necessário para reconstruir as nossas forças armadas. Esse é o investimento mais barato que podemos fazer. Vamos desenvolver, construir e comprar os melhores equipamentos existentes. O nosso domínio militar deve ser inquestionável”.

O grupo norte-americano Lockheed Martin continua a liderar no fabrico de armamento, especialmente graças aos novos modelos de ‘caças’ F-35 que foram comercializados para o Reino Unido, Itália e grande parte dos países membros da NATO. Entre os 100 maiores fabricantes, o grupo detém 10% do volume de vendas.

De acordo com os dados da pesquisa sueca, na Europa, segundo maior fornecedor de armas, as posições começam a inverter-se. França e Itália baixaram o número de vendas, enquanto os britânicos e os alemães aumentaram os negócios. O ‘forte’ do Reino Unido são os sistemas aeoroespaciais, o da Alemanha são os blindados.

Ásia ‘quente’

Fora do mundo Ocidental, a Coreia do Sul é o país que mais contribui para o crescimento de vendas de armas, graças, sobretudo, à tensão que se vive na zona com a vizinha Coreia do Norte. Nos últimos dois anos, os sul-coreanos produziram mais 22% de armamento. O Ministério da Defesa aumentou o seu orçamento, mas compra 90% dos produtos na indústria caseira.

A China surge com apenas 5,6% no número de vendas, mas os pesquisadores admitem que há empresas chinesas a integrar o grupo das 20 fábricas mais rentáveis. Mas salvaguardam que os dados estatísticos são pouco confiáveis, devido à pouca informação disponibilizada.

Tal como na Coreia do Norte, cujo reforço de capacidade militar tem sido testado com o lançamento de misseís, mas onde não existe informação fidedigna. Tal como nos anos anteriores, a venda de armas acompanha o preço de petróleo. Sempre que o petróleo cai, as vendas descem. Ao contrário dos anos antes do fim da guerra fria, a maioria das fábricas vende no próprio país, aos ministérios da Defesa, que, por sua vez, tratam de as exportar. Já são poucos os fabricantes que vendem directamente ao exterior.

FORTUNAS. São pastores que ganharam fama internacional, poder político e, sobretudo, muito poder financeiro. Graças às pregações, criaram fortunas incalculáveis e impérios que se estendem por vários países. Dos 20 mais ricos, sete são nigerianos. Maior fortuna obtida através da pregação está nas mãos do líder da IURD, Edir Macedo. Em quase todos, há denominadores comuns: gostam de viajar em jactos privados, têm adoração por carros de luxo, são apaixonados por televisão, são narcisistas e têm uma concepção muito especial da gestão de uma igreja.

 

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1 Edir Macedo

O senhor Record

É o ‘imperador’ dos pastores evangélicos. Aos 73 anos, acumula uma fortuna de mais 993 milhões de euros. Fundou a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e é o dono da Record, a terceira maior cadeia de televisão do Brasil. Tem ainda metade do banco Renner. Só o seu avião privado está avaliado em 45 milhões de dólares. Já foi acusado, ao longo dos anos, de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de capitais. Começou por vender bilhetes de lotaria, num pequeno quiosque, e, em 1977, fundou a igreja que hoje tem mais de oito milhões de seguidores, 15 mil pastores em 105 países. É a 29.ª maior igreja no mundo.

 

2 Kenneth Copeland

Com frota de aviões

Escritor, orador, fundou os Ministérios Kenneth Copeland, uma organização cristã que funciona nos EUA e que já lhe permitiu acumular uma fortuna de cerca de 665 milhões de euros. Começou por ensinar a bíblia e depois a evangelizar na televisão. Hoje é dono da God Tv e da Daystar Television Network. Em 2010, promoveu uma campanha para o Haiti, mas ficou com o dinheiro. Aos 80 anos, tem cinco aviões privados, cada um avaliado em 17 milhões de dólares.

 

3 Pat Robertson

Nos ‘diamantes de sangue’

Chegou a ser candidato às eleições nos EUA, dando corpo a um projecto político que o levou a criar a rede de televisão Christian Broadcasting Network. Antes, fundou o Clube 700, um programa de televisão suportado por 700 empresários. Entre os seus negócios, entra a exploração dos chamados ‘diamantes de sangue’, em minas na Libéria e defendeu Charles Taylor, quando este foi acusado de crimes contra a humanidade. Foi advogado e, aos 87 anos, tem uma fortuna avaliada em 425 milhões de euros.

 

4 George Foreman

Boxe no púlpito

Aos 28 anos, converteu-se ao cristianismo, abandonando o boxe. Ao contrário de outros pastores, já chegou rico à profissão e tem distribuído parte da fortuna, avaliada em 220 milhões de euros, pelos mais pobres em Houston, nos EUA. Gosta de ser tratado por empresário, apesar de ter criado uma igreja. Divide o seu tempo a pregar e a promover churrasqueiras eléctricas portáteis.

 

5 David Oyedepo

A maior igreja

É o pastor mais rico de África, com uma fortuna de 150 milhões de euros. Construiu uma das maiores igrejas do mundo, na Nigéria, que é a sede do Santuário da Fé, a congregação que ele próprio fundou, ocupando mais de 40 quilómetros quadrados perto da capital, Lagos, a que ele chamou Canaanland. O local tem capacidade para acolher 50 mil pessoas sentadas. A igreja tem fiéis em 45 países africanos e ainda nos EUA e no Reino Unido. Arquitecto de profissão, converteu-se ao cristianismo por outro pastor milionário, Kenneth Copeland.

 

6 Enoch Adeboye

Graças à política

Formou-se em matemática aplicada, mas foi com outros números que construiu uma fortuna de 120 milhões de euros. Chegou a ser considerado, pela revista Newsweek, uma das 50 pessoas mais influentes do mundo, devido às suas ligações com a política, não só na Nigéria, mas na Europa e nos EUA. É professor universitário e lidera a Igreja Cristá Resgatada.

 

7 Ayodele Oritsejafor

Da banca aos jornais

Os seus negócios não se ficam pela Igreja da Bíblia Palavra da Vida. Estendem-se à banca, imóveis, transportes e média. Gere uma fortuna de 102 milhões de euros que o ajuda a manter um canal de televisão visto em 75 países, em África, Ásia e Europa. Já foi classificado como terrorista, por dirigir a organização cristã ‘Homens novos’, e hoje lidera a associação cristã, na Nigéria.

HISTÓRIA. Relações entre Angola e Portugal nunca foram totalmente pacíficas. Cada período de ‘namoro’ era interrompido por lutas diplomáticas. Primeiro, por causa da ideologia e da guerra. Depois, por causa da justiça.

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Era quase uma fatalidade diplomática: sempre que, em Portugal, o Partido Socialista (PS) chegava ao poder, as relações entre Luanda e Lisboa deterioravam-se. Vivia-se no tempo da guerra fria, em que Angola, além de um fortíssimo ponto estratégico na gestão de interesses dos EUA e de União Soviética, funcionava como um laboratório ideológico em que o liberalismo económico se opunha ao socialismo científico.

Pelo meio, Angola enfrentava uma guerra civil, total, que paralisava todo o país e tinha a UNITA no centro do furacão. Na liderança, Jonas Savimbi variava na ideologia entre ser apoiado pelos EUA e o restante mundo ocidental e estar suportado por uma África do Sul, racista, governada por uma minoria ‘branca’ que defendia a separação de raças. Do outro lado, o MPLA, partido no poder desde a independência, assumidamente pró-soviético, marxista-leninista e apoiado por Cuba.

Neste caldeirão ideológico, por Portugal, metia-se o PS, sobretudo Mário Soares, anti-comunista e ‘velho’ amigo da UNITA e de Jonas Savimbi.

A guerra em Angola reflecte-se assim nas relações entre os dois países, especialmente até 2002. Chovem da parte de Luanda acusações de tentativas de ingerência interna. Por Lisboa, circulam e são apoiados todos os oponentes ao Governo do MPLA.

O clima de crispação é mais alto nesses anos, em especial na década de 1980, só travado primeiro pela ascensão de Aníbal Cavaco Silva, à liderança do executivo português, em 1985, e, mais tarde, pelas sanções impostas pelas Nações Unidas à UNITA, a partir de 1994.

Desde a declaração da independência que se adivinha uma tensão entre os dois países. Lisboa demora a reconhecer oficialmente o novo Estado, acabando por acontecer só em 1976, sendo a 88º país a fazê-lo. Já o novo poder, em Portugal, abraça as ideias capitalistas, enquanto Angola não larga o mundo soviético.

Agostinho Neto, primeiro Presidente angolano, e Ramalho Eanes, chefe de Estado português, conseguem um primeiro entendimento de cooperação e económico, num encontro em Bissau, em 1977. Mas, nos bastidores, vive-se um clima de crispação, só ultrapassado no funeral de Agostinho Neto, em 1979. Mas teve de haver uma segunda tentativa de normalização de relações, desta vez, entre José Eduardo dos Santos e o novo primeiro-ministro português, Francisco de Sá Carneiro.

Dispara as trocas comerciais, Angola passa a exportar petróleo e café e a importar mercadorias de Portugal, sobretudo materiais de construção civil e alimentos. Mas são anos de pouca dura. A morte de Sá Carneiro e a posterior derrota do PPD (Partido Popular Democrático, hoje PSD) levam à liderança do governo lisboeta Mário Soares e o PS e é quando a UNITA passa a ter uma ‘passadeira vermelha’ em Portugal.

O governo apoia a criação de ONG ligadas ao movimento de Jonas Savimbi, contrata dirigentes da UNITA para que possam exercer as suas funções políticas, suporta todas as iniciativas, facilita a circulação e ajuda na criação de formação profissional a dirigentes da UNITA e recebe jovens da Jamba para estudar em Portugal.

Luanda ameaça com cortes de relações, queixa-se de ingerência interna e encontra apoios portugueses no Partido Comunista.

A chegada de Cavaco Silva, ao poder português, muda radicalmente a forma de encarar as relações entre os dois países. Logo no início do mandato, Cavaco Silva determina que as relações entre Portugal e as suas ex-colónias africanas obedeceriam ao princípio do respeito mútuo ‘Estado a Estado’.

Nos dez anos seguintes, aumentam os negócios entre os dois países (mesmo com a situação de guerra vivida em Angola); amplia-se a cooperação que deixa de ser meramente cultural para abranger o ensino e a formação militar; sobem as ajudas externas de Portugal a Angola; são estabelecidas as relações diplomáticas normais entre os dois países. Do lado de Luanda, o pragmatismo de Cavaco Silva encontra respaldo na liderança de José Eduardo dos Santos, também ele prático na diplomacia e à procura de apoios para colocar um ponto final na guerra.

São 10 anos decisivos em que o primeiro-ministro português cria um centro nevrálgico para mediar o conflito em Angola, de tal forma que viola a lei, escondendo as conversações, ao mais alto nível, do presidente português da altura, Mário Soares. São assinados os acordos de Bicesse e, mais tarde os de Lusaka, em que Lisboa tem um papel decisivo. Entre os dois países, há um reforço de cooperação que ganha alento quando Portugal começa a respeitar as sanções impostas pelas Nações Unidas à UNITA. Lisboa obriga ao encerramento da delegação de Jonas Savimbi e proíbe a circulação de dirigentes da UNITA.

Mesmo assim, de novo, as relações entram num período de maior frieza com a chegada ao poder de António Guterres, eleito pelo PS, e hoje secretário-geral da ONU.

Queridos em Angola

De novo, reata-se a relação, em especial a económica, com Durão Barroso, líder do PSD, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros que liderou as conversações entre o Governo e a UNITA e que soube rodear-se de políticos ‘queridos’ a Luanda: António Monteiro, ex-embaixador, nascido em Angola e amigo do MPLA; e Martins da Cruz, também ex-embaixador e hoje ‘lobbista’, consultor e defensor de empresas angolanas no estrangeiro.

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Poucos anos depois e, pela primeira vez, o regresso do PS à chefia do governo português não estraga as relações. José Sócrates é também um pragmático e encontra Angola com um crescimento económico nunca visto, depois dos acordos de paz, assinados em 2002.

Curiosamente, é com o PSD, desta vez, com Pedro Passos Coelho que mais se nota o ‘sobe-e-desce’. Começa bem, apesar de ter um ministro, Paulo Portas, que classificava “o regime angolano como uma cleptocracia”. Sinais dos tempos, o mesmo Paulo Portas é hoje consultor de empresas angolanas. Mas, em 2013, dá-se uma quase ruptura quando José Eduardo dos Santos corta a parceria estratégica com o argumento que “só com Portugal, têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político actual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica”. Só em 2015, de novo com os socialistas no poder lisboeta, Angola ‘volta à carga’, mas desta vez com o afamado ‘caso Manuel Vicente’.

Datas mais significativas de uma relação intensa

l Janeiro 1976 – Portugal abre o Consulado Geral em Luanda.

Março 1977 - Embaixador português, João Sá Coutinho, apresenta as credenciais ao Presidente de Angola, António Agostinho Neto.

Junho 1978 - Abertura da embaixada de Angola em Lisboa, nomeado o embaixador Adriano Sebastião.

Junho 1978 - Agostinho Neto e Ramalho Eanes assinam, na Guiné-Bissau, um acordo de relacionamento. O documento passou a ser denominado ‘Espírito de Bissau’.

Junho 1978 – Angola e Portugal assinam o Acordo Geral de Cooperação, que recomenda a instituição de uma Comissão Mista Permanente de Cooperação luso-angolana.

Janeiro 1979 – É assinado, em Luanda, o Acordo Comercial, válido até 1988. Este documento e um outro, no domínio financeiro, viriam a incentivar as importações de Angola de produtos portugueses.

1981 - As vendas portuguesas para Angola ultrapassam os 13 milhões de contos (65 milhões de euros).

Fevereiro 1979 – É assinado o acordo entre os dois países no sector eléctrico.

1982 a 1986 - Cooperação entre Angola e Portugal atinge níveis recordes. Comércio global ultrapassa os 114 milhões de contos (570 milhões de euros). Angola compra a Portugal mercadorias no valor de 400 milhões de euros e vende 165 milhões de euros, o que representou um saldo favorável a Portugal.

1985 - Angola é o 10º cliente de Portugal, a nível mundial, e primeiro dos PALOP e da África Subsahariana.

1986/1987 – Descida vertiginosa dos fornecimentos de Portugal a Angola devido às medidas restritivas do Governo angolano, face à queda do preço do petróleo.

Maio 1987 – Assinado o acordo do petróleo que prevê o fornecimento, por parte de Angola, de 25 mil barris diários a Portugal.

Setembro 1987 - José Eduardo dos Santos visita Portugal, pela primeira vez. A visita é antecedida pela III reunião da Comissão Mista. É assinado um Protocolo Adicional ao Acordo de Cooperação Económica.

1988 - II Encontro de Empresários dos dois países, em que se discute a cooperação empresarial e a tentativa de reforço da componente associativa. l 1990 – O MPLA, partido único no poder, opta pela abertura da sociedade a um sistema de democracia pluripartidária e de economia de mercado livre.

1990 – Portugal inicia a mediação do processo de paz que viria a culminar nos Acordos de Bicesse, em Maio de 1991.

Abril 1991 - IV Comissão Mista, em Lisboa, estabelece um Programa-Quadro bienal, regulador e coordenador da cooperação bilateral luso-angolana.

Novembro 1991 - III Encontro Empresarial luso-angolano, com o objectivo de traçar as perspectivas do investimento directo português no mercado angolano e remover obstáculos que condicionam a iniciativa empresarial.

Setembro 1992 – Primeiras eleições livres em Angola que dão a vitória ao MPLA e a José Eduardo dos Santos. A UNITA não reconhece os resultados. l Novembro 1992 – Reacende-se a guerra em Angola. Angola suspende o pagamento a dívida a Portugal.

Novembro1994 – Assinatura do Protocolo de Lusaka, entre o Governo e a UNITA.

Setembro 1995 -  Mesa Redonda sobre Angola, em Bruxelas. O Governo recebe promessas de ajuda de mil milhões de dólares para o Programa de Reabilitação Comunitária e Reconciliação Nacional e a ajuda humanitária. Portugal participa com uma ajuda significativa.

Maio 1996 - Vª Reunião da Comissão Mista Permanente de Cooperação Portugal-Angola. É assinado um Acordo de Cooperação Financeira, de promoção do investimento de conversão da dívida angolana e de adequação dos instrumentos financeiros. l Julho 1996 – Constituída a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que cria um espaço de cooperação multilateral entre os dois países.

1997 – Assinado um memorando de entendimento para converter uma parte da dívida em capital nas empresas angolanas reprivatizadas (nunca chegou a acontecer).

Julho 2000 – Acordo entre Angola e Portugal no quadro do Programa Indicativo de Cooperação, que prevê uma dotação de 75 milhões de euros para Angola.

Abril 2006 – José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal, visita Angola acompanhado por 70 empresários portugueses

Julho 2010 – A Feira Internacional de Luanda (FILDA) recebe as visitas do presidente e do primeiro-ministro portugueses. Cavaco Silva e José Sócrates assinam acordos de cooperação. Participam 107 empresas portuguesas, 33% das presenças na FILDA.

CONTENÇÃO. Com economias em crise, muitos líderes optaram por dar um exemplo: reduziram os salários. O último a fazê-lo foi o liberiano George Weah, mas o mais emblemático acabou por ser Mujica que dispensou todas as mordomias.

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Antigo futebolista, construiu uma fortuna a jogar pelos clubes europeus Paris Saint Germain e Ac Milan, foi considerado melhor jogador do mundo em 1995 e sonhou ser presidente do país onde nasceu, a Libéria.

George Weah conseguiu concretizar esse sonho, mas que depressa se transformou num pesadelo quando olhou para as contas do Estado. Foi empossado no mês passado e, como primeira medida, sentiu-se obrigado a reduzir salário e benefícios. E logo em 25%. No anúncio, alertou para o mau estado da economia: “A nossa economia está falida. O nosso Governo está falido. A nossa moeda numa queda livre. A inflação a subir. O desemprego nunca foi tão alto e as nossas reservas estrangeiras nunca foram tão poucas”. Os 25%, cerca de 22.500 dólares anunais, vão engrossar um fundo de desenvolvimento que ele próprio criou para a Libéria. George Weah venceu as eleições presidenciais em Dezembro, sucedendo a Ellen Johnson Sirleaff. Durante a campanha, tinha prometido um férreo combate à corrupção endémica, na república mais antiga de África, criada, em 1847, por escravos libertados pelos EUA.

A medida de George Weah não é inédita no mundo, nem sequer em África. Para dar exemplo, vários líderes recorrem aos próprios cortes salariais. Recentemente, foi o presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, que cortou o salário dele e do vice, passando a receber 70 mil dólares anuais, contra os 100 mil anteriores. Buhari, depois de ter liderado um golpe militar e de três tentativas para chegar à presidência, acredita que vai restaurar a economia local.

Muito antes de Buhari, na Guiné-Bissau, em 2004, o ex-presidente Henrique Rosa aceitou passar a receber apenas 755 euros, contra os 3.280 anteriores. A medida atingiu todos os membros do executivo guineense e de cem deputados.

Em 2017, o presidente do Egipto, Abdel Fattah al-Sisi, por causa da “difícil situação económica”, cortou para a metade o salário, com um anúncio solene, durante uma cerimónia militar: “Doarei ao Estado metade de meu salário, assim como a metade da fortuna que herdei de minha família”. “Não há dinheiro e são necessários grandes sacrifícios”, afirmou Sisi, num discurso que foi visto como o início de uma campanha que serviu para preparar a população para as reduções das despesas públicas.

Em África, de acordo com o jornal Daily Monitor, o presidente mais bem pago é o dos Camarões, que ganha, por ano, 620 mil dólares, mais de 51 mil dólares mensais. Angola aparece na 16.ª posição (atrás da Nigéria e Libéria), com o presidente a auferir 81 mil dólares anuais.

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