O REGRESSO AO EQUILÍBRIO DIPLOMÁTICO
Durante vários anos, mais concretamente após a chegada de João Lourenço ao poder, consolidou-se a perceção de que Angola procurava reduzir a dependência da China e aproximar-se aos EUA e ao Ocidente. A adesão à Parceria para Infra-estruturas Globais, o Corredor do Lobito, o apoio político norte-americano e a visita de Joe Biden a Angola foram os símbolos mais visíveis dessa estratégia.
Durante vários anos, mais concretamente após a chegada de João Lourenço ao poder, consolidou-se a perceção de que Angola procurava reduzir a dependência da China e aproximar-se aos EUA e ao Ocidente. A adesão à Parceria para Infra-estruturas Globais, o Corredor do Lobito, o apoio político norte-americano e a visita de Joe Biden a Angola foram os símbolos mais visíveis dessa estratégia.
Mas havia um problema: os EUA traziam sobretudo influência política, apoio institucional e potencial investimento privado, enquanto a China continuava a ser o parceiro com maior capacidade para financiar infra-estruturas, executar grandes projectos e disponibilizar crédito em larga escala. Face a este cenário, era imperativo que Angola apostasse no equilíbrio diplomático, sem necessariamente escolher um dos lados. No entanto, os factos alimentavam a perceção de uma tendência do Executivo para privilegiar uma das partes em detrimento da outra.
Nesse sentido, a chegada de Donald Trump à Casa Branca pode ter acelerado uma dinâmica que já estava latente. Angola terá percebido que não podia manter uma relação distante com Pequim, quando continua a precisar de financiamento externo para executar grande parte da sua agenda de desenvolvimento.
Os últimos meses apontam para uma maior aposta no equilíbrio ou, em outras palavras, um ajustamento da linha diplomática do Governo de João Lourenço relativamente à tentação de escolher um dos lados. O facto de Vera Daves ter estado em Pequim, de o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás ter reforçado contactos e de ambas as partes terem anunciado progressos na resolução do impasse ligado às garantias petrolíferas dos financiamentos futuros, sugere uma reaproximação efectiva.
Por outro lado, os sinais diplomáticos também contam. O tratamento protocolar dado aos representantes dos dois países indica que Pequim voltou a ocupar um lugar de maior centralidade na agenda presidencial. Depois de 2025, o embaixador da República Popular da China em Angola, Zhang Bin, voltou a ser recebido por João Lourenço, enquanto o registo das últimas interações de alto nível com a representação norte-americana remete sobretudo para 2024.
Mais do que questionar se João Lourenço esteve errado ao aproximar-se dos EUA, a questão central é saber se o Executivo terá incorrido no risco de apresentar essa aproximação como alternativa à China, quando os interesses nacionais parecem exigir uma estratégia mais complementar. Hoje parece não existirem dúvidas dessa realidade. Nem os EUA substituem a China, nem a China substitui os EUA. Angola ganha mais quando evita escolhas exclusivas. Os interesses nacionais não estão em Washington nem em Pequim, mas na capacidade de Luanda manter portas abertas para ambas as capitais — e para outras.









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